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Cultura

DSO na América do Sul: uma viagem musical no tempo e no espaço

Com Shostakovitch, Tchaikovsky, Strauss e Mahler no programa, maestro Vladimir Ashkenazy liderou orquestra sinfônica de Berlim pelo Brasil e Argentina. Uma turnê que deveria ter acontecido 15 anos atrás.

Seis dias, três cidades, seis concertos diante de milhares de espectadores. Na estrada: um regente, sete membros da equipe – incluindo uma médica –, três jornalistas e 104 instrumentistas – entre os quais, uma mãe com bebê. Eles vêm de todo o mundo: Argentina, Brasil, Chile, China, Estados Unidos, França, Holanda, Hungria, Japão, Polônia, Romênia, Rússia, Sérvia, Turquia, Ucrânia. E da Alemanha, claro.

Deutsches Symphonie Orchester Skype Probe Dirigent Vladimir Ashkenazy

Maestro e pianista russo Vladimir Ashkenazy

Um balanço numérico impressionante da recente turnê pela América do Sul realizada pela Deutsches Symphonie-Orchester Berlin (DSO). Mas que nada revela da aura romanesca envolvendo a empreitada. Pois essa expedição musical transatlântica liderada por Vladimir Ashkenazy era para ter acontecido 15 anos atrás.

Na época, com tudo organizado para a turnê, o pianista virtuose russo e então regente titular da DSO adoeceu, tendo que cancelar sua participação e ser substituído por Marek Janowski. Como ele próprio admite, o fato deixou uma sombra de insatisfação, e sua felicidade foi enorme ao receber o novo convite.

Para completar esse conto de déjà-vu, uma das principais atrações de agora também constava do programa de 1997: a Quinta sinfonia de Gustav Mahler.

De olho nas novas gerações

Desta vez, a turnê se inicia em São Paulo. Começando pequeno, o concerto do dia 12 de maio tem entrada franca e visa em especial o público mirim: Suíte Quebra-Nozes, de Piotr Tchaikovsky, com narração e apresentação dos instrumentos orquestrais ao vivo.

O local é o Auditório Ibirapuera, um romboide branco e vermelho minimalista, no meio do parque homônimo: um projeto tipicamente modernista de um astro da arquitetura brasileira, o centenário Oscar Niemeyer.

Open-Air-Konzert DSO-OJESP

Auditório Ibirapuera: espaço mutifuncional projetado por Niemeyer

O concerto ao ar livre no dia seguinte constitui um clímax precoce da excursão sul-americana. Preparando-se para uma apresentação conjunta com a Orquestra Jovem do Estado de São Paulo (Ojesp), diversos membros da DSO têm-se encontrado regularmente, em som e imagem, com seus jovens colegas, através do Skype, numa série de oficinas virtuais em que aspectos técnicos e interpretativos do repertório são abordados e treinados.

Figura vital nessa fase do projeto foi a violista paulistana Thais Coelho. É ela quem formou a ponte viva entre os dois conjuntos sinfônicos, desdobrando-se em professora, animadora, organizadora, intérprete e tradutora cultural.

Empolgação made in Brazil

Num domingo – Dias das Mães – cinza e garoento, a orquestra alemã toca exatamente no mesmo local do dia anterior. Mas desta vez a perspectiva está invertida, pois o fundo do palco é aberto, dando vista para o parque em volta. O sistema de amplificação, montado pelo engenheiro de som Armando Baldassarra, é exemplar. E o público espalhado pelo gramado mostra-se surpreendentemente atento e resistente a ruídos ambientais e outras distrações em potencial.

Qualquer indício de impulsividade e temperamento latino está bem contido – até os músicos da Ojesp subirem ao palco, para os números de bis. Após o tango EmBRUCHado, original do uruguaio Adrián Varela, a DSO e os jovens de São Paulo – com destaque para os percussionistas – unem forças em dois irresistíveis hits mundiais made in Brazil: Tico-tico no fubá, de Zequinha de Abreu, e Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, em arranjos orquestrais empolgantes.

