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Mundo

Divergências entre talibãs emperram acordo de paz no Afeganistão

O governo dos EUA está tentando obter um acordo com os talibãs no Afeganistão. Apesar de as negociações estarem lentas, um entendimento é possível. Mas a questão crucial é saber quem, na verdade, são os talibãs.

Mesmo o governo dos EUA não acredita mais que a guerra no Afeganistão pode ser decidida só pelo lado militar. "O diálogo político é o caminho mais seguro para a paz e a estabilidade duradoura", conclui uma porta-voz do Departamento de Estado norte-americano. Por quase dois anos, o governo em Washington tem procurado encontrar uma solução negociada. Mas em março passado, o Talibã rompeu as conversas, por causa da demora na exigida libertação de cinco importantes membros do movimento, encarcerados na prisão de Guantánamo.

O canal de negociações ainda não está cortado, mas quais assuntos são discutidos nos contatos informais é coisa que raramente se fica sabendo. Às vezes, os representantes do governo dos EUA deixam a imprensa saber que fizeram uma nova proposta para a libertação de prisioneiros, outras vezes, os talibãs afirmam que enviaram uma equipe de negociação para o Catar, com objetivo de traçar uma agenda para novas discussões.

Demandas

As demandas de ambos os lados são claras já há algum tempo. Os EUA querem que o Talibã declare um cessar-fogo, respeitem a Constituição afegã e cortem os laços com a rede terrorista Al-Qaeda. O Talibã exige a retirada de todas as tropas estrangeiras, a libertação de aliados presos e o reconhecimento de seu movimento.

Richard Barrett

Barrett crê em acordo, caso haja flexibilidade nas exigências

"Todas estas exigências são, em princípio, passíveis de serem satisfeitas, desde que sejam interpretadas de forma mais flexível", acredita Richard Barrett, chefe do grupo de monitoramento da Al-Qaeda e do Talibã da ONU. Ele acredita não ser um obstáculo o fato de os Estados Unidos deixarem algumas tropas no Afeganistão, mesmo após a retirada da Força Internacional de Assistência para Segurança (ISAF) em 2014. "Os talibãs pragmáticos acreditam que uma presença internacional seja uma espécie de garantia dos acordos, podendo ajudá-los a realmente fazer parte do governo", diz.

O reconhecimento da Constituição pelo Talibã também é uma meta possível, segundo Barrett. "Mas somente se isso não tiver que significar o reconhecimento do odiado governo do presidente Hamid Karzai e se incluir a negociação de uma nova Constituição entre todos os partidos."

Talibã dividido

Mas a grande questão é se a liderança talibã consegue fazer valer um acordo com os EUA dentro de suas próprias fileiras. Setores do movimento rejeitam categoricamente as negociações, outros as veem apenas como uma artimanha tática. Uma prova de que o pragmatismo pode ser perigoso é o caso de Agha Khan Motasim. Depois que o ex-ministro do governo talibã se disse a favor de uma solução política e contra a organização terrorista Al-Qaeda, sofreu um atentado há dois anos na cidade paquistanesa de Karachi, tendo sobrevivido, milagrosamente, a uma saraivada de balas.

Um conflito de gerações se junta às dificuldades originadas pelas diferenças políticas, na opinião de Candace Rondeaux, especialista do International Crisis Group, think tank sediado na capital do Afeganistão, Cabul. As lealdades dentro do Talibã são baseadas, entre outras coisas, numa rede de conexões de parentesco e regionais. Entre a liderança, essas conexões foram marcadas de forma decisiva pela guerra civil e pela luta contra os invasores soviéticos.

Esta experiência falta aos comandantes jovens, que foram socializados em campos de refugiados e nas escolas religiosas islâmicas. "Nesses grupos, há uma lacuna enorme", observa Rondeaux. Através de perdas e capturas, cada vez menos combatentes veteranos, que poderiam servir como uma ponte entre as gerações, continuam ativos. De acordo com estimativas de especialistas norte-americanos, a idade média dos comandantes talibãs caiu durante a guerra, de 35 para cerca de 23 anos.

Camp Delta Guantanamo

Guantánamo: talibãs exigem liberdade de cinco membros do movimento

Estratégias para a paz

Devido a essas incertezas, recentemente, Ryan Crocker, embaixador dos EUA em Cabul até julho último, afirmou que a melhor abordagem consiste em tentar isolar parte da liderança talibã. O especialista da ONU, Richard Barrett, classifica a estratégia como perigosa. "Esta é uma técnica de negociação muito tradicional, de dividir para enfraquecer o inimigo", comenta Barrett. "Mas se você quiser garantir a paz, é melhor ter um Talibã unido e com uma autoridade real sobre todos os adeptos."

Mullah Omar Mohammed Omar

Líder talibã, mulá Omar

Por enquanto, o mulá Omar ainda é o líder indiscutível do movimento. Desde o colapso do regime talibã, em 2001, ele vive escondido e raramente se dirige, em cartas, a seus seguidores. Talvez por isso o mulá Omar ainda tenha autoridade, pois dessa forma não precisa tomar partido em muitas discussões. Mas ninguém pode dizer quanto peso sua palavra teria numa decisão controversa. "Há de todos os lados o temor de que a luta continue, mesmo se o mulá Omar decidir depor as armas", diz Candace Rondeaux.

Prisioneiros talibãs

Mas antes que possam ocorrer negociações sobre um armistício, a questão dos prisioneiros deve ser esclarecida. O Talibã deixou bem claro que não se dispõe a aceitar quaisquer novas negociações a menos que os cinco prisioneiros de Guantánamo sejam trocados por um soldado dos EUA capturado e mantido como refém desde 2009.

"Os Estados Unidos ainda não decidiram sobre uma transferência de detidos talibãs de Guantánamo", disse a porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, acrescentando que o governo não faz comentários sobre deliberações em curso ou sobre prisioneiros individuais. Observadores acreditam que ainda não há um consenso sobre a questão e que deve haver divergências entre a Casa Branca e o Pentágono.

Além disso, o presidente dos EUA, Barack Obama, se encontra no meio de uma campanha eleitoral. Candace Rondeaux considera improvável que antes da eleição, em novembro, os cinco talibãs, incluindo o ex-ministro da Defesa do regime talibã ─ acusado da morte de milhares de xiitas ─, sejam libertados. "Nenhum presidente iria se expor a tal debate público."

Autor: Denis Stute (md)
Revisão: Carlos Albuquerque

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