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Brasil

De Berlim para Veneza: "O céu de Suely", novo filme de Karim Aїnouz

Em Berlim, o diretor Karim Aїnouz desenvolveu o roteiro do filme "O céu de Suely". DW-WORLD conversou com o cineasta cearense convidado para competir na mostra Horizontes do Festival de Cinema de Veneza de 2006.

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'O céu de Suely' conta a história de uma mulher que quer se reinventar

O céu de Suely Regisseur Karim Ainouz

Karim Aїnouz é o único diretor brasileiro a competir em Veneza

O céu de Suely, produção de Walter Salles e Mauricio Andrade Ramos, é o novo filme do cineasta cearense Karim Aїnouz (de Madame Satã), convidado para concorrer na mostra Horizontes, de novas tendências no cinema, na 63ª edição do Festival de Cinema de Veneza, a ser realizado entre 30 de agosto e 09 de setembro de 2006.

Em 2004, durante sua residência em Berlim como bolsista do programa de artistas do DAAD (Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico), Karim Aїnouz desenvolveu o roteiro de O céu de Suely. DW-WORLD entrevistou o diretor para saber mais sobre seu filme e sua estada na Alemanha.

DW-WORLD: O que conta O céu de Suely ?

Karim Aїnouz: O filme conta a história de uma jovem nordestina que volta de São Paulo com o filho recém-nascido para a casa de sua família, no interior do Ceará. Ela espera a chegada do marido, que nunca chega. Sozinha, ela tenta recriar sua vida.

Walter Salles, produtor do seu filme, comentou que " o novo filme de Karim Aïnouz propõe um tipo de dramaturgia que avança na contramão daquilo que predomina hoje na TV ou no cinema". O que há de novo no seu filme?

Minha dramaturgia é mais indutiva do que dedutiva. Não procuro dar explicações, faço sugestões, através de elipses, lacunas narrativas. Nem tudo é contado no meu filme, muito é induzido pelo espectador.

A linguagem narrativa que predomina, na televisão brasileira principalmente, é ainda bastante radiofônica, ou seja, para se entender uma novela, por exemplo, basta escutá-la, talvez não seja necessário vê-la. Através da permanência do olhar do espectador sobre a imagem procuro levá-lo a descobrir o cotidiano das coisas e das pessoas. Não é realismo, é hiper-realismo.

Como o Nordeste brasileiro é apresentado em um filme de uma cineasta nordestino?

Szenenbild O céu de Suely

O sertão como espaço de passagem

Não pensei o Nordeste em um aspecto cultural. O sertão vem como algo emocional da distância. Iguatu, a cidade do sertão do Ceará que serviu como cenário para o filme, aparece como um não-lugar, um lugar de passagem para onde o personagem é catapultado, um saguão de aeroporto. Um espaço também cheio de ícones de tempos diferentes em um mesmo lugar, por exemplo, uma feira nordestina em frente a uma loja de produtos asiáticos de plástico vendidos por R$ 1,99.

O Nordeste é também uma tradicional região de emigração. Eu cresci em uma família em que a maioria dos homens partiu. Fui criado entre mulheres fortes e divertidas. Tentei imaginar como seria o contrário, se fosse a mulher que decidisse reinventar sua vida, que partisse, deixando tudo para trás.

Como sua estada em Berlim influenciou no roteiro do seu filme?

Primeiramente, a espetacular bolsa de residência para artistas do DAAD, em Berlim, permitiu-me escrever o primeiro tratamento do roteiro. Além disso, estar em Berlim, em um contexto tão distante do Brasil, foi essencial para a construção do filme. É uma cidade que adoro, que me inspira artisticamente e onde ainda pretendo viver durante muitos anos.

De forma indireta, muitas coisas que estão no filme também são frutos desta residência, como a música que lá descobri e que acabou ficando no filme, por exemplo, uma composição do Lawrence, um DJ da cena tecno minimalista de Hamburgo.

O que a música eletrônica minimalista tem a ver com o sertão?

Tem muito a ver. O sertão é muito minimalista, são poucos elementos e aquele imenso céu sem fim. Queria ressaltar esta qualidade do sertão e transformá-lo, também através da música, em um espaço de ficção científica. O filme começa no céu do sertão e termina no céu do sertão.

Por que o título O céu de Suely ?

Uma das definições da palavra "céu" no dicionário Aurélio é "qualquer lugar onde se possa ser feliz". O céu é um lugar distante, onde qualquer um pode ser feliz. O céu está em todos os lugares e em lugar nenhum. Esse filme conta a história dos passos de uma mulher para chegar lá.

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