Aos 75 anos, o maestro Ashkenazy não perde esta chance de confirmar sua fama de ágil dançarino do pódio orquestral. E para a plateia reunida no Parque do Ibirapuera, a força das melodias tão conhecidas se alia a certo orgulho nacional, e o aplauso ao fim do evento parece não ter fim.

Clareza reveladora

DSO – Teatro Municipal de São Paulo, Bühne seitlich

Sinfônica alemã agradece no Teatro Municipal de São Paulo

Em comparação, o local dos concertos finais na metrópole brasileira é antes convencional – porém definitivamente nobre: o Teatro Municipal, inaugurado em 1911 para récitas operísticas.

A acústica da tradicional sala é mais para seca: nela, o solo de trompete que abre a Quinta de Mahler soa solitário e desolado como nunca. Embora impiedosa e mesmo desgastante para os músicos, essa característica sonora do teatro dá às obras escolhidas uma clareza frequentemente reveladora – quer se trate da Sinfonia Pastoral, de Beethoven, quer da Décima de Dimitri Shostakovitch.

Ou – quem diria – do poema sinfônico Don Juan. Longe da usual sentimentalidade e orgia sonora pós-romântica, aqui o complexo contraponto de Richard Strauss soa como que traçado a nanquim, beneficiando-se imensamente tanto da execução precisa da DSO, como da contenção de Ashkenazy e sua fidelidade ao texto musical.

Charme da virada do século

Após uma hora de voo, um total de seis horas de ônibus sob chuva inclemente e uma noite de sono, os músicos de Berlim se moveram em direção ao sudoeste e estão agora prontos para repetir o programa Beethoven-Shostakovitch.

A nova locação é Rosario, terceira cidade mais populosa da Argentina, na província de Santa Fé, às margens do Rio Paraná. Bem menos imponente que seu equivalente paulista, o Teatro El Círculo foi também construído por volta de 1900 para servir à ópera. Chamam a atenção seus delicados afrescos e assentos elegantemente ornamentados de dourado. Assim como o público de habitués, o teatro irradia calor e charme discreto.

Mas quão mal acostumados estão os membros de uma orquestra com quase sete décadas de tradição, que já se apresentou em alguns dos mais refinados espaços de concerto do mundo? Uma que é citada entre as melhores da Europa, e que teve nomes como Fricsay, Maazel e Nagano entre seus maestros titulares? Ainda existe algo que possa arrebatar esses músicos, fazê-los resplandecer de prazer infantil?

Vladimir Ashkenazy probt im Teatro Colón in Buenos Aires

Teatro Colón de Buenos Aires em plena glória

Morte em Buenos Aires

Existe, sim: tocar no Teatro Colón de Buenos Aires! Não é tanto a imponência arquitetônica da casa, sua fama e história nobre, seu glamour eclético, nem mesmo os preços astronômicos dos ingressos que impressionam os profissionais de Berlim. E sim, antes de tudo, a espetacular acústica. E mais tarde, o entusiasmo da plateia, que mal pode esperar pelo acorde final para despejar suas palmas e bravos sobre os músicos.

Após um Don Juan arrebatador, o maestro Ashkenazy em pessoa confere à noite uma nota ainda mais emotiva ao fazer um breve comunicado: o grande barítono alemão Dietrich Fischer-Dieskau acaba de falecer, e esta execução da Quinta sinfonia de Mahler lhe será dedicada.

Mais do que nunca, sob a batuta do venerável regente russo, a Trauermarsch – marcha fúnebre que abre a obra – é tudo, menos chorosa: trata-se, antes, de um grito de desafio em face da própria morte. Executado sem ênfase excessiva e quase sem vibrato, o famoso Adagietto revela-se gélido ritual de luto-e-aceitação – só para, a seguir, ser ridicularizado no burlesco finale.

Para a maior parte dos instrumentistas da Deutsches Symphonie-Orchester, o Teatro Colón parece ter sido o ponto alto musical absoluto da turnê. Pois o que mais seria capaz de fazer um músico de orquestra com longa experiência exclamar, logo após o bis final: "Nossa, estou me sentindo como um superstar!"?

Autor: Augusto Valente
Revisão: Alexandre Schossler

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