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Mundo

Desconfiança marca 65 anos de separação entre Índia e Paquistão

Aproximação entre ex-colônias britânicas é receosa, marcada, de um lado, pela ameaça do terrorismo islâmico, do outro, por sinais de dominação. Negócios bilaterais são chance de entreabrir a porta do entendimento.

Em 1947, arruinado financeiramente pela Segunda Guerra Mundial, o Reino Unido viu-se forçado a se retirar do subcontinente índico. O fim da Índia Britânica significou, ao mesmo tempo, a divisão do antigo reino colonial em dois novos Estados independentes, a Índia e a Paquistão (na época, Paquistão Ocidental e Oriental, hoje Bangladesh).

Exército indiano em Caxemira

Exército indiano em Caxemira

Milhões de hindus, muçulmanos e sikhs foram desalojados nesse processo. O número de vítimas fatais da violência de ordem religiosa é estimado em 1 milhão. A fronteira índio-paquistanesa ao noroeste não foi claramente definida, causando conflitos que perduram até hoje em Caxemira, região reivindicada por ambos os países. Essas tensões levaram a guerras em 1947, 1965, 1971 e 1999.

Intervenção militar

Muitos políticos indianos esperavam poder evitar o desmembramento do Paquistão em 1947, e o desejo do restabelecimento da unidade do subcontinente mantém-se ainda vivo.

Os paquistaneses, por sua vez, sentem-se ameaçados pelo ambicioso vizinho, alegando que este se considera a superpotência da região, pretendendo cerceá-los ou mesmo dominá-los. Atualmente, a desconfiança é uma constante nas relações bilaterais: em ambos os países, a maioria da população vê o vizinho como inimigo.

Ali Jinnah, primeiro presidente do Paquistão

Ali Jinnah, primeiro presidente do Paquistão

Contudo, a história poderia ter sido bem diferente. O fundador e primeiro presidente do Estado paquistanês, Muhammad Ali Jinnah, desejava instituir uma democracia parlamentar. Mas faleceu antes de atingir essa meta, e seus sucessores defendiam um ponto de vista diferente.

Logo, os militares exigiram para si o direito de determinar a política externa e de segurança. E após diversos golpes militares, seu regime autoritário já domina o Paquistão há mais tempo do que os governos civis eleitos.

Hostilidade na mídia e educação

Na década de 1980, as trincheiras se tornaram mais profundas do que nunca. Como consequência da invasão soviética no Afeganistão, o Paquistão transformou-se em zona de mobilização militar para os insurgentes radicais islâmicos financiados pela CIA, entre os quais, Osama bin Laden.

Chefe do serviço secreto paquistanês ISI, Zaheerul Islam

Chefe do serviço secreto paquistanês ISI, Zaheerul Islam

Zia ul Haq, ditador militar paquistanês na época, aproveitou a chance para promover a abrangente islamização do país, a qual influencia de forma decisiva a política nacional até hoje. O onipotente serviço secreto militar ISI serviu-se da ocasião para apoiar grupos extremistas muçulmanos, sobretudo o Lashkar e-Taiba, responsável por numerosas ações terroristas em Caxemira e na Índia, entre as quais, o sangrento atentado de 2008 em Mumbai.

A mídia de ambas as nações pouco ou nada faz para reduzir a desconfiança mútua. O noticiário a respeito do país oponente é, até hoje, unilateral e marcado por estereótipos hostis. Jornalistas de ambos os lados queixam-se de que a reportagem objetiva é dificultada em nível institucional.

Na educação, o quadro é semelhante. Marva Bari, jornalista de Islamabad, relata que os jovens paquistaneses são sistematicamente instruídos a encarar a Índia como o inimigo. "O sistema de ensino paquistanês fomenta o ódio contra a Índia. Os muçulmanos são apresentados como vítimas, enquanto todos os outros são maus. As crianças crescem acreditando que a Índia é o principal inimigo do Paquistão, e que há mais coisas que separa os dois países do que os une."

Otimismo através dos negócios

Escola islâmica paquistanesa

Escola islâmica paquistanesa

Após o atentado em Mumbai, as iniciativas para incentivar um maior contato interpessoal foram adiadas até segunda ordem. No entanto, o indiano Kuldip Nayar, conhecido jornalista e ativista pela paz, permanece otimista. "Vai demorar. Mas os governos não têm alternativa, senão a paz. Não haverá guerra. Hoje, amanhã ou depois, ambos os lados retomarão as negociações. Não haverá nenhum passo dramático, como a queda do Muro de Berlim, mas uma hora teremos melhores relações."

Recentemente, a disposição da Índia de permitir investimentos do Paquistão parece ter entreaberto a porta para o entendimento. Moonis Ahmar, professor de Relações Internacionais da Universidade de Karachi, comenta: "O comércio bilateral certamente aprimoraria as relações entre o Paquistão e a Índia, pois os negócios intensificariam os contatos interpessoais".

Ao mesmo tempo, ele adverte: "Certos grupos na Índia e no Paquistão são seguramente contra contatos desse tipo. Porém, se as sociedades civis dos dois países apoiarem os negócios e os investimentos que sejam de interesse mútuo, será possível derrotar os que fomentam a guerra".

Exigência de reciprocidade

Mercado na cidade portuária de Cochin, Índia

Mercado na cidade portuária de Cochin, Índia

Também na Índia essa iniciativa é avaliada de forma positiva. Segundo Savita Pande, professor da Universidade Jawaharlal Nehru, em Nova Déli: "Em si, as coisas parecem estar indo bem, e fazemos avanços no comércio. Pela primeira vez, a Índia permitiu ao Paquistão investir no país. E este prometeu à Índia o status de nação mais favorecida, até o fim do ano".

Contudo, o pacifista indiano Nayar alerta contra expectativas exageradas. Seu país quer ter reciprocidade, antes de seguir adiante. "Acho que a Índia deseja que o Paquistão tome medidas contra os terroristas que perpetraram os ataques em Mumbai. Mas Islamabad nada faz, fica só ganhando tempo. E isso não deixa de ter seu efeito [negativo] na Índia."

Autoria: Grahame Lucas (av)
Revisão: Francis França

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