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Economia

Economista alemão critica balanço ambiental do etanol brasileiro

Em entrevista à DW-WORLD, Manfred Nitsch, professor de Economia Política da América Latina na Universidade Livre de Berlim, analisa o balanço energético e ambiental da produção de biocombustíveis no Brasil e na Europa.

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Canavial em Capivari, no Estado de São Paulo

O Brasil é o segundo maior produtor de etanol do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, e pretende cobrir pelo menos 2% de sua demanda de combustíveis com biodiesel a partir de 2008. O boom dos biocombustíveis transforma os usineiros em "novos xeiques", mas implica também riscos, como explica o professor de Economia Política da América Latina na Universidade Livre de Berlim, Manfred Nitsch.

DW-WORLD : Quão sustentável é a produção do etanol no Brasil? Qual é o balanço ambiental desse processo?

Manfred Nitsch : O balanço energético do etanol de cana-de-açúcar é muito positivo. Graças ao sol, tira-se de quatro a oito vezes mais energia do que se injeta no processo de produção. O problema do etanol é que a energia na forma de açúcar sempre é mais cara e valiosa como alimento humano do que como intragável combustível. Somente com muitos subsídios é possível estimular os usineiros a produzir etanol em vez de açúcar. Em princípio, isso vale também para os óleos vegetais.

Desde que a União Européia decidiu não mais comprar açúcar por 600 euros a tonelada para revendê-lo no mercado mundial a 200 euros a tonelada, o preço do açúcar dobrou. Já o balanço sócio-econômico e ambiental do etanol, de um modo geral, não é bom, mas também não é catastrófico.

Como é esse balanço para os biocombustíveis produzidos na Europa?

No caso da colza, do milho e de outras biomassas plantadas no hemisfério norte, o balanço energético, na maioria das vezes, é de 1 por 1. Isto significa que se gasta na produção do biocombustível, desde a fabricação do adubo químico usado no campo até o processamento da biomassa, tanta energia quanto sai em forma aprimorada no final. Lembre-se que no caso do açúcar essa relação é de 4/1 até 8/1. Portanto, em termos de balanço energético, pode-se argumentar contra a colza, o milho, o trigo etc, mas não contra a cana-de-açúcar.

Fora a vantagem energética, quais os prós e contras do etanol brasileiro?

Os principais argumentos a favor do etanol são a promessa de criação de empregos, menos emissões de CO2 do que com gasolina, a economia de divisas, a liderança mundial brasileira nas tecnologias de biocombustíveis e o uso de menos de 2% da área cultivável do país para produzir 16 bilhões de litros em 2006.

Os contras são as condições precárias de trabalho e remuneração dos cortadores, as queimadas durante a colheita da cana, o uso maciço de adubos e pesticidas e os altos subsídios, créditos baratos e vantagens fiscais, que chegam a 1,5 bilhão de dólares por ano, além da aposta em commodities tradicionais e tecnologias pouco demandadas em outros países. Além disso, há o risco de acirramento dos conflitos de terra e de um cerco à agricultura alimentar e às reservas naturais.

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Há freqüentes denúncias sobre trabalho escravo nos canaviais. As empresas realmente precisam explorar seus funcionários para serem competitivas?

Como se trata de um trabalho duro, puramente braçal, sempre existe a ameaça de sua substituição pela máquina. Nenhuma manifestação contra a demissão de funcionários vai mudar a antiga lei que leva o progresso técnico a substituir a mão-de-obra. Essa pressão da mecanização é um trunfo na mão das empresas, mas ela também abre a chance de financiar um grande número de desempregados.

Quais são as vantagens e as desvantagens que o senhor vê no programa brasileiro do biodiesel?

Entre as vantagens vejo, também aqui, a redução das emissões de CO2 e das importações de óleos, a facilidade de mistura com o diesel mineral, a geração de novos postos de trabalho e, como a matéria-prima é cultivável nas diferentes partes do país, não necessita de uma infra-estrutura especial de abastecimento.

Uma das desvantagens é, em regra, o maior consumo de energia no processamento do biodiesel do que no de diesel convencional – o balanço energético costuma ser apenas levemente positivo. Também aqui há a necessidade de subsídios, além de existir o risco da contaminação do solo e dos lençóis freáticos através de adubos e pesticidas.

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Quais são os cenários que o senhor traça para o futuro dos biocombustíveis no Brasil?

O pior cenário seria a concessão maciça de subsídios à produção do etanol como combustível para as classes média e alta, que têm condições de andar de carro ou de avião; enormes subsídios ao biodiesel, dando a entender que é possível mover a atual civilização do automóvel e do avião com biocombustíveis; a destruição do Pantanal e da Amazônia; e as poucas chances de exportação devido ao protecionismo dos parceiros comerciais, como os EUA e a União Européia.

Um cenário favorável aos biocombustíveis teria os seguintes aspectos: alta taxação da gasolina, do diesel e do querosene, para que os biocombustíveis, com um pequeno alívio fiscal, sejam competitivos; forçar a pesquisa nacional e internacional sobre a mobilidade baseada no reaproveitamento do lixo, por exemplo, para produzir biogás; desenvolver tecnologias BTL (Biomass-to-Liquid) e baterias para motores elétricos; certificação nacional e internacional de biocombustíveis produzidos de forma sustentável; um lucrativo comércio internacional com esses produtos; e a proteção conseqüente da Amazônia e das áreas inundáveis do Pantanal.

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