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Berlinale

Curta cria diálogo imaginário entre Brasil e Portugal

Dirigido por Felipe Bragança e Helvécio Martins Jr., "Fernando que ganhou um pássaro do mar", exibido na Berlinale, mistura documentário e alegorias cinematográficas e propõe uma reflexão sobre os dois países.

Fernando vive no Porto e divide seu tempo entre sua pequena casa e o bar da vizinhança. Ele recebe um papagaio do Brasil, o que evoca o paraíso em sua imaginação. Assim começa uma troca de correspondências entre dois amigos, que evidencia o que cada um pensa sobre o país do outro.

"Tentamos pensar o cinema e o espaço da obra de arte como afirmação da imaginação e projetar isso para além de uma observação que seria um real já concluído. Nada contra o cinema realista, mas achamos que tem um território de delírio em pensar que país é esse que estamos sonhando", disse o cineasta Felipe Bragança à DW Brasil.

Ele dirigiu o curta-metragem Fernando que ganhou um pássaro do mar, que faz parte da sessão Forum Expanded da Berlinale, ao lado de Helvécio Martins Jr. Não é a primeira vez que os dois diretores trabalharam juntos.

Em 2009, Martins chamou Bragança para participar de seu primeiro longa-metragem. Girimundo era baseado em personagens reais, mas ele queria roteirizar o filme e realizar em formato de ficção. Bragança foi responsável pelo roteiro, e o projeto aproximou os dois cineastas.

Martins foi convidado para realizar um curta-metragem que pensasse a relação Brasil e Portugal para o festival português Curtas Vila do Conde e chamou Bragança para codirigir o projeto. "O processo foi parecido com Girimundo, só que a proposta aqui era chegar a um tom mais tropicalista alegórico, filmando ficção com atores. Partes de sonho e delírio misturado com uma parte documental que Helvécio já havia filmado", contou o diretor.

Coadjuvante reflexivo

Martins havia dirigido o curta documental O Canto do Rocha (2012), sobre um ex-traficante que virou proprietário de um bar no Porto. "Essa material chamava muito nossa atenção. O Fernando era coadjuvante. Ele estava sempre quieto, mas projetando alguma coisa com o olhar. Fechamos o filme em torno dele", explicou o diretor.

Fernando que ganhou um pássaro do mar cria um diálogo entre os dois países através desse personagem. Essa relação possibilitou os diretores a falarem de assuntos recorrentes em Portugal e no Brasil, mas também refletir sobre o passado e o futuro dessas duas nações cultural e historicamente tão conectadas.

"Falávamos muito da crise, mas o Fernando não reagia a essas conversas e às tentativas de soluções pragmáticas e urgentes de sobrevivência. Começamos a sonhar o que esse homem poderia estar projetando para o futuro", disse.

Isso levou os diretores a começar a pensar na nova posição ocupada pelo Brasil. "Queríamos revisitar a ideia do Brasil como um paraíso. O país esta indo bem, tem mais dinheiro, mas não necessariamente para as coisas certas ou mais interessantes. Pensamos no conflito entre um português imaginando esse paraíso hoje e resquícios de uma certa intuição que as coisas não estão tão bem no dito paraíso", completou Bragança.

Loucura delirante

Usando desse imaginário, a mistura entre a realidade documental e uma reflexão tropical e onírica sobre a relação entre os dois países permitiu aos diretores abordarem questões mais complexas em relação ao Brasil.

"O Brasil está se tornando um país mais truculento e violento, menos imaginativo e mais eficiente. Conversamos sobre se o Brasil estaria apenas repetindo um modelo, ou se esse projeto de potência latino-americana poderia trazer um novo modelo de vida, democracia e representação", explicou.

Em contraponto, Portugal foi uma poderosa potência que entrou em decadência. Sua atual crise econômica fez com que sua relação com sua antiga colônia mudasse, já que o Brasil vive um crescimento econômico

"Uma das coisas a se pensar sobre o Brasil – não necessariamente só para agora, mas projetando para um futuro distante – é que tipo de projeto de país estamos criando e se ele se sustenta como algo que vai se sedimentar como sociedade ou se não é uma aventura de potencia capitalista do século 21, que pode ali na frente afundar, da mesma maneira que aconteceu com Portugal", disse.

O questionamento se esse novo país havia abandonado os ideais do passado permeia a reflexão proposta pelo curta. "Tudo que se imagina de um país tropicalista, de invenção, de uma democracia mais participativa, de mais loucura, queríamos colocar isso no ponto de vista de um português e questionar o projeto de país rico que estamos vivendo. O filme é uma loucura delirante em torno dessa situação.", afirmou o diretor.

Fernando que ganhou um pássaro do mar não é a única participação de Bragança na Berlinale 2014. Ao lado de Karim Aïnouz, ele também foi responsável pelo roteiro de Praia do Futuro, que concorre ao Urso de Ouro.

Reflexões sobre a forma cinematográfica

Criada em 2006, a Forum Expanded apresenta, em cinemas, museus, galeria e espaços culturais por toda Berlim, filmes, vídeos, instalações e performances que buscam uma perspectiva crítica e uma expansão de como vemos e pensamos o cinema e o meio cinematográfico.

Na edição da Berlinale deste ano, a mostra apresenta mais de 51 filmes e vídeos de 21 países que de alguma maneira propõem a reflexão sobre lugares e as identidades associadas a esses locais.

Além de Fernando que ganhou um pássaro do mar, a Forum Expanded também apresentou novas descobertas do ícone gay Jack Smith, diretor e ator de filmes de Andy Wahrol, e uma interpretação de Bruce LaBruce para o ciclo de canções Pierrot Lunaire , do compositor Arnold Schönberg.

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