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Mundo

Crise migratória abre chance à inovação urbana

Encontrar soluções para acomodação a longo prazo dos recém-chegados na Alemanha não é apenas tarefa para políticos, mas também para arquitetos e urbanistas. E, segundo mostra a história, todos podem sair lucrando.

Um elemento que chama a atenção nas imagens que correram mundo no final de agosto, de choques violentos diante de um abrigo de refugiados em Heidenau, no estado alemão da Saxônia, era um letreiro em azul e amarelo, dizendo "Praktiker". Trata-se de um resquício do passado do prédio como loja de material de construção. Ele foi remanejado em regime de urgência pelas autoridades locais depois que uma forte chuva transformou o acampamento de refugiados da vizinha Chemnitz num lamaçal.

As demais soluções encontradas nas últimas semanas para fazer frente ao afluxo de refugiados incluem uma cúpula inflável próxima à estação ferroviária central de Berlim, apelidada "Caredome" por seu fabricante, assim como antigas casernas, bancos e clínicas psiquiátricas.

Considera-se até utilizar o aeroporto berlinense desativado de Tempelhof em abrigo provisório. Outra intervenção inesperada partiu da firma de móveis de baixo custo Ikea, que está produzindo unidades de habitação pré-fabricadas em parceria com a ONU e a ONG Better Shelter ("abrigo melhor").

"Cerca de 50 Better Shelters foram entregues, algumas semanas atrás, na República da Macedônia, à Acnur e à Cruz Vermelha", relata Märta Terne, colaboradora do grupo. "Eles foram instalados em dois locais em Skopje, funcionando como abrigos de trânsito para requerentes de asilo à espera de seguir viagem para outros destinos na Europa."

"Dentro de alguns dias, mais de 300 abrigos vão ser transportados por navio para a Grécia", prossegue Terne. "Notamos, durante o verão, um enorme aumento nas encomendas de organizações da Europa, num reflexo direto do grande fluxo de homens, mulheres e crianças fugindo do Oriente Médio e da África para a Europa, pelo Mediterrâneo."

Solução desumana

No entanto, por mais inovadoras que sejam, essas unidades não são adequadas aos invernos glaciais do norte europeu, e as autoridades estão urgentemente buscando alternativas.

O frequente recurso a contêineres vem acarretando um aumento inédito na demanda. Segundo divulgou no periódico Financial Times, a companhia austríaca Containex, a maior do setor na Europa, estima que a produção vá crescer entre 8% e 10% em 2015, chegando a 50 mil unidades.

Para o arquiteto Jörg Friedrich, da Universidade Leibniz de Hannover, contudo, contêineres são simplesmente desumanos. "A demanda subiu tanto recentemente, que eles nem estão especialmente baratos. E, por sua própria natureza, são apenas temporários", comentou à DW.

"Eles são projetados como uma solução de emergência, imprópria à habitação de longo prazo, que é do que se precisa. Essas pessoas estão aqui para ficar, e têm direito a um espaço decente para morar. Mas elas são acomodadas em lugares inadequados a seres humanos, que não fornecem a menor privacidade aos residentes, inevitavelmente acarretando tensões."

Como exemplo, Friedrich menciona que os contêineres não possuem ventilação nem isolamento acústico. "O som da chuva no teto de um deles pode ser tão alto quanto o de uma metralhadora – algo potencialmente traumático para quem acaba de escapar de uma guerra."

Urlauber der Insel Kos laufen an Zelten von Flüchtlingen vorbei

Acampamento de refugiados em Suruc, na Turquia

Evitando guetos

Porém há pouca motivação por parte das autoridades para buscar melhorias, já que os receptáculos industriais preenchem os requisitos da legislação alemã, que prevê para cada refugiado um mínimo de sete metros quadrados onde morar.

"Como arquiteto, o que quero é propor formas alternativas de acomodação que não deixem nenhuma opção aos políticos, senão aceitá-las", revela Jörg Friedrich.

"Eles tendem a argumentar que as cidades estão cheias, mas elas não estão. Há muita área desocupada. Por exemplo, 40% do espaço disponível nos estacionamentos em vários andares não é utilizado, e poderia ser facilmente transformado em moradias, as quais teoricamente seriam também atraentes para estudantes."

Um aspecto-chave da estratégia habitacional do arquiteto de Hanover é permitir-se que os refugiados morem lado a lado com o restante da população. Ele argumenta que alocar os alojamentos nos limites urbanos, como é a norma em toda a Europa, equivale a condenar os recém-chegados ao gueto, obstruindo sua integração e propiciando que sejam ignorados pelo público em geral.

Terraços e balsas

Jörg Friedrich reivindica "uma nova tipologia habitacional". "Muitas cidades alemãs são dominadas por prédios dos anos 1950 e 60, com telhados planos. Muitas vezes eles são usados como bares da moda. Por que não utilizá-los como um espaço de moradia inovador?"

Ele e seus alunos em Hannover propõem também remodelar as cabanas de madeira dos Schrebergärten, os jardins e hortas situados em lotes públicos presentes por toda a Alemanha. Ou até mesmo embarcações de carga.

"Muitas balsas antes usadas no transporte de carvão, por exemplo, estão fora de uso. Elas podem ser facilmente convertidas em moradias, com a vantagem adicional de poderem ser deslocadas de um local a outro, dependendo de onde sejam necessárias."

Além disso, no fim das contas, regenerar espaços urbanos não utilizados beneficia a todos, aponta o professor da Universidade Leibniz. Pois a história da arquitetura e urbanismo alemães prova que é possível integrar as moradias para refugiados no tecido urbano, enriquecendo e promovendo seu crescimento.

Deutschland, Wohnkonzepte für Flüchtlinge

Projeto do livro "Refugees welcome"

Histórico de uma "arquitetura das boas vindas"

Após a Segunda Guerra Mundial, explica Jörg Friedrich, numerosos desalojados dos territórios da Alemanha ao leste foram assentados na Frísia Oriental, em áreas ao longo do rio Ems que hoje apresentam alto valor imobiliário.

"O que começou como campos de refugiados, cujos residentes eram encorajados a cultivar suas próprias hortaliças, evoluiu, ao longo dos anos, em área residencial altamente desejável, com cobiçados jardins."

Mas as raízes da "arquitetura das boas vindas" despontam ainda mais longe no tempo. "Lá em 1621, o duque Frederico 3º de Holstein-Gottorf deu um lar a remonstrantes holandeses, fundando no atual estado de Schleswig-Holstein o que é conhecido como Friedrichstadt, graças ao conhecimento de engenharia hidráulica dos imigrantes."

"Até mesmo a atraente praça Gendarmenmarkt de Berlim foi originalmente um acampamento de refugiados para huguenotes perseguidos, estabelecido em 1985 pelo príncipe eleitor de Brandemburgo Frederico Guilherme, também interessado nas aptidões deles como artesãos. Não há dúvida: a contribuição dos huguenotes para a cidade foi imensa – basta olhar para a Catedral Francesa."

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