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Alemanha

Desânimo, crise, miséria?

Todas as evidências apontam para um desânimo crescente entre os alemães. Com razão? Ou será que os que estão insatisfeitos e falam de crise têm uma vida boa demais? O redator da Deutsche Welle Peter Philipp opina:

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"Não tenho de que me queixar" era uma resposta que se ouvia com freqüência na Alemanha, antigamente, quando se perguntava a alguém como estava. Isso mudou muito, nesse meio tempo: as pessoas reclamam em alto e bom tom, em todas as ocasiões possíveis. Já nem dá mais vontade de fazer a inofensiva pergunta "Como vai?". Quem é que quer ser enganado com a resposta "Bem, obrigado"?

O desânimo dos alemães tem causas singulares. É uma questão, em primeiro lugar, das condições de vida. Ou seja: do bem-estar, ou daquilo que dele restou. Mas não é só isso. É uma questão também da sensação de segurança, do comodismo, da falta de flexibilidade e jogo de cintura.

Tudo uma questão do ponto de vista...

Deixando claro de antemão: o que restou aos alemães de seu bem-estar ainda é suficiente para fazer outros no mundo sonharem com ele. Mas, como costuma acontecer na vida: o bem-estar também é relativo. Um alemão que é dono de um Mercedes e xinga por causa do aumento da gasolina não quer nem saber de se comparar com milhões de ciclistas em outras partes. Naturalmente que é apenas uma questão de relação que os alemães comparem a atual enxurrada de aumento de preços e impostos, ou a redução de benesses sociais, com o estado reinante alguns anos atrás. O resultado seria totalmente diferente, se a atual "crise" fosse comparada com épocas em que a Alemanha ia mesmo muito mal.

Não me refiro aqui à inflação no começo do século passado. Refiro-me aos primeiros tempos após a Segunda Guerra Mundial. A mídia vive relembrando a guerra, mas fala muito pouco das condições de vida da população civil naquela época. A razão pode ser politicamente correta, mas este fato impede também a capacidade de avaliar a situação hoje de forma realista. Quem vive reclamando e se queixando hoje em dia são quase sempre aqueles que sempre viveram muito bem, partindo do princípio de que as coisas continuariam melhorando de um ano para outro. No fundo, uma geração invejável — porque nunca passou por necessidade —, mas também lamentável, porque parece não saber como sair da miséria. Ou porque nem sequer sabe o que é passar por necessidade de verdade.

... ou de mais responsabilidade

Outro aspecto importante é a relação dos alemães com seu governo. Com os "lá de cima", que vão dar um jeito nas coisas. E em quem, se for o caso, a gente deixa de votar. O macabro da situação é que os "lá de cima" acabaram de ser eleitos. E que são ELES que estão anunciando à população a amarga verdade. Ou seja, que é preciso primeiro pelo menos apertar um pouco o cinto. Como se o povo não tivesse a menor idéia de que uma hora o caldo poderia entornar.

A situação difícil em que a Alemanha se encontra não é apenas resultado de quatro anos de coalizão vermelho-verde, tampouco só a herança da era de Kohl. É preciso acrescentar a reunificação, também a integração de centenas de milhares de descendentes de alemães provenientes do Leste Europeu. É preciso acrescentar a crise econômica mundial e muitos outros fatores. É simples demais simplesmente pôr a culpa nos "lá de cima". Sobretudo quando se acabou de dar seu voto a eles.

Talvez esteja na hora de se desfazer desse tipo de pensamento. O governo não pode resolver os problemas sozinho. Cada um precisa dar sua colaboração. Há tempos que personalidades, como o fundador do grupo Bertelsmann, Reinhard Mohn, vêm exigindo um maior engajamento da sociedade civil e menos intervenção do Estado na Alemanha. Justamente em tempos como estes se deveria esforçar por tanto. Talvez então os alemães fossem capazes de sorrir com a frase que já serviu de consolo aos argentinos: "Este ano foi pior do que o passado — mas melhor do que o que vem..."

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