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Cultura

De Zíngano a Zürn, uma brasileira em diálogo com uma alemã

A escritora e artista visual brasileira Érica Zíngano lança na Alemanha "Ich weiss nicht warum", livro em que dialoga com a escritora e artista visual alemã Unica Zürn.

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A escritora brasileira Érica Zíngano

Mais ligadas às influências oriundas de Paris e, mais tarde, de Nova York, a literatura brasileira sempre dialogou de forma pontual, intermitente e precária com artistas e escritores de Berlim e outras cidades da Alemanha. Mas, quando esse diálogo ocorreu, sempre deixou marcas fortes.

Machado de Assis e Fagundes Varela traduziram Heinrich Heine no século 19, e foi baseado em Das Sklavenschiff, do autor judeu alemão, que Castro Alves compôs seu poema mais famoso, O navio negreiro.

Mário de Andrade, um dos poucos modernistas brasileiros que dominavam a língua de Goethe, intitulou um de seus livros Losango cáqui (ou afetos militares de mistura com os porquês de eu saber alemão), e Manuel Bandeira traduziria peças de Bertolt Brecht.

O dramaturgo berlinense manteve-se como uma das grandes influências do teatro brasileiro, marcando a produção de grupos como a Companhia do Latão, de São Paulo, mesmo quando na Alemanha sua influência decaía por motivos políticos, especialmente após a Reunificação.

O trabalho do Grupo Noigandres, com Haroldo de Campos, Décio Pignatari e Augusto de Campos, foi também marcado pelo diálogo com os suíços de língua alemã Max Bill e Eugen Gomringer e com alemães da Escola de Ulm, como Max Bense, que escreveu o seminal Inteligência brasileira: uma reflexão cartesiana, no qual narra sua convivência com artistas e intelectuais como João Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Bruno Giorgi, Alfredo Volpi, Lygia Clark, Lucio Costa, Afonso Reidy, e os próprios poetas concretos, que por sua vez traduziram alemães tão diversos quanto Goethe, Hölderlin, Arno Holz, Christian Morgenstern, Kurt Schwitters e August Stramm.

Mais recentemente, o poeta André Vallias, após passar alguns anos na Alemanha, passou a traduzir autores de língua alemã, como Georg Trakl e, mais uma vez, Heinrich Heine, publicando a primeira antologia com parte substancial da obra do alemão em língua portuguesa.

Unica Zürn, uma grande artista na obscuridade

Das Buch Ich weiß nicht warum von Erica Zingano

O livro "Ich weiss nicht warum", em que Érica dialoga com a alemã Unica Zürn

Todos os nomes mencionados pertencem já ao cânone da literatura e da arte alemãs ou brasileiras. O livro de Érica Zíngano, poeta e artista contemporânea nascida em Fortaleza em 1980, resgata, através do diálogo, o trabalho de uma alemã que segue sendo um segredo de iniciados mesmo na Alemanha.

Nascida em Berlim em 1916, Unica Zürn foi uma poeta e artista de primeira ordem, obscurecida na memória por ser frequentemente conectada apenas como nota de rodapé biográfico ao nome do marido, o grande artista surrealista alemão Hans Bellmer, que ela conhecera em 1953 e com quem se mudara para Paris.

Diagnosticada como esquizofrênica e tratada pelo mesmo médido de Antonin Artaud, após várias crises de depressão a alemã comete suicídio em 1970, jogando-se da janela do apartamento que dividia com Bellmer na capital francesa.

Talvez pela barreira da língua, sua obra não foi reivindicada pelo movimento feminista internacional (ou mesmo alemão), como ocorreu com outras escritoras e artistas com a mesma morte trágica, como a americana Sylvia Plath, a cubana Ana Mendieta e a brasileira Ana Cristina Cesar.

Muito da obra escrita de Unica Zürn é de tradução praticamente impossível. Com grande parte de seus poemas formados por anagramas, o primeiro verso determina a composição de todos os versos seguintes, criando o número e sistema de letras que serão usados ao longo de texto. Uma tradução exigiria o mesmo procedimento, gerando textos completamente distintos na língua de chegada. A obra completa de Unica Zürn foi lançada na Alemanha em seis volumes, entre 1988 e 2001.

Um diálogo entre Zíngano e Zürn

"Em 2011, comecei a ler um livro de cartas trocadas entre Hans Bellmer e Henri Michaux, em que falavam do período em que a Unica Zürn esteve internada. Estava na França, procurando livros do Michaux porque queria traduzi-lo. Então, nessa época, eu comecei também a comprar os livros da Unica na França por causa desse livro de cartas que li, e ali descobri os anagramas", comenta a autora brasileira.

A editora Hochroth – que se impressionara com os poemas de Zíngano publicados na antologia VERSschmuggel/TransVERSal, da Oficina de Tradução do Festival de Poesia de Berlim de 2012, que pareou seis poetas brasileiros a seis poetas de língua alemã – convidou então a brasileira para lançar um livro na Alemanha.

Daí a decisão de Zíngano de estabelecer um diálogo com o trabalho de uma alemã que a havia impressionado. "Com Unica Zürn, eu senti que tocava num pensamento feminino, também um pensamento alemão, via surrealismo (que me interessa), mas pelo francês, a língua que leio e traduzo."

Esse é um aspecto interessante do livro, para além de sua excelente qualidade artística. O livro torna-se uma meditação sobre o próprio ato de traduzir, já que Zíngano, poeta lusófona, chega ao trabalho de Unica Zürn, poeta germânica, pela língua francesa. E o resultado, por sua vez, passa pela poeta e tradutora Odile Kennel, ela própria falante do alemão, do francês e do português, para a criação desse livro-obra de arte com o título tão sugestivo de Ich weiss nicht warum, ou seja, "eu não sei por quê".

O livro é um momento bonito do crescente diálogo entre autores brasileiros e alemães, em grande parte pelas mãos e mente de Odile Kennel, que vem traduzindo para o alemão vários poetas brasileiros, como Angélica Freitas, Douglas Diegues e outros. Esta sua última ventura tradutória traz à Alemanha não apenas uma das mais interessantes poetas brasileiras hoje, como talvez possa trazer à tona a própria obra de Unica Zürn para novos leitores alemães.

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