Discussão do sistema financeiro global reaviva idéias de Keynes | Notícias e análises sobre a economia brasileira e mundial | DW | 13.11.2008
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Economia

Discussão do sistema financeiro global reaviva idéias de Keynes

O sistema financeiro internacional atual foi resultado da conferência realizada pelos aliados em Bretton Woods, em 1944. Na época, venceu a proposta dos EUA. O mundo errou em não ter adotado o plano britânico de Keynes?

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John Maynard Keynes (e) em Bretton Woods

Podcast Artikel - Globalisierung

Globalização é fenômeno antigo

A partir de 1870, o mundo viu a primeira grande onda de liberalização de fluxo de capital, que foi até o início da Primeira Guerra Mundial. Foi a época das grandes exposições internacionais em Londres, Paris, Filadélfia e Chicago. O capital fluía para o Novo Mundo e para as colônias. Principalmente a indústria alemã lucrou com esta primeira onda de globalização. O que faltou à Alemanha foram colônias e o conseqüente status de potência mundial. Esta primeira fase encerrou-se em agosto de 1914.

A segunda fase começou nos anos de 1920, quando empréstimos a curto prazo, tomados dos EUA, cobriram a demanda por financiamento na Europa pós-Primeira Guerra. França e Reino Unido financiaram grande parte da guerra com empréstimos norte-americanos e queriam pagá-los com reparações da Alemanha.

Esta, por sua vez, passou a imprimir cada vez mais dinheiro para pagar os empréstimos com os quais também financiara a guerra.

Hiperinflação, desvalorização cambial e reforma monetária caracterizaram o período após a Primeira Guerra Mundial na Alemanha, que foi seguido por certa prosperidade durante os anos de 1920, também financiada por empréstimos norte-americanos de curto prazo. Após a crise financeira de 1929, os investidores norte-americanos retiraram seu dinheiro de uma hora para outra da Alemanha e as conseqüências são conhecidas.

Padrão-ouro internacional e sistema de câmbio livre

Em julho de 1944, representantes dos países que formavam a Aliança das Nações reuniram-se na pequena cidade de Bretton Woods, no estado norte-americano de New Hampshire. A conferência durou apenas três semanas, mas foi precedida por meses de trabalhos.

Um dos objetivos da reunião que criou o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial foi estabelecer garantias para que a depressão de anos anteriores à Segunda Guerra Mundial não se repetisse no período pós-guerra, cujos vencedores já se anunciavam.

Para isso era necessário criar instituições que coordenassem a estabilidade financeira mundial e fomentassem o progresso das nações. Uma das principais questões era coordenar o fluxo internacional de capital que, até a Segunda Guerra, foi conduzido através do padrão-ouro internacional e do sistema de câmbio livre.

John Maynard Keynes

Logo IMF Internationaler Währungsfond

FMI foi criado em Bretton Woods

No texto Bretton Woods aos 60 anos, o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Fernando Cardim de Carvalho explica que duas propostas dominaram a conferência dos aliados: a britânica, conhecida como Plano Keynes, preparada pelo gigante do pensamento econômico do século 20 John Maynard Keynes e a proposta norte-americana, conhecida como Plano White, que levou o nome de seu autor, Harry Dexter White.

John Maynard Keynes (1883-1946), que afirmava já na década de 1930 que o fluxo de capital procura principalmente países com baixos padrões sociais, propôs a criação de uma Câmara de Compensações Internacionais que centralizaria todos os pagamentos concernentes a exportações e importações.

Não haveria uma moeda real como o ouro ou o dólar, mas somente uma moeda virtual entre os bancos centrais que fariam parte da Câmara, centralizando as transações. Essa moeda se chamaria bancor.

Dessa forma, Keynes queria impedir o problema do ajuste assimétrico, ou seja, economias em expansão importam mais do que exportam. Seguindo o padrão-ouro, estes países com déficit comercial têm de reduzir sua renda para diminuir importações, mas os países com superávit não são forçados a absorver mais exportações. O peso do desequilíbrio cairia assim sobre o país deficitário.

Nova onda de globalização

Symbolbild Finanzkrise in Südamerika

Países emergentes sofrem com crise financeira

No final, no entanto, prevaleceu a proposta norte-americana, que reforçou o papel do dólar como moeda nas transações internacionais e que também é vista por críticos como um instrumento da hegemonia dos EUA, que temiam adoção de restrições ao comércio exterior. O plano envolvia a criação de uma instituição que examinaria as condições dos países associados e financiaria o ajuste de curto prazo do problema de balanço de pagamentos, explica Carvalho em seu texto.

Surgiu então o FMI, que não tinha uma função de câmara de compensações, mas de fundo de estabilização, dotado de estoque de moedas nacionais definido. As moedas nacionais, notadamente o dólar, continuavam a ser o meio de pagamento das transações internacionais. O FMI só poderia agir sobre os países deficitários que lhe pedissem ajuda, mas não sobre os países superavitários, como havia proposto Keynes.

Bretton Woods também adotou um novo regime cambial. Em 14 de agosto de 1973, o presidente norte-americano Richard Nixon abandonou este regime cambial, que estipulava a onça-troy de ouro (por volta de 31 gramas) a 35 dólares. Desde então, o capital voltou a fluir livremente e o mundo viu surgir uma terceira onda de globalização, que aumentou o endividamento dos países em desenvolvimento.

Ninguém ainda sabe como irá acabar a nova onda globalizante que começou com a desmontagem do bloco socialista, no final dos anos de 1980 e que deverá ser objeto de discussão no próximo encontro do G20, em Washington. O certo é que a exigência do bom e velho Keynes de introduzir controles de fluxo de capital ganha cada vez mais defensores, pois satisfaz o desejo de uma maior justiça social em escala global.

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