Desinteresse por imigração agrava falta de mão de obra qualificada na Alemanha | Notícias e análises sobre a economia brasileira e mundial | DW | 18.11.2010
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Economia

Desinteresse por imigração agrava falta de mão de obra qualificada na Alemanha

O governo alemão altera política de imigração para atrair estrangeiros com qualificação profissional. Estudos revelam, contudo, que interesse em trabalhar na Alemanha é bem menor do que por outros países europeus.

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Número de formados em cursos profissionalizantes cai drasticamente na Alemanha

O governo alemão está mudando sua política de imigração para atrair ao país estrangeiros com alta qualificação profissional. Estudos e enquetes demonstram, no entanto, que o interesse em trabalhar na Alemanha é bem menor do que por outros países europeus.

Em comparação com o resto da Europa, a Alemanha exerce uma atração mediana sobre imigrantes altamente qualificados. Isso foi o que constatou um estudo divulgado esta semana pelo Instituto Federal de Pesquisa Demográfica, por encomenda da Fundação Bertelsmann.

Essa tendência foi confirmada por uma enquete realizada pela Confederação Alemã das Câmaras de Indústria e Comércio (DIHK, do alemão) junto a 47 câmaras de comércio exterior.

Entre 2005 e 2009, a Alemanha perdeu anualmente para outros países da União Europeia 1.500 estrangeiros altamente qualificados como executivos ou cientistas.

Em declaração ao diário Frankfurter Rundschau, o presidente da DIHK, Hans Heinrich Driftmann, lembrou que "os profissionais e estudantes estrangeiros não estão fazendo fila para investir sua competência na Alemanha". Na enquete realizada pela confederação, a Alemanha recebeu a nota 2,8, numa escala de um ("atraente") a cinco ("não atraente").

A DIHK lamenta que o país tenha demonstrado pouco empenho em atrair profissionais de outras nacionalidades.

Aprender com outros países de imigração

Atualmente, países como a Suécia, a Espanha, a Áustria, o Reino Unido e a Bélgica atraem mais especialistas estrangeiros do que a Alemanha. Resta saber se a abertura do mercado de trabalho da UE para os países-membros do Leste Europeu, no próximo ano, terá alguma influência sobre a situação alemã.

Seja como for, muitos já defendem uma nova política de imigração no país. "Podemos nos orientar pelas sociedades de imigração bem-sucedidas e incorporar o que os diferentes modelos têm a oferecer", declarou Gunter Thielen, presidente da Fundação Bertelsmann.

Ele favorece uma combinação entre os modelos existentes no Canadá e no Reino Unido, países que apostam sobretudo na qualificação dos imigrantes, e sistemas como o sueco, mais direcionados para as necessidades do mercado de trabalho.

Idioma e burocracia desencorajam estrangeiros

Um dos principais problemas mencionados pelos entrevistados é o idioma. Em diversos países, o interesse pelo aprendizado da língua alemã tem diminuído, uma tendência reforçada pelo fechamento de diversas unidades do Instituto Goethe em decorrência de cortes de verbas e pela redução das ofertas do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD, do alemão) e das escolas em língua alemã no exterior.

Outro obstáculo é o direito de permanência e de trabalho no país, geralmente complicado, variando de acordo com a região alemã. "Isso espanta as pessoas e representa uma grande desvantagem para a Alemanha, sobretudo em relação a países dotados de outros sistemas e mais conhecidos entre os imigrantes, como os EUA ou o Canadá, por exemplo", aponta Stefan Hardege, especialista da DIHK para mercado de trabalho. Ele sugere regras de imigração mais simples e transparentes, além de campanhas de esclarecimento para torná-las conhecidas no exterior.

Outro motivo frequente de reclamação, inclusive por parte de outros países da União Europeia, é dificuldade de um diploma estrangeiro ser reconhecido na Alemanha. Além disso, há quem não se sinta bem-vindo no país, sobretudo trabalhadores provindos da Turquia e da Polônia, conforme apontou a pesquisa da DIHK.

Divergências sobre a falta de mão de obra qualificada

Na opinião de muitos, o fato de a Alemanha não ser especialmente atraente a profissionais estrangeiros poderá agravar a crescente falta de mão de obra qualificada no país. Resta saber se essa escassez representa realmente uma ameaça à economia.

