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Cultura

Do Estácio para o mundo: 40 anos de Luiz Melodia

Em entrevista à DW Brasil, cantor relembra nomes importantes em seus 40 anos de carreira, como Gal Costa e Waly Salomão, e explica que a turnê europeia faz uma justa homenagem a grandes compositores da música brasileira.

Luiz Carlos Santos, nascido e criado no Morro do Estácio, se fez Melodia nos cultos da Igreja Batista, cantando ao lado do pai e ouvindo Ismael Silva, Noel Rosa, a Jovem Guarda e Jorge Ben.

Com seu primeiro grupo, Instantâneos, ele se recusava a tocar só samba, buscava novas linguagens musicais. Depois de sair do Exército, sua carreira cheia de percalços começou a tomar nuances mais claras até que Gal Costa, sua madrinha musical, gravou Pérola negra.

A partir daí, surgia pra ficar no cenário musical brasileiro um cara rebelde, marrento e excepcionalmente talentoso: a voz do Estácio, o negro gato de arrepiar Luiz Melodia.

Melodia está celebrando 40 anos de carreira com uma turnê pela Europa. Em Berlim, ele concedeu entrevista à DW Brasil num restaurante japonês no bairro de Prenzlauer Berg, onde falou sobre sua infância no Morro de São Carlos, o saudoso pai e sua madrinha musical, Gal Costa.

DW Brasil: Seja bem-vindo à Berlim !

Luiz Melodia: Pra mim é um prazer estar aqui. É a segunda vez que venho e quanto mais vezes me convidarem, melhor (risos).

Luiz Carlos dos Santos. Um nome bem comum no Brasil, mas quando o sobrenome é Melodia, muda tudo....

Graças a Deus!

São 40 anos de uma carreira cheia cheia de nuances. Boa hora pra relembrar o início no Morro de São Carlos, no Estácio. Como se delineou a sua paixão pela música ?

Eu já tinha interesse pela música através do meu pai, que era músico e compositor e que foi a minha maior influência. Eu cantava em pequenos shows, em rádios populares, marcava presença em todas as festividades que aconteciam ao redor da comunidade.

Eu já tinha um espírito musical devidamente absorvido e desenvolvido pelo meu pai. Depois vim a conhecer outros músicos e fui me profissionalizando. Formei a minha primeira banda, Instantâneos, depois Os Filhos do Sol. A partir daí as oportunidades foram aparecendo. Nos anos 70 encontrei o poeta Waly Salomão...

Que ficou encantado ao ouvir você interpretar Pérola negra.

Pois é... Foi ele que deu à música esse nome! Ele teve participação nessa música, até então sem título. O melhor de tudo isso é que ele, exatamente nessa época (1972), dirigia o espetáculo Gal a todo o vapor, no Teatro Teresa Raquel, e apresentou a minha música para a Gal. Foi uma benção, uma oportunidade memorável para mim.

Foi aí que a carreira deslanchou?

Ser interpretado no show de maior sucesso da Gal foi um divisor de águas. Logo depois, em 1973, gravei o meu primeiro disco, também com o nome Pérola negra. Foi a minha primeira bolacha (risos), como diziam na época. Foi uma alegria total para a minha família, para os meus amigos verem uma pessoa humilde começando e galgando um espaço. Eu era o tal lá no Estácio.

Houve um momento na sua carreira em que o compositor predominava ou o compositor e o cantor foram se firmando paralelamente?

Paralelamente. Isso porque depois que a Gal gravou Pérola negra, as pessoas ficaram curiosas em saber quem é esse compositor. Com isso eu vim conhecer Maria Bethânia e fui mencionado na famosa coluna Música Popular, do grande poeta e compositor Torquato Neto. Até a Angela Maria, cujas músicas eu, ainda menino, ouvia a minha mãe cantarolar, me procurou. Também a Elza Soares, a Zizi Possi, enfim: uma série de gente boa começou a gravar coisas minhas. Foi uma maravilha.

O seu companheiro mais antigo na banda é Renato Piau. Como vocês se encontraram e como se dá o processo de composição entre vocês?

Eu lembro de ver o Piau pela primeira vez tocando com o Sérgio Sampaio. Vi que ele era um cara capaz, muito talentoso, e o inclui no meu primeiro disco, o Pérola negra. Fizemos uma amizade duradora que persiste até hoje.

E o processo de composição?

O processo de composição não é tão difícil para quem cria, não (risos)! Todos os sons, todas as palavras que estão ao redor dos seus sentidos fazem com que você se inspire, né? Ainda mais quando você tem um parceiro como o Renato, que tem muita facilidade de musicar. Isso existe também com os meus outros parceiros, Perinho Santana e Ricardo Augusto.

Curiosamente são poucos os artistas com quem eu fiz parceria (olha interrogativo para a esposa, Jane, ao lado, que completa: Jards Macalé, Torquato Neto e Frejat).

Por que o formato big band para a turnê pela Europa?

Eu sempre ouvia a Orquestra Tabajara, onde meus tios dançavam, além dos bailes orquestrados que aconteciam no bairro. Isso foi muito marcante pra mim. Quando eu me descobri como compositor e cantor, procurei criar na banda uma formação onde houvesse muitos metais, muitos sopros, e a big band oferecia exatamente isso.

O que trouxemos para a Europa é um formato regional de big band, em que eu homenageio grandes compositores, que fizeram a nossa música brasileira, como Geraldo Pereira, Cartola, Nelson Cavaquinho, Noel Rosa, os caras que foram e ainda são fundamentais na nossa música. Como eu ainda não havia mostrado esse trabalho na Europa, achei a oportunidade bacana e justa.

Justa em que sentido?

No sentido de apresentar esses grandes compositores, que não tiveram grande sucesso fora do Brasil.

Entre as estações da turnê, vocês já passaram por Paris, Londres e Berlim. Como está sendo pra você e pra banda essa experiência de viagem?

Está sendo ótimo, até porque eu não sou um artista acostumado a vir para a Europa. Durante os anos 70 eram só promessas das gravadoras, que sempre me deixavam de castigo. Na época eu vivia o auge da minha carreira no Brasil, mas as possibilidades de vir para a Europa não se concretizavam. Talvez pela minha rebeldia, minha maneira de ser. Quando você é jovem, tem muito ímpeto.

Em comparação com outros nomes da nata da MPB, você teve uma estreia mais do que tardia no Festival de Jazz de Montreux, que só aconteceu em 2004.

Eu achei muito cruel isso. Eu via meus amigos vindo pra Europa, para Montreux, que é o símbolo de um reconhecimento internacional, mas nada que me deixasse abalado, mesmo porque no Rio eu tinha como sobreviver, e bem. Mas eu sabia que isso um dia iria se realizar. Enquanto você tiver saúde e puder seguir em frente, pode acontecer, e está sendo agora. Estaremos em Montreux pela segunda vez.

Pra terminar: Luiz Melodia por Luiz Melodia.

Um cara que gosta de música e que vai fazer de tudo pra que as pessoas estejam ao meu alcance, diante do que eu faço de bom, que é a música. Esse é o meu apelo. Ouça-me, que não custa nada. É só música.

Autora: Fátima Lacerda
Revisão: Alexandre Schossler

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