Duzentos anos depois, diálogo com indígenas ainda é desafio para o Chile | Notícias sobre a América Latina e as relações bilaterais | DW | 17.09.2010
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América Latina

Duzentos anos depois, diálogo com indígenas ainda é desafio para o Chile

O Chile deu os primeiros passos em direção à sua autonomia há exatos 200 anos. Hoje, a distensão das relações entre o Estado e o povo mapuche ainda é maior desafio que o país tem pela frente.

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Crianças mapuches

A ditadura militar de Augusto Pinochet deixou uma marca tão profunda no imaginário coletivo internacional que a história do Chile anterior ao golpe de Estado contra o presidente Salvador Allende acabou caindo no esquecimento.

É como se entre 18 de setembro de 1810 – data em que o país deu os primeiros passos rumo à independência, com a formação de sua Primeira Junta de Governo – e 11 de setembro de 1973, o seu grande território estivesse inabitado, como se Allende e Pinochet tivessem saído do nada.

As vitórias do Chile em guerras que culminaram na anexação de províncias peruanas e bolivianas ao seu território, no século 19, dificultam até hoje a relação com seus vizinhos. A Bolívia ainda reclama seu acesso ao mar, por exemplo. Mas a exploração e exportação das riquezas desses solos logo deram impulso à economia chilena.

A administração eficiente dos recursos deu ao país estabilidade de governo, enquanto boa parte dos países latino-americanos estava mergulhada em recorrentes guerras civis.

Salvador Allende

Salvador Allende discursando em 1972

Chile antes de Allende

Apesar de sérias limitações, a democracia se consolidou no Chile entre 1932 e 1973. Quando foi concedido o direito do voto às mulheres, aos trabalhadores rurais, aos analfabetos e aos indígenas, nos anos de 1970, acentuou-se a polarização política que já era crescente desde a década de 1940, devido à estagnação da economia do país e à redução das possibilidades de distribuição de riquezas. E foi essa polarização política que proporcionou a ascensão de Salvador Allende à presidência do Chile.

Paralelamente a todos esses acontecimentos, a imigração de europeus promovida pelo Chile, após ter-se declarado independente da Espanha, e a marginalização dos habitantes nativos – prática herdada dos tempos coloniais – tiveram grande impacto na demografia do país. Desta maneira, os povos indígenas foram reduzidos a uma minoria, cuja voz só se escuta apenas quando clamam por reconhecimento e respeito a seus direitos patrimoniais. É dessa impotência que surgiu a violência que hoje ameaça o Chile.

O maior desafio

Os povos aimará, atacamense, quéchua, rapa nui, colla, alacalufe, yámana, diaguita e mapuche não foram, aparentemente, bem aceitos como chilenos. Eles foram combatidos pelos conquistadores europeus – o povo picunche desapareceu –, discriminados pelos brancos e mestiços chilenos desde o século 19 e expulsos de suas terras pelo regime de Pinochet. Somente a partir dos anos de 1990, os indígenas começaram a ser tratados com um pouco de diplomacia.

No artigo Chile trás veinte años de Concertación (Chile após vinte anos de coalizão), a pesquisadora Claudia Zilla, do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e Segurança (SWP), enfatiza que o país só conseguirá consolidar sua posição de democracia exemplar no continente se for capaz de reduzir suas desigualdades socioeconômicas, depois de superadas as dificuldades trazidas pela crise financeira global e pelo terremoto de fevereiro último.

No entanto, as difíceis relações entre o Estado e o povo mapuche parecem ser o maior desafio que o Chile tem pela frente, ao completar seus primeiros 200 anos.

Contas pendentes

Chiles Ex-Diktator Augusto Pinochet gestorben

Polarização política proporcionou governo de Pinochet

“Há mais potencial de conflito no confronto com os mapuches do que na clássica luta de classes; a desigualdade social pode ser resolvida mais facilmente do que as tensões entre o Estado e os mapuches”, assegura Detlef Nolte, diretor do Instituto Alemão para Assuntos Globais e Regionais (Giga).

Nolte acrescenta que, apesar do grande desequilíbrio na distribuição da riqueza nacional, as camadas mais pobres do Chile têm um poder aquisitivo muito maior do que há 20 anos.

“A discórdia com os mapuches é um dos problemas que não foram resolvidos pelo Estado chileno, que ainda não encontrou uma maneira de abordar o tema de forma satisfatória para ambas as partes”, comenta Nolte.

O pesquisador lembra que os mapuches foram discriminados desde a época da independência, sobretudo durante a ditadura militar, quando foram retirados de seus territórios. “Mas também depois da ditadura foram construídas hidrelétricas em suas terras e de suas florestas se tira grande proveito econômico”, analisa o pesquisador.

Legado para Sebastián Piñera

“Os mapuches não estão dispostos a fazer concessões ao Estado, e o governo não é capaz de dar a esse povo a autonomia que ele quer, por isso há pouco espaço para negociação”, comenta Peter Imbusch, professor de sociologia da Universidade de Wuppertal. Na visão de Imbusch, os mapuches não são ignorados, mas vistos como um grande obstáculo.

Segundo Imbusch, a situação pouco mudou durante os governos da coalizão de centro-esquerda (Concertación de Partidos por la Democracia), que fez oposição a Pinochet e esteve no poder entre 1990 e 2010. Em março último, Sebastián Piñera assumiu o governo como representante da Coalizão pela Mudança, uma aliança de centro-direita. “Agora que há um novo presidente, pode-se ter esperança que ele tome a iniciativa de aproximar-se dos mapuches”, supõe o professor.

Chile Wahlen Sebastian Pinera als Präsident gewählt

O presidente eleito em 2010, Sebastian Piñera

Negociação

“No sul do Chile, onde vivem os mapuches, este conflito interno pode ficar violento nos próximos anos. E, assim como existem setores dos povos indígenas que se radicalizaram e estão dispostos a enfrentar o Estado usando a violência, o governo chileno se ampara na legislação, que é da época da ditadura militar, para enfrentar os mapuches. O governo se vê com uma unidade que não pode aceitar as exigências específicas dos mapuches”, ressalta Nolte.

No entanto, Imbusch adverte que, independente da orientação política dos governos chilenos, ninguém pode se dar ao luxo de manter uma atitude intransigente nesse assunto. “Os mapuches adquiriram uma grande relevância e muita força, graças ao valor que foi dado aos povos nativos nos últimos tempos. Isso significa que há uma opinião pública internacional prestando atenção ao que o Estado chileno faz para integrar os mapuches à sociedade chilena, e ao que fez até agora nesse sentido deixa muito a desejar”, conclui.

Autor: Evan Romero-Castillo (np)
Revisão: Carlos Albuquerque

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