Na avaliação do Instituto Alemão de Economia (DIW, da sigla em alemão), o mercado de trabalho alemão ainda não demonstra sinais de um desfalque de mão de obra qualificada. Uma prova disso seria o fato de os salários oferecidos a especialistas não terem aumentado mais do que a remuneração de trabalhadores com menor qualificação.

Anja Kettner, do Instituto de Pesquisa sobre Mercado de Trabalho e Profissão (IAB, do alemão) da Agência Federal do Trabalho, adverte, no entanto, sobre a inconsistência desse argumento do DIW. "Até onde sei, não existem estatísticas atuais e confiáveis sobre a curva dos salários pagos a engenheiros no início da carreira, por exemplo. O que se conhece é a estrutura salarial da média dos trabalhadores alemães, mas não se sabe o que as empresas afetadas por escassez de mão de obra oferecem aos candidatos a serem empregados", explicou Kettner em entrevista à Deutsche Welle. Além disso, para outras profissões – como educadores e cuidadores de idosos – a curva salarial não indica se está faltando mão-de-obra, pois a remuneração é determinada por acordos salariais.

Na interpretação do DIW, não se pode falar de escassez no campo da engenharia mecânica, por exemplo. A cada ano, à medida que os profissionais da área atingem a idade de aposentadoria, vagam 9 mil postos de trabalho. Ao mesmo tempo, o número de engenheiros mecânicos formados no início deste ano superou 23 mil.

Quanto a isso, contudo, Anja Kettner faz uma importante ressalva: "A questão é que, justamente na área de engenharia, a maior parte das ofertas de emprego exige experiência profissional de vários anos. Isso significa que os recém-formados não podem preencher essa lacuna."

Formação profissionalizante aquém da demanda do mercado de trabalho

O Instituto de Economia da Alemanha (IW), próximo ao empresariado, também discorda das conclusões do Instituto Alemão de Economia. O IW já constata hoje uma escassez de engenheiros de todas as especialidades e prevê um agravamento da situação nos próximos anos. Atualmente, há 67 mil vagas a serem preenchidas no setor; por outro lado, o número de engenheiros desempregados se reduziu pela metade, somando hoje 24 mil.

Também faltam trabalhadores nas áreas não acadêmicas, que exigem formação profissionalizante, segundo afirmou o porta-voz da confederação central do setor, Alexander Legowski: "Isso também se aplica aos profissionais de tecnologia de ponta e aos técnicos de medicina, além de afetar empresas fornecedoras dos setores de construção de máquinas e da indústria automobilística".

Um agravante na região compreendida pela antiga Alemanha Oriental é o fato de o número de diplomados em cursos profissionalizantes ter caído pela metade nos últimos dez anos, de modo que as empresas já têm dificuldade de encontrar aprendizes. E isso aponta para uma futura escassez de mão de obra nos setores que dependem da formação profissionalizante, conclui Legowski.

Desenvolvimento demográfico prova demanda por estrangeiros

Outro estudo recentemente divulgado pelo Instituto do Futuro do Trabalho (IZA, do alemão) demonstra que, a partir de meados desta década, a demanda por profissionais qualificados estrangeiros na Alemanha poderá atingir 500 mil ao ano. A partir de 2015, esse contingente de estrangeiros será necessário "para suprir as lacunas do mercado de trabalho geradas por fatores demográficos", analisa Klaus Zimmermann, diretor do IZA.

Zimmermann sugere a adoção do sistema de pontos vigente no Canadá e na Austrália, por exemplo, segundo o qual o estrangeiro interessado em trabalhar no país tem maiores chances de obter emprego quanto mais alta for sua qualificação profissional. O sistema proposto pelo IZA inclui seis critérios: certificado de formação educacional e profissional (até 30 pontos), conhecimentos linguísticos (até 20 pontos), experiência profissional (até 15 pontos), oferta de emprego na Alemanha (10 pontos), chances especiais de integração (como curso superior na Alemanha, até 15 pontos), idade (10 pontos para a faixa etária entre 25 e 45 anos).

Na avaliação de Zimmermann, valeria a pena investir recursos públicos para recrutar profissionais estrangeiros. Se a Alemanha conseguisse atrair futuramente meio milhão de trabalhadores qualificados estrangeiros ao ano, isso seria compensado. Afinal, o arrecadamento adicional para os cofres públicos poderia chegar a 20 bilhões de euros.

Autoras: Monika Lohmüller / Simone Lopes
Revisão: Roselaine Wandscheer

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