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Cultura

De Walter Benjamin para as crianças

"A Hora das Crianças", livro recém-lançado no Brasil, contém os escritos radiofônicos, que Walter Benjamin dedicou ao público infantil na década de 1930.

Walter Benjamin foi, sem dúvida, um sujeito de muitas facetas. O pensador judeu-alemão contribuiu para a construção de uma teoria crítica acerca da modernidade e foi um dos inspiradores da Escola de Frankfurt, sem se associar diretamente a ela. Traduziu Baudelaire e Proust para o alemão, e escreveu livros de filosofia e sociologia, que são até hoje referência no campo dos estudos culturais, como o ensaio A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica (1936). Acabou por suicidar-se em 1940 em uma pequena cidade da Catalunha aos 48 anos.

Entre 1927 e 1932, escreveu uma série de textos para emissoras de rádio em Berlim e Frankfurt, e gravou com sua voz, a maioria deles. Apesar de não se orgulhar muito do trabalho, que diz ter feito apenas devido a dificuldades financeiras, Benjamin ajudou a consolidar o rádio três anos após seu surgimento na Alemanha. No livro Walter Benjamin: o marxismo da melancolia (1989), o filósofo Leandro Konder aponta que o autor procurava explorar os novos meios de comunicação em massa como uma ferramenta política para popularizar o saber.

Walter Benjamin Zeitgenössische Aufnahme des deutschen Literatur- und Kulturkritikers und Essayisten Walter Benjamin

Benjamin não menosprezava a inteligência do público infantil

Nenhum áudio foi conservado dessa época, mas Benjamin guardou alguns dos escritos em sua casa em Paris, os quais viriam a ser confiscados pela Gestapo e enviados à Rússia em 1945. Depois de retornarem à Alemanha, foram publicados em 1985 sob o título Aufklärung für Kinder, algo como "esclarecimento para crianças", em tradução livre.

No Brasil, o livro foi intitulado A Hora das Crianças - Narrativas Radiofônicas (2015), em referência ao nome do programa de rádio na Alemanha: Jugendstunde. O lançamento da Nau Editora, com tradução de Aldo Medeiros, oferece ao público brasileiro a oportunidade única de entrar em contato com a produção radiofônica de Walter Benjamin.

Nesses textos, o filósofo se dirige de forma envolvente a um público infantil, cuja inteligência ele não menosprezava. Rita Ribes Pereira, professora do Departamento de Educação da UERJ, foi responsável pelo projeto editorial do livro. Na apresentação da obra, ela ressalta o tratamento dado pelo autor às crianças: "ele as via como indivíduos dotados de subjetividade".

Os 29 capítulos do livro tratam de temas que permeavam a vida social na Alemanha no início do século 20. Muitos deles eram relatos autobiográficos, como o da infância berlinense e o da reconstrução das cidades no Pós-Guerra, que o próprio autor vivenciou. Benjamin também fala de História e de personagens instigantes, de brinquedos e marionetes, bruxas e ciganos, feiras de rua e dialetos, terremotos e enchentes, criando, assim, um mosaico de costumes e tipos sociais.

Benjamin relatava esses fragmentos da realidade em primeira pessoa, com uma aproximação convidativa do seu interlocutor, a quem muitas vezes se dirigia coloquialmente na segunda pessoa do singular. O filósofo dava enorme importância à tradição oral e, nos programas de rádio, pôde se empenhar em sua primorosa arte de narrar.

Buchcover Walter Benjamin Einbahnstrasse

"Rua de Mão Única" foi traduzido em diversos idiomas

Ele entrelaçava os relatos ao retomar elementos de programas anteriores, e assim, fazia o passado entrar na experiência presente como um déjà vu. Sobre esta potência da memória e das experiências do passado, Benjamin dedicaria o livro Rua de Mão Única (Einbahnstrasse ), escrito nos primeiros anos de sua atividade no rádio. Como um viajante, Benjamin percorre as ruas da cidade e capta com atenção distraída os instantes, com os quais monta sua narrativa não-linear.

Esta atitude, comum aos surrealistas da época, o pensador também assume no livro A Hora das Crianças, atraindo o público para os mistérios e encantos do dia a dia. Benjamin acredita que, através do compartilhamento de experiências, nos conectamos com nós mesmos e fortalecemos as narrativas esquecidas pela historiografia oficial. Portanto, ele dá ênfase às miudezas e ao residual, a fim de "escovar a história a contrapelo", como escreveu em Sobre o Conceito da História (1940).

Walter Benjamin acreditava que as crianças compartilham o gosto por "sobras e destroços". Ele próprio era um colecionador de livros infantis. Em A Hora das Crianças, o autor defende a singularidade da experiência da infância e critica a pedagogização do ensino e da mídia. Sua convicção fica clara no capítulo dedicado às lojas de brinquedos, em que traça uma história cultural dos brinquedos e contrapõe a visão condicionada dos adultos à percepção estética das crianças. Este olhar atento e encantado, que Walter Benjamin soube preservar, e com ele iluminar o coração de uma legião de leitores.