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Cultura

Direito à blasfêmia: e quem é a vítima?

A advertência histórica do nazismo leva escritores europeus a conclusões opostas na polêmica das caricaturas de Maomé.

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'Se permitirmos isso, logo se incendiarão as bibliotecas que abrigam obras de Voltaire, Sade, Ovídio, Omar Khayyam, Proust e outros'

A polêmica mundial desencadeada pelas violentas reações de ativistas islâmicos contra a publicação de caricaturas de Maomé na imprensa dinamarquesa instigou um amplo debate sobre liberdade de expressão na Europa. Com exceção de alguns jornais – como o Le Monde, na França, e o Die Welt, na Alemanha – que, em nome da liberdade de imprensa, insistiram em republicar ­as caricaturas divulgadas no jornal damarquês Jyllands-Posten em setembro passado, a opinião pública européia não deixou de destacar a falta de tato de uma provocação supérflua contra o mundo islâmico.

Karikaturenstreit - Proteste im Iran

Protestos no Irã

No entanto, isso não seria motivo de restringir a liberdade de imprensa, uma conquista intocável das sociedades ocidentais. Como dizia o escritor e cômico bávaro Karl Valentin: "Democracia é bom, mas dá trabalho!" Em linhas gerais, esta pode ser considerada a tônica do debate.

Salvar Sade da fogueira

Sobretudo entre artistas e intelectuais, a defesa da liberdade de expressão é praticamente unânime. Na França, 11 escritores sintetizaram a reivindicação central, num manifesto divulgado pelo Le Monde (13/02):

"Somos escritores. Nossos horizontes são diversos, do mesmo modo que nossas origens geográficas, nossos vínculos sociais, nossas heranças religiosas, nossos destinos singulares, nossas convicções íntimas e – desculpem – nossas preferências sexuais."

"Não é difícil ver que, na guerra travada entre fanáticos cristãos norte-americanos e fanáticos muçulmanos do Oriente, é sobre os países laicos e moderados que fatalmente recaem cólera e frustração."

"Logo mais, nossa liberdade de publicar, na Dinamarca ou na França, nos será negada em nome do respeito a este ou àquele deus. Se permitirmos isso, logo se incendiarão as bibliotecas que abrigam obras de Voltaire, Sade, Ovídio, Omar Khayyam, Proust e outros. E é certo que, neste grande auto-da-fé, vão se reunir papas, grandes rabinos e grandes muftis."

O manifesto que reivindica a todos o "direito à blasfêmia" foi assinado por Salim Bachi, Jean-Yves Cendrey, Didier Daeninckx, Paula Jacques, Pierre Jourde, Jean-Marie Laclavetine, Gilles Leroy, Marie N'Diaye, Daniel Pennac, Patrick Raynal e Boualem Sansal.

"O Diabo é aquele que separa"

Bücherverbrennung in Deutschland mit Hitler-Gruß

Queima de livros por nazistas militantes em Berlim, 10/05/1933

No manifesto francês, a advertência histórica destilada dos recentes acontecimentos é a dos autos-da-fé religiosos, da caça às bruxas e também da queima de livros por parte dos nazistas alemães. Quanto ao último caso, os escritores franceses se perguntam se teria mesmo valido a pena tratar os alemães com moderação depois da Primeira Guerra:

"Os mais velhos entre nós sem dúvida terão a sensação de déjà-vu. Parece que, na época do Acordo de Munique, os espíritos finos não queriam humilhar o povo alemão, ferir seu orgulho de grande nação derrotada em 1918, etc. Curiosa a consideração que tivemos com nossos irmãos alemães, deixando-os cair nas mãos de um poder que os oprimiu, os lançou em guerras sem fim, os conduziu a atos imundos, tornou-os primeiro monstros e depois vítimas, os diabolizou, os cortou em dois pedaços, literalmente, pois o Diabo é Aquele que separa."

Liberdade de imprensa, onde?

O interessante é notar que a acusação – explícita ou implícita – de nazifascismo se inverte no veredicto de dois dos mais conhecidos escritores alemães: Günter Grass e Botho Strauss.

Günter Grass

Günter Grass

Para o Nobel da Literatura Grass, um social-democrata militante e incansável ativista de mil e uma causas políticas, a liberdade de imprensa já é uma causa perdida no Ocidente, sob a qual ninguém mais encontra proteção:

"O Ocidente tem discutido o princípio de que gozamos do direito à liberdade de imprensa. Mas quem não estiver querendo se enganar sabe muito bem que os jornais vivem de anúncios e acatam o que é ditado por certas forças econômicas. A própria imprensa faz parte de enormes grupos empresariais que monopolizam a opinião pública. Perdemos o direito de buscar proteção no direito à liberdade de opinião. Mas os tempos da ofensa da majestade ainda não passaram e não deveríamos esquecer que existem lugares que não conhecem a separação entre Estado e Igreja. De onde o Ocidente tira a arrogância de querer determinar o que se deve fazer ou não?"

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