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Economia

Crise russa já prejudica economia brasileira

Forte desvalorização do rublo diminui em 60% a exportação de carne bovina para os russos. Risco de "contágio" pela crise ronda economia brasileira e de outros emergentes.

A situação econômica na Rússia acendeu a luz vermelha para os exportadores brasileiros de carne. Após os produtores nacionais terem sido beneficiados com o embargo russo à compra de alimentos da União Europeia (UE) e Estados Unidos, a forte desvalorização do rublo reduziu a exportação de carne bovina brasileira em cerca de 60% entre outubro e novembro.

"Nos últimos dias já caíram as exportações brasileiras, principalmente de produtos agropecuários. Com a desvalorização da moeda russa, são necessários mais rublos para importar produtos", diz Gilberto Ramos, presidente da Câmara de Comércio Brasil-Rússia. "Se o quadro persistir, o governo russo terá que subsidiar os preços para que o mercado não fique desabastecido."

Por conta do inverno na Europa, a tendência, segundo Ramos, era que a venda de carne fosse se manter estável. Mas a crise alterou a situação. "Pode levar alguns meses até o setor se readequar. Espero que os bancos centrais do Brasil e da Rússia voltem a conversar sobre a realização de trocas comerciais usando reais e rublos."

A economista Cecília Melo Fernandes lembra que as sanções russas aos produtos europeus e americanos haviam favorecido principalmente os produtores de carne suína e de frango, que elevaram de forma substancial suas exportações.

"A alta substancial dos juros [que nesta terça-feira (16/12) passaram de 10,5% para 17%] vai dificultar ainda mais o acesso dos importadores russos às linhas de crédito e frear ainda mais o já frágil crescimento russo, cuja economia está à beira de uma recessão", avalia Fernandes. "Um retorno a um patamar razoável e estável não será fácil nem rápido."

De acordo com dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), a Rússia é a segunda maior importadora de carne bovina brasileira, perdendo somente para Hong Kong. Entre janeiro e novembro, os russos compraram cerca de 304 mil toneladas de carne bovina. Hong Kong adquiriu cerca de 360 mil toneladas.

Possíveis consequências da crise russa

Há também o risco de "contágio" para o Brasil e outros países emergentes, cujas economias já estão fragilizadas pelas quedas nos preços de várias commodities e pela desaceleração da economia chinesa. O "contágio" pela crise se daria se os investidores passassem a desconfiar dos mercados emergentes de um modo geral.

A recente desvalorização do real é um reflexo de que existe uma certa desconfiança por parte dos investidores. No caso do Brasil, assim como no da Rússia, essa desconfiança é motivada em boa parte pela desvalorização do petróleo, mas o baixo crescimento da economia e a inflação em alta também contribuem.

Mas, no momento, não há sinais de um real "contágio" na economia brasileira, e analistas lembram que o Brasil está numa posição confortável, com reservas internacionais de 375 bilhões de dólares.

Um outro possível efeito indireto da crise russa sobre o Brasil poderia se dar na balança comercial. Se a crise russa afetar as economias de outros países emergentes, estes poderão importar menos, também do Brasil.

A moeda russa perdeu quase 45% de seu valor desde o início do ano. Os motivos são as sanções impostas por países Ocidentais a Moscou, por causa da anexação da Crimeia e do conflito no leste da Ucrânia, e principalmente a queda do preço do barril de petróleo. As vendas de petróleo correspondem a três quartos das exportações russas e mais da metade da receita do governo.

De acordo com Fernandes, ainda que a Rússia tenha flexibilizado o câmbio e usado parte de suas reservas para manter o rublo estável, a queda acentuada era inevitável. Para ela, essa situação é reflexo de um problema estrutural mais grave, pautado na ausência de reformas econômicas que diminuam a dependência do petróleo.

"O ano de 2015 não será fácil para os russos – aliás, nem para os brasileiros. O Banco Central russo prevê uma retração de 4,5% na economia no ano que vem e de 0,9% em 2016", explica Fernandes. "A inflação, que fechou novembro em 9% ao ano, sofrerá um forte impacto caso a desvalorização persista, o que é o cenário mais provável. E isso vai enfraquecer ainda mais o poder de compra dos russos."

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