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Cultura

Deborah Colker: "A arte não tem função alguma"

A coreógrafa carioca Deborah Colker está em turnê pela Alemanha. A DW.WORLD.DE a entrevistou na Filarmônica de Colônia, onde sua Companhia da Dança se apresenta com enorme sucesso.

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A roda gigante de 'Rota'

Após a recepção ambivalente de Maracanã no ano da Copa, a dançarina e coreógrafa superstar Deborah Colker está de volta à Alemanha. Desta vez, também dançando, ao lado da companhia que fundou em 1994.

Para as apresentações em Colônia e Berlim, a carioca escolheu Rota, de 1997, trabalho com o qual já fez diversas turnês de sucesso. Apesar dos dez anos transcorridos, Colker acredita que o espetáculo se mantém atual, justamente por ser vigoroso e "para cima", num momento em que a humanidade "está cada vez pior".

DW-WORLD.DE: O ser humano está mesmo cada vez pior?

Deborah Colker 02

Deborah Colker na Filarmônica de Colônia

Deborah Colker: Não sei, mas acho que a gente está vivendo tempos difíceis. Vou falar bem ingenuamente: se você pensar que estamos em 2007, que já passamos por uma Primeira Guerra, uma Segunda Guerra... Ainda estar vivendo um Iraque, ainda ter uma África, com gente morrendo de fome! No Brasil, gente sem dignidade nenhuma, morrendo ao seu lado. Para mim, isso é inconcebível.

Era de se esperar que o ser humano tivesse evoluído?

Eu acho, eticamente falando. Sabe, às vezes parece meio final dos tempos! Tem gente que discorda, acha que o mundo está evoluindo, que o Brasil está melhorando. Eu não acho, não. Ainda ter esse desconhecimento... é uma intolerância total... as religiões são de uma intolerância... As condições de vida das pessoas...!

Agora, o mundo está progredindo também, em muitas coisas. Cientificamente, artisticamente. É bom viver. Senão a gente estava se matando. Todo o mundo quer viver.

Então você atribuiria a Rota um caráter político – no sentido amplo do termo – por propor beleza, otimismo, em tempos tão ameaçadores?

Acho que sim. Na verdade tudo tem um contexto político. Eu não fiz a peça pensando nisso, mas ser artista é dar a cara a tapa, é se expor. Num momento em que estão discutindo o que é arte, qual é a função da arte, eu digo: a arte não tem função nenhuma! Quem tem função é o governo, é a educação, é a cultura! A arte não tem, a função da arte não existe. Você tem que ter liberdade, ter criatividade, tem que apontar para a frente. Tem que querer melhorar o mundo, as pessoas, essa é a função. Então, [na arte] as regras são diferentes.

Rota 03 - Cia. de Dança

A Companhia de Dança: coreógrafa é a quarta da esquerda para a direita

Mas a gente tem a potência, também, da alegria, da esperança, do prazer. Por que eu não posso fazer um espetáculo sobre isso? Posso! E fiz. E acho que isso não é muito moda, principalmente aqui na Europa.

Aqui lhe cobram mais profundidade, mais peso?

Às vezes cobram, às vezes não; às vezes entendem. Por exemplo, muita gente acha que a companhia é atlética, circense, não sei o quê. Mas são todos bailarinos vindos do mundo clássico, do contemporâneo, do jazz. Bota essa gente no circo, não dá em nada. É o meu trabalho que mistura, que tem esse fascínio por explorar o espaço. Eu tenho esse fascínio, cada espaço diferente me propõe uma coisa diferente: é a minha maneira de olhar a dança.

Continue lendo: Deborah Colker fala sobre Rota , o público alemão e sobre seus planos para a próxima peça.

Muita gente tenta contextualizar a arte. Há quem diga que o Rota é deslumbrante, é lindo, mas é superficial, porque não traz as tragédias do mundo. Gente, se tudo que é artista falar de tragédia, fome, pobreza, dor...! O espetáculo que eu fiz em 2005 [ Nó], por exemplo, fala sobre a dor, a dor do desejo, sobre a inevitabilidade do desejo, pois a gente não tem escolha. Tem coisas na vida em que a gente não tem escolha: você nasce desejando. A vida é cruel, o ser humano é cruel. Essas potências que a gente tem dentro da gente...

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