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Demora para formar governo enfraquece Alemanha na UE

2 de março de 2018

Bruxelas acompanha com atenção decisão sobre coalizão de governo em Berlim. Fracasso da tentativa geraria intranquilidade, mas não pânico – até porque liderança alemã foi ofuscada pela ascensão da França de Macron.

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Emmanuel Macron e Angela Merkel
A antiga "Senhora Europa" já não tem mais a incontestável liderança de antes, ofuscada pelo novo líder francêsFoto: picture-alliance/abaca/D. Aydemir

Neste domingo (04/03), a Europa está diante de duas decisões importantes: a Itália vai eleger um novo Parlamento, e a Alemanha finalmente saberá se continuará sendo governada por uma grande coalizão entre os partidos conservadores da união CDU/CSU (União Democrata Cristã/União Cristã Social), liderada pela chanceler Angela Merkel, e o Partido Social-Democrata (SPD).

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A Comissão Europeia está se preparando para a eventualidade do pior cenário nos dois países, afirmou o presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker. Segundo ele, a preocupação se volta principalmente para o resultado das eleições legislativas italianas: condições pouco claras para uma maioria podem significar a ausência de um governo funcional na Itália.

Mas ele disse que a consulta aos filiados do SPD também é motivo de preocupação: sem o consentimento dos social-democratas não haverá uma nova coalizão entre CDU/CSU e SPD, e aí a maior potência econômica da Europa continuaria sem um governo.

Isso significa que o pânico vai se instalar em Bruxelas se a grande coalizão em Berlim não sair? Não, responde o analista Janis Emmanouilidis, do think tank Centro de Política Europeia, sediado na capital belga. Mas haveria "alguma intranquilidade, pois um dos principais atores não teria um governo capaz de tomar decisões importantes", diz o especialista, acrescentando que, por esse motivo, a União Europeia (UE) está torcendo pela grande coalizão.

Merkel não é mais a "Senhora Europa"

Mas, mesmo com uma nova grande coalizão em Berlim, Merkel não deverá mais ser aquela incontestável líder europeia que foi antes da eleição alemã de setembro. Há alguns anos, a revista americana Time a chamou de "Frau Europa", ou "Senhora Europa". Quando Donald Trump se tornou presidente dos EUA, alguns meios de comunicação em língua inglesa até mesmo a estilizaram como a líder de todo o mundo ocidental. Isso tudo acabou.

No final de 2017, a Time apontou o presidente francês, Emmanuel Macron, como o próximo líder da Europa. Enquanto o partido de Merkel perdeu muito de seu apoio na eleição alemã (mais de sete pontos percentuais), Macron emergiu como o brilhante vencedor da eleição presidencial francesa de 2017. Enquanto ele recebe com desenvoltura convidados complicados, como Trump, Vladimir Putin e Recep Erdogan, há meses que Merkel gasta seu tempo tentando formar um governo com outros partidos.

Para o especialista Stefan Seidendorf, vice-diretor do Instituto Franco-Alemão em Ludwigsburg, Macron ainda não deixou Merkel para trás, mas ele já mostrou que sabe usar muito bem as ferramentas de poder que a Quinta República lhe oferece – por exemplo a diplomacia ou os meios militares – para elevar a influência da França na Europa e em todo o mundo.

No cenário europeu, ele fez propostas de reformas, exigindo, por exemplo, um ministro das Finanças e um orçamento para a zona do euro, algo que na Alemanha é visto com ceticismo, principalmente pela CDU e CSU. Mais uma vez, Berlim se vê na defensiva. O líder do Partido Liberal Democrático, Christian Lindner, afirmou que a França avança para se tornar "aquele que dá o tom" na UE.

Novos desafios

Emmanouilidis avalia, porém, que, no caso de uma nova grande coalizão, Merkel "continuará a exercer um forte papel de liderança" e que a importância da Alemanha vai permanecer. "Ao mesmo tempo, vai existir um maior equilíbrio entre os Estados-membros da UE", especialmente entre a Alemanha e a França. Para ele, a Alemanha não tem a mesma força de antes porque a crise do euro se enfraqueceu e os desafios, agora, são outros. Do ponto de vista europeu, essa seria, no entanto, uma boa notícia, porque tornaria mais fácil a implementação de reformas conjuntas.

A má notícia fica por conta da divisão da UE, que é hoje mais profunda que nunca. Principalmente na política migratória, os países do Grupo de Visegrad na Europa Central e Leste Europeu (Polônia, República Tcheca, Eslováquia e Hungria) não estão dispostos a fazer concessões, algo que principalmente Merkel exigiu repetidamente.

E a próxima grande disputa poderá girar em torno do orçamento da UE. Merkel já ofereceu assumir parte dos compromissos financeiros do Reino Unido junto à União Europeia, depois da saída dos britânicos. Na Alemanha, ela já foi criticada por isso. Lindner disse que o anúncio enfraquece a posição de negociação alemã. Já a líder da bancada parlamentar da legenda populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD), Alice Weidel, afirmou que, para a chanceler federal, mais responsabilidade para com a Europa significa gastar mais dinheiro e renunciar à soberania.

Populistas ganham força

Por falar em AfD: populistas de direita de todos os países já ocupam por volta de 20% dos assentos no Parlamento Europeu. Os partidos moderados temem que eles se tornem ainda mais fortes nas próximas eleições europeias, em maio de 2019. Até lá, a Comissão Europeia e os governos dos países-membros querem oferecer soluções concretas aos seus cidadãos, para que eles tenham menos motivos para votar na extrema direita.

De qualquer forma, resta pouco tempo. Se os filiados do SPD disserem não à grande coalizão de governo, provavelmente haverá nova eleição na Alemanha, e o país mais importante da Europa sairia de cena por mais seis meses, ocupado com uma campanha eleitoral e novas negociações de coalizão.

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