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Cultura

David Graeber conquista Alemanha com obra sobre história das dívidas

O autor norte-americano de 51 anos é o criador da frase "Somos os 99%", do movimento Occupy. Mas conhece a linguagem do outro 1%, agindo como mediador entre críticos e adeptos do sistema.

David Graeber não fica parado muito tempo no mesmo lugar. Uma hora ele está em Londres, onde ensina antropologia no Goldsmith College; na outra, em Frankfurt, onde participa do movimento Blockupy; a seguir, em Berlim ou Colônia, apresentando seus livros; de repente ele vai para Nova York.

Não é de espantar que o autor esteja tão atarefado: no espaço de 40 dias, ele lançou três livros na Alemanha. O mais conhecido deles, Debt: The First 5,000 Years (Dívidas – os primeiros 5 mil anos) tem sido apontado como "possivelmente o livro mais importante do ano".

Com suas publicações, o cocriador do slogan We are the 99% (" Nós somos os 99%"), do movimento crítico ao sistema Occupy, causou mais celeuma do que qualquer um de seus correligionários, até então. Ele é um ativista, anarquista e antropólogo que ocupa todos os cadernos importantes de cultura.

História econômica recontada

Edição alemã: Schulden – die ersten 5000 Jahre

Edição alemã: "Schulden – die ersten 5000 Jahre"

Em 400 páginas, Graeber trata da história das dívidas da humanidade, começando com a frase, tão singela quanto provocadora: "Débitos não precisam ser pagos". A partir daí, traça uma trajetória através dos sistemas econômicos de diferentes grupos indígenas, a invenção da moeda, para finalmente aterrissar no presente.

Sua tese: é pura bobagem a afirmação de que primeiro haveria nascido o comércio de permuta, depois, para simplificar, foi criado o dinheiro, e por fim veio o crédito. Ao invés disso, ele afirma que os sistemas de crédito já existiam muito antes que o dinheiro fosse inventado.

Gente que vive numa comunidade empresta coisas todo o tempo, se ajuda mutuamente e deve favores aos outros. Porém essas dívidas nada têm a ver com dinheiro, acentua Graeber.

O antropólogo mostra que dívidas possuem uma dimensão moral. Ele acha peculiar o fato de que o imperativo moral para que se paguem os débitos seja considerado mais importante do que outras obrigações éticas. De outro modo, como é possível que, para poder honrar suas dívidas, países pobres tenham que renunciar a subsídios para gêneros alimentícios básicos, precipitando, assim, seus próprios cidadãos na fome e miséria?

Dívidas são um princípio moral que meramente sustenta o poder dos dominadores – neste caso, os credores –, contribuindo, assim, para a dominação das massas. Mas isso não pode acabar bem. Pois gente demais endividada acarreta insurgências populares e revoluções. A solução? Perdão das dívidas, propõe David Graeber.

Sucesso crescente

Tal reivindicação é bem no estilo do autor, conhecido por defender posições radicais. Ele não se associa a nenhum partido, denomina-se anarquista, é membro do sindicato Industrial Workers of the World (Trabalhadores Industriais do Mundo) e pesquisou sobre poder, o significado da história e a escravidão em Madagascar. Até 2007, Graeber atuava na Universidade de Yale, mas seu contrato não foi prorrogado, numa decisão controversa. Críticos supõem motivos políticos.

Graeber teria sido afastado da Universidade de Yale por motivos políticos

Graeber teria sido afastado da Universidade de Yale por motivos políticos

Com suas teses provocadoras, o norte-americano de 51 anos de idade ocupou o quarto lugar na lista de best-sellers de maio da revista alemã Der Spiegel. A história de sucesso do livro começou no último trimestre de 2011, antes mesmo de ser lançada a tradução alemã.

O redator do jornal FAZ Frank Schirrmacher afirmou que a obra era "uma revelação, pois ele consegue que, no sistema da aparente racionalidade econômica, a pessoa não mais se sinta forçada a reagir ao próprio sistema". Com essa declaração, o jornalista tornou as teses de Graeber socialmente aceitáveis na Alemanha.

A agitação na mídia nacional tomou mesmo impulso com o lançamento em alemão, em meados de maio, simultaneamente com o Inside Occupy, uma espécie de monografia sobre o movimento Occupy Wall Street. Aqui, Graeber revela muito de seu histórico político: desde o início ele acompanhava e coorganizava os protestos, ao mesmo tempo em que os analisava, propagava e configurava.

Todos os grandes periódicos da Alemanha noticiaram sobre Graeber, entre eles o Süddeutsche Zeitung, o TAZ, o Frankfurter Allgemeine Zeitung, o Die Welt, a Spiegel e a Stern. Na maioria dos casos, a crítica foi benevolente, classificando as teses como brilhantes, reveladoras, instigantes.

Pois Graeber age como tradutor-intérprete entre diferentes mundos, entre os críticos do sistema e os que lhe são fiéis, entre acadêmicos e a mídia. Ele sabe dividir teorias complexas em porções de tamanho justo e compreensíveis, desmembra análises, faz linhas de raciocínio confluírem e ainda consegue ser divertido.

Conhecer as regras para revertê-las

Mas não se trata apenas do conteúdo dos livros, e sim também da próprio Graeber. É dele a ideia dos "99%" no slogan do Occupy. E, embora se inclua nesses 99%, ele conhece a linguagem do um por cento. E conhece as leis não escritas para que deve seguir para ser escutado publicamente.

No programa de debates políticos da apresentadora alemã Maybritt Illner, o antropólogo apresentou-se bem comportado, de paletó preto. Mesmo naquela que parece ser a enésima entrevista à imprensa alemã, ele é cortês, conciso e não dá mostras de tédio. Por mais radical e revolucionário que seja seu pensamento, em suas aparições públicas ele se mostra respeitoso ao sistema.

O autor norte-americano sabe o quanto de conformidade é necessário para estimular o raciocínio não conformista. Ele não é um maluco, mas sim alguém que se adapta até às regras da programação televisiva do fim da tarde. E, acima de tudo: presta-se como figura-símbolo para o restante dos 99 por cento. A imprensa já o classificou de todas as maneiras possíveis: de "cabeça" e "pioneiro" do movimento Occupy Wall Street a "superstar intelectual".

Mídia classifica norte-americano como cabeça do movimento Occupy Wall Street

Mídia classifica norte-americano como "cabeça" do movimento Occupy Wall Street

Que lê seu Inside Occupy nota, o mais tardar depois de umas 30 páginas, que a última coisa que o movimento deseja é um cabeça ou líder. O que o Occupy quer é direct action, democracia de base e uma hierarquia plana. Mas Graeber é simplesmente um prato cheio para a mídia.

Da mesma forma como consegue explicar a história da dívida, ele sabe formular o que está por trás do Occupy. É mais fácil levar a sério frases como "Nós declaramos que este sistema não funciona" se partem de um ex-professor de Yale, do que saindo da boca de um rapaz de 20 anos, com casaco de capuz e dreadlocks.

No meio tempo, o burburinho midiático amainou, o sistema financeiro e a rejeição de um perdão de dívidas se mantêm, a propagada revolução não aconteceu. Será que precisaremos de mais 5 mil anos para uma verdadeira reavaliação do sistema financeiro?

Autoria: Ruth Krause (av)
Revisão: Mariana Santos

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