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Cooperação com quem?

17 de março de 2010

Depois do ministro do Exterior, Guido Westerwelle, agora é Dirk Niebel, responsável pela pasta da Cooperação Econômica, a ser acusado de confundir metas políticas de longo alcance com interesses econômicos.

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Dirk Niebel, ministro alemão da Cooperação EconômicaFoto: AP

O ministério alemão encabeçado desde outubro de 2009 por Dirk Niebel se chama "da Cooperação Econômica e Desenvolvimento" (BMZ, na sigla em alemão). Porém, para muitos, as ligações do político do Partido Liberal Democrático (FDP) com o empresariado são estreitas demais.

Antes de partir em visita ao Vietnã e o Camboja, no início de março, Niebel anunciou que sua meta principal era favorecer os investimentos de firmas alemãs naqueles países do Sudeste Asiático. E que vê, como sua missão, criar um bom clima para a cooperação econômica com países emergentes como a Indonésia ou a Índia.

Lucrar com os mais pobres?

"Trata-se, antes, de incentivo à economia alemã", criticam figuras-chave no setor, colocando em dúvida que isso seja ajuda ao desenvolvimento.

Ulrich Post, presidente da Venro, uma confederação de 120 ONGs alemãs, mostra-se extremamente cético: "Não me ocorre qual empresa alemã poderia investir em Burkina Fasso ou Mianmar, ou em outros países realmente pobres, e ainda assim conseguir transferir lucros para casa. Acho que às vezes o ministro exagera no liberalismo".

Na Alemanha, a cooperação econômica faz parte da política de desenvolvimento – da mesma forma que outros setores, como a ajuda humanitária. Porém os críticos temem que o trabalho de cooperação para o desenvolvimento venha ser reduzido ao nível puramente econômico, e remanejado para beneficiar indiretamente a indústria alemã.

Caos organizado

Segundo o parlamentar verde Uwe Kekeritz, o aspecto econômico simplesmente não pode estar no centro das atenções. "Não sou contra as contribuições à cooperação para o desenvolvimento refluírem para a Alemanha. Porém a motivação deve ser o interesse do país em questão, e não o das multinacionais."

Igualmente na mira dos críticos encontram-se os planos de redução de gastos do político liberal-democrata: Niebel colocou publicamente em questão a meta de, até 2015, elevar a ajuda alemã ao desenvolvimento até 0,7% do PIB. Sua argumentação é de que "eficácia é mais decisiva do que volume".

Akzeptanz durch Transparenz
Ulrich Post (e), da Venro, ao lado de deputada Karin RothFoto: DW

Tais declarações do ministro provocam incerteza e irritação entre seus compatriotas e não levam a uma discussão construtiva, condena Karin Roth, representante do Partido Social Democrático (SPD) na comissão parlamentar alemã para política de desenvolvimento.

"Isso é um caos organizado da parte dele [Niebel], que não fomenta a confiança na política de desenvolvimento na Alemanha. As pessoas aqui são muito abertas, elas doam muito e aceitam nossa política e a cooperação econômica. [...] Por isso é uma pena enorme que, com coisas tão simples mas que mais tarde serão suprimidas, no final das contas se semeie inquietação entre os alemães".

Palavra de Merkel

Além disso, manter o objetivo de 0,7% não é uma decisão que o ministro possa tomar sozinho, prossegue Roth. Assim como outros países, a Alemanha está comprometida com acordos internacionais. Como, por exemplo, as Metas de Desenvolvimento do Milênio, aprovadas por 189 nações numa cúpula da ONU de setembro de 2000. Nelas, os doadores – as nações industrializadas – se comprometem a investir mais na cooperação para o desenvolvimento mundial.

Dentre os alvos da Declaração do Milênio, consta a redução à metade da pobreza no mundo, o combate a doenças, a garantia do acesso a água potável e à educação. Com este fim, os Estados da União Europeia lançaram um plano em etapas, que vincula à meta de 0,7% do PIB todos os países filiados ao bloco antes de 2002.

Um ministro não tem o direito de simplesmente ignorar obrigações dessa ordem, insiste Karin Roth. Afinal de contas, a própria chefe de governo da Alemanha, Angela Merkel, assegurou no Parlamento que pretende manter as metas de desenvolvimento e os acordos internacionais. "E, no fim, o que conta é a palavra da chanceler federal", pontificou a política social-democrata.

Autor: Hicham Driouich (av)
Revisão: Roselaine Wandscheer