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Mundo

Donetsk luta para preservar a cultura em meio à destruição da guerra

Os combates entre separatistas pró-russos e o Exército de Kiev causaram graves danos à cidade do leste ucraniano. Mesmo assim, a vida cultural continua, com muito trabalho voluntário. Só que nem toda arte é bem-vinda.

A programação de novembro da Ópera de Donbas aposta no repertório leve: a opereta de Emmerich Kálmán A Princesa Cigana, A Traviatade Giuseppe Verdi, O Barbeiro de Sevilhade Gioacchino Rossini. É como se a cultura tivesse a função de garantir o bom humor na cidade severamente destruída no leste da Ucrânia.

"Primeiro, vamos nos apresentar de graça e ver se o público pelo menos vem", diz a corista Lidia [nome modificado pela redação]. "As pessoas aqui estão precisando se distrair da guerra." A cantora trabalha desde final de 2012 na casa de ópera da cidade de Donetsk. Na época, o teatro fez manchetes com a primeira apresentação de uma obra de Richard Wagner na Ucrânia: o emblemático projeto teuto-ucranianoO Navio Fantasma.

Das zerstörte Landesmuseum in Donetsk Ukraine

Mais de 30% dos objetos foram destruídos no Museu Histórico de Donetsk

Porém nada restou desse esplendor: todo o cenário, inclusive adereços, foi queimado na esteira dos conflitos na região de Donbas. O depósito pegou fogo depois de ser atingido por dois tiros de bazuca. Lidia conta que a maioria dos artistas fugiu, só resta um terço dos integrantes do coro e da orquestra. "Quando Ludmila Yanukovytch [esposa do ex-presidente ucraniano pró-Moscou] ainda frequentava as nossas estreias, a situação era bem diferente", lembra a corista.

"É de partir o coração", comenta o famoso coreógrafo e professor de balé Vadim Pisarev, cuja Escola de Dança de Donetsk forneceu bailarinos solistas não só para a Rússia e Ucrânia, mas também para algumas casas alemãs. "Nosso teatro está localizado em território onde a guerra continua grassando."

Entre a política e a guerra

O Teatro de Donetsk já foi um bastião da dramaturgia contemporânea, onde se encenava principalmente em ucraniano. A nação, baseada num romance de Maria Matios, foi uma de suas últimas estreias: a peça trata da luta dos combatentes da resistência ucraniana contra o domínio soviético, na década de 1930.

Agora, no entanto, o teatro tem que dar uma guinada de 180 graus: "Caso se encenassem peças ucranianas agora, as pessoas seriam fuziladas na hora", declarou o ministro ucraniano da Cultura, Yevgeny Nyshchuk, em Kiev. Os atores do teatro, por sua vez, asseguram desafiadores: "Mesmo assim, continuamos nos apresentando. Temos suficientes peças russas no repertório."

Ukraine - Zerstörtes Mahnmal Saur-Mogila

Memorial Saur-Mogila sofreu sérios danos

Segundo dados oficiais, mais de 30 instalações culturais foram destruídas ou gravemente danificadas em Donetsk. O Memorial Saur-Mogila, por exemplo, erguido na década de 1960 em homenagem aos mortos da Segunda Guerra Mundial, sofreu vastos danos.

Na colina em que se encontram suas lamentáveis ruínas, em 1943 travaram-se batalhas sangrentas entre as forças nazistas e o Exército Vermelho. Em julho e agosto de 2014, um grande número de homens voltou a morrer ali, dessa vez nos embates entre os separatistas pró-russos e o Exército ucraniano.

Outra vítima da guerra foi o popular Museu Histórico de Donetsk, atingido por 15 disparos de bazuca. "Não acredito que tenham atirado de propósito no museu", presume a conservadora-chefe do museu, Tatiana Koynash. "Provavelmente aconteceu de, por acaso, nós estarmos entre os fronts."

Mais de 30% de um total de 150 mil objetos de exposição foram destruídos, calcula o diretor do museu, Yevgeny Denizenko. "Se o meu cabelo não já fosse grisalho, certamente teria ficado, diante dessa visão", diz, diante das terríveis perdas.

Das zerstörte Landesmuseum in Donetsk Ukraine

Perdas no Museu Histórico seriam muito maiores sem o empenho dos funcionários

E elas teriam sido ainda bem maiores se os seus funcionários não já tivessem retirado os objetos particularmente frágeis e valiosos, em meados do ano. No entanto, todos trabalham ali por puro entusiasmo, comenta Denizenko, pois o último salário foi pago no segundo trimestre.

A restauração do prédio custaria 95,6 milhões de grívnias (cerca de 6 milhões de euros), calcula o diretor. Atualmente, numerosos voluntários se empenham para garantir que o museu resista ao inverno. Um deles, o pedreiro desempregado Igor, justifica seu empenho: "Afinal, o museu é a nossa história. Ele deve e vai voltar a funcionar."

"Isso não é arte!"

Os funcionários do centro de arte contemporânea Izolyatsia são menos otimistas. Nos arredores da cidade, uma fundação particular transformou uma fábrica abandonada em moderno centro de arte contemporânea. Seu modelo foi a Região do Vale do Ruhr, no oeste da Alemanha, que passou de desolada ex-zona de mineração a polo cultural. "Cultura através da mudança, mudança através da cultura", era o lema.

Mas o território foi ocupado por separatistas pró-Rússia, as obras de arte foram destruídas, a livraria, saqueada. Todos os funcionários fugiram para Kiev, onde a fundação continua suas atividades sob o nome "Izolyatsia in Exile".

Leonid Baranov, um dos invasores separatistas, sentencia: "Não sou especialista, mas sei muito bem distinguir arte verdadeira dessa pornografia." E mostra uma foto, como se fosse um troféu: trata-se de uma obra do renomado fotógrafo ucraniano Boris Mikhailov. "Uma coisa eu lhe prometo: 'arte' como essa não vai existir na República Popular de Donbas!"

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