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Cultura

Drama do sequestro de Natascha Kampusch vira filme

Jovem austríaca chamou a atenção do mundo quando conseguiu, após oito anos, fugir de seu sequestrador. Depois de virar livro, a chocante história de uma infância perdida chega agora aos cinemas.

A cena inicial de 3096 Dias mostra uma discussão banal entre mãe e filha. Natascha, de 10 anos, bate a porta e sai de casa rumo à escola. A mãe chega a sair à varanda, na esperança de dizer algumas palavras de reconciliação, mas a menina já havia ido embora.

Alguns minutos depois, Natascha cruza com Wolfgang Priklopil e vê seu destino mudar. Tenta gritar, mas é arrastada para o furgão branco do homem, que sai em disparada. O sequestro não foi um ato espontâneo. Priklopil, técnico de comunicação desempregado, havia planejado a ação. Em sua casa no subúrbio de Viena, havia construído um quarto no pequeno porão para prender a menina – em teoria para sempre.

O único acesso ao quarto era através de um pequeno túnel, cuja porta era bloqueada por um enorme cofre. Priklopil vivia sozinho. As poucas visitas que recebia eram da mãe, que lhe levava comida.

A polícia procurou Natascha por semanas. Dois policiais até visitaram a casa de Priklopil, já que seu furgão correspondia à descrição do veículo que estavam procurando. Ele, porém, não levantou suspeitas, apesar de não ter um álibi.

Filmstill 3096 von Sherry Hormann über die Entführung von Natascha Kampusch.

Produção teve dificuldades em achar um ator para interpretar Wolfgang Priklopil

Papéis difíceis

O que começou em 02 de março de 1998 nas proximidades de Viena se tornou um dos mais famosos casos de sequestro da história – e não é surpresa que tenha virado filme. O caso é austríaco, mas foram produtores alemães, Bernd Eichinger e Martin Moszkowicz, que compraram os direitos da história. Eichinger convenceu a diretora americana Sherry Hormann (Flor do Deserto, 2009) a assumir o difícil projeto.

Começar foi um grande desafio, já que muitos atores austríacos e alemães tinham reservas em relação ao filme. "Diversos atores recusaram o papel de Wolfgang Priklopil sem ao menos ler o roteiro", conta Hormann. "Se eles não têm problemas em interpretar nazistas, assassinos ou pederastas, então por que não interpretar alguém como ele?"

A cineasta finalmente encontrou seu elenco no Reino Unido e na Dinamarca. A atriz inglesa Amélia Pidgeon interpreta Natascha quando criança, e Antonia Campbell-Hughes a faz quando adolescente, com uma combinação de fragilidade e grande força de vontade.

Para Campbell-Hughes, 3096 Dias foi um desafio único: "Eu vi alguém que conseguiu sobreviver com uma poderosa força de vontade e senso de coragem. Às vezes, eu ficava deprimida e lutava contra meus sentimentos porque tudo era tão complexo."

Estratégias de sobrevivência

O ator dinamarquês Thure Lindhardt retrata Wolfgang Priklopil não como uma pessoa insana, mas como alguém que sofreu com o chamado Transtorno de Personalidade Bordeline (TPB) e que cometeu atos de violência e humilhação em diferentes variantes.

Priklopil se comporta de maneira brutal e obsessiva quando bate em Natascha, raspa seu cabelo ou deixa a menina dias sem comer. Mesmo assim, Lindhart vê nele um homem que é vítima de suas próprias circunstâncias.

Filmstill 3096 von Sherry Hormann über die Entführung von Natascha Kampusch.

Grande parte do filme se passa no porão onde Natascha vivia

"Ele teve uma mãe muito possessiva e não era uma pessoa normal", disse o ator. "Para mim, a história não é somente sobre poder, mas também sobre amor – especialmente a falta dele. Pessoas que não recebem amor podem começar a abusar de seu poder para consegui-lo."

O filme, ainda sem previsão de estreia no Brasil, foi feito em inglês e a maior parte dele se passa em um espaço pequeno. Apesar disso, a diretora conseguiu utilizar o potencial claustrofóbico das cenas no porão para alcançar uma profundidade psicológica.

Em seu cativeiro, Natascha desenvolveu intuitivamente estratégias de sobrevivência e até brincava de escola. Ela colocava um vestido sobre duas cadeiras que representavam os alunos e fingia ensinar. Em outra brincadeira, ela estava em um programa de televisão, onde se perguntava como escaparia do sequestrador. Ou perguntava a Priklopil se ele estava solitário "lá em cima".

Natascha cria uma distância entre ela e os traumas que vivencia – mesmo sendo empurrada constantemente de volta para a realidade. 3096 Dias é um drama real, mas quando os dois celebram natais ou aniversários juntos, e Priklopil captura em vídeo como Natascha abre seus presentes ou ajuda na reforma do telhado, o filme ganha elementos quase surreais.

Contando sua história

Hoje, aos 26 anos, Natascha já falou sobre suas experiências em entrevistas e até chegou a apresentar um programa de televisão. Junto com as autoras Heike Gronemaier e Corinna Milborn, ela publicou sua autobiografia em 2010, intitulada também 3096 Dias. O livro serviu de base para o filme de Hormann. A primeira versão do roteiro foi escrita por Eichinger – que morreu em janeiro de 2011 – e concluída por Ruth Thoma.

Film 3096 Tage

A diretora Sherry Hormann quis dar profundidade psicológica ao filme

Desde o início, Natascha deixou claro que sua história não poderia ser contada com completa precisão, mas era importante para ela que o filme transmitisse seus sentimentos. Ela disse estar satisfeita com o resultado.

"(O filme) me fez lembrar como eu encarei o meu sequestro", disse ela através da distribuidora Constantin Film. "Como tentei construir meu pequeno lar, pintando um armário na parede, uma maçaneta ou uma caixa de correio, para que eu pudesse me sentir em casa."

As cenas mais marcantes do filme são as primeiras vezes que ela deixa o cativeiro. A câmera lenta captura como ela observa as pessoas na rua e avalia como pode pedir ajuda. Então Priklopil pega em sua mão e diz: "nem pense nisso."

Foi no banheiro de uma estação de esqui que Natascha finalmente conseguiu pedir ajuda, mas a mulher, polonesa, não falava alemão. Então, depois de 3096 dias, Natascha finalmente consegue escapar, enquanto o sequestrador estava ocupado lavando seu furgão. Horas depois, Wolfgang Priklopil se jogou na frente de um trem.

Autor: Bernd Sobolla (mas)
Revisão: Rafael Plaisant Roldão

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