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Alemanha

Dia do Orgulho Gay lembra conquistas presentes e terror nazista em Hamburgo

Um prefeito homossexual, reconhecimento de casais do mesmo sexo: a metrópole hanseática tem do que se orgulhar. Porém foi também lá que começou um dos capítulos mais sórdidos da homofobia nazista.

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O infame triângulo rosa imposto pelos nazistas virou símbolo de orgulho

Após Berlim e Colônia, milhares de participantes desfilam no Dia do Orgulho Gay nesta sexta-feira (27/07) na metrópole portuária de Hamburgo. Eles celebram o fato de em 2007 a cidade contar com um prefeito homossexual e de casais do mesmo sexo poderem formar uniões reconhecidas legalmente.

A rota da parada passa por uma tradicional loja de departamentos da cidade. E apenas uns poucos se lembrarão que documentos divulgados recentemente revelaram como, há 70 anos exatos, a Gestapo realizou uma batida brutal nessa mesma loja. Ao fim, a polícia nazista levou presos cerca de 40 empregados, sob a suspeita de orientação homossexual. A maior parte deles acabou em campos de concentração.

Revelações chocantes

BdT Christopher Street Day (CSD) Köln

CSD 2007 em Colônia

Em diversas cidades alemãs, o Dia do Orgulho Gay (ou CSD – Christopher Street Day) significa uma mistura de desfiles esfuziantes e passeatas solenes, para uma nova geração de gays e lésbicas pós-liberação.

Porém em Hamburgo o evento também oferece a chance de se conscientizar sobre um capítulo sinistro da perseguição nazista, até então desconhecido. Após a reunificação da Alemanha, centenas de milhares de casos vieram à tona, os quais os historiadores vêm estudando nos últimos anos. Suas descobertas chocam mesmo quem sabia da existência das atrocidades, porém ignorava sua extensão.

Presas fáceis

A Gestapo iniciou a caça sistemática aos homossexuais em meados de 1930, ativamente criando-lhes armadilhas. Uma pérfida "rede de proteção" permitia que proprietários de bares gays continuassem no negócio, sob a condição de fornecerem regularmente os nomes de seus clientes.

Senhorios recebiam suborno para informar sobre os inquilinos. E se alguém não gostava de um colega de trabalho solteirão, tudo o que tinha a fazer era procurar a polícia nazista e insinuar que ocorrera assédio sexual. No dia seguinte, possivelmente estaria livre do colega indesejado, independente do grau de verdade das alegações.

"Castração voluntária"

Todos sabiam que a ideologia nazista exigia procriação, com o fim de produzir uma "raça superior" de arianos louros e de olhos azuis. Qualquer um que não se casasse e não produzisse prole numerosa era, por definição, um inimigo do Estado.

Homens solteiros eram, portanto, automaticamente suspeitos, sob o regime de Hitler. De forma paradoxal e cruel, os homossexuais recebiam a opção de submeter-se à "castração voluntária", em troca de vagas promessas de clemência.

Na prática, os esperançosos enfrentavam operações bárbaras, de que saíam mutilados, com ferimentos sangrentos. E sem qualquer garantia de ainda não acabar nos campos de concentração.

De caçador a caça

Reeperbahn Hamburg

O Reeperbahn, foco da vida noturna de Hamburgo

O autor inglês Stephen Spender descreveu detalhadamente os prazeres de "caçar" marinheiros nos bares gay da zona portuária da cidade, nos idos de 1930. A mais antiga e venerável loja de departamentos de Hamburgo, a Alsterhaus, situa-se numa de suas ruas principais, o Jungfernstieg.

Foi exatamente ali, no verão setentrional de 1937, que começou o "pogrom gay". Agentes da Gestapo, trajando casacões de couro, invadiram a loja durante o horário comercial, recolheram cerca de 40 funcionários tidos como homossexuais e os levaram em vans que esperavam do lado de fora.

O que se seguiu foram semanas e meses de "custódia protetora" e transferências para asilos para doentes mentais com o fim de "tratamento curativo", finalmente culminando no confinamento em campos de concentração.

Infâmia pós-guerra

O pogrom da Alsterhaus fora apenas o começo, pois as batidas antigay continuaram até o fim de 1930, com freqüência crescente, em todo o Reich. Documentos recentemente revelados mostram que 54 mil homossexuais morreram nas mãos dos nazistas da Alemanha, 7 mil dos quais nos campos de extermínio.

Em 1946, vários dos homossexuais sentenciados ainda portavam triângulos cor-de-rosa, já que os tribunais do pós-guerra mantiveram as condenações por "comportamento antinatural" pronunciadas na era nazista. Isso, embora todas as demais sentenças do regime houvessem sido anuladas. Alguns dos condenados ainda se encontravam presos no início da década de 50.

August Pfeiffer im KZ Auschwitz

August Pfeiffer, assassinado em Auschwitz a 28/12/1941 aos 46 anos, devido à sua homossexualidade

Queima de arquivos de Himmler

Com meticulosidade prussiana, os nacional-socialistas documentaram cada detalhe da vida daqueles que eles caçaram. Um desses casos dramáticos é o de Carl Bruns e Heinrich Roth, um casal homossexual que possuía uma loja de roupas de alta categoria, no centro de Hamburgo, bem defronte ao quartel-general da Gestapo.

Bruns e Roth foram detidos em 1940, e após meses de prisão sem julgamento, foram enviados aos campos próximos à metrópole hanseática. Por um milagre, ambos sobreviveram até maio de 1945, quando os campos estavam sendo liberados pelas Forças Aliadas. Mas foi aí que sua tragédia se completou.

Auschwitz fora libertada pelo Exército Vermelho no início de 1945, e as fotos dos presos esqueléticos chocaram o mundo. Assim, o comandante da SS, Heinrich Himmler, expediu ordem a todos os diretores dos campos de concentração para que de forma alguma os presos caíssem em mãos dos Aliados.

Equívoco fatídico

Passagierschiff Cap Arcona

O trágico Cap Arcona

Alguns comandantes executaram todos os detentos na câmara de gás, outros determinaram que fossem evacuados. Juntamente com seus companheiros de cativeiro, Carl Bruns e Heinrich Roth foram enviados numa marcha forçada de 100 quilômetros até o Mar Báltico, onde um antigo cruzeiro reformado, o Cap Arcona, os aguardava.

Bruns sucumbiu à marcha da morte, porém Roth conseguiu alcançar o navio em 19 de maio de 1945. Só que a Força Aérea britânica recebera indicações de que oficiais nazistas estavam tentando escapar da Alemanha num grande navio, disfarçado em embarcação de refugiados.

O Cap Arcona foi atingido, incendiou-se e foi a fundo. Os presos que conseguiram abandoná-lo ou foram mortos pelas bombas aliadas ou metralhados por homens da Gestapo, quando tentavam chegar à terra. Dos 7.500 presos embarcados, cerca de 200 foram resgatados mais tarde pelos soldados ingleses, tiritando de frio entre os juncos da praia. Roth não se encontrava entre eles.

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