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Mundo

Crise europeia atinge mercado jornalístico português

Diante da queda de receita com anúncios publicitários, principais veículos em Portugal anunciam cortes e demissões. Jornalistas entram em greve e questionam futuro do jornalismo de qualidade no país.

Fora das instalações do jornal Público, principal jornal diário de Portugal, jornalistas tentam manter-se animados enquanto fazem greve contra os planos do corte de mais de um quarto dos jornalistas da publicação.

O jornal Público – de propriedade do grupo Sonae, controlado por um dos homens mais ricos de Portugal – nunca foi exatamente rentável, mas tem prestígio. Agora, porém, diante da pior recessão no país em quatro décadas, a publicação tem visto sua receita com anúncios despencar, o que levou seus donos a anunciar cortes drásticos.

Qualidade em risco

Jornalista do Público há 11 anos, Sofia Lorena, da editoria de notícias internacionais, afirma não imaginar como a publicação conseguirá sobreviver com tantos cortes nos postos de trabalho.

"Existe um procedimento legal e neste momento estamos em fase de negociações. Mas a intenção de despedir 48 pessoas é oficial", explica Lorena, vencedora de um dos principais prêmios jornalísticos de Portugal no ano passado com reportagens sobre o Iraque e o Kuait.

"São 48 de 240 trabalhadores ao todo. Entre os despedidos estarão 36 jornalistas, do total de 120. Não será possível fazer o Público com a qualidade de hoje sem esses trabalhadores, sem esses jornalistas",  avalia Sofia Lorena. Ela é membro do comitê de funcionários consultado sobre os cortes, e vem lutando para proteger os postos de trabalho em risco.

Mas ela e seus colegas também se preocupam com as amplas implicações para o jornalismo em Portugal. Jornalistas do Público se juntaram aos de outras publicações para discutir o futuro do jornalismo no país.

Entre os que se reuniram em uma sala do segundo andar de um prédio no centro de Lisboa estavam funcionários da agência pública de notícias Lusa. Para participar das discussões eles fizeram uma pequena pausa no quarto dia de piquete de greve, deflagrado depois que o governo anunciou planos para reduzir o financiamento da agência em um terço.

Cortes generalizados

Mais uma vez a culpa recai sobre a crise econômica, já que para receber ajuda da zona do euro Portugal é obrigado a fazer profundos cortes de gastos. Ao contrário do jornal Público, as demissões na Lusa serão voluntárias. Sofia Lorena é uma dos muitos que temem que os cortes significarão a perda da cobertura de notícias em lugares onde os correspondentes da Lusa são, muitas vezes, os únicos que atendem os leitores portugueses.

Symbolbild Medienfreiheit

A emissora pública portuguesa RTP está sob o risco de ser privatizada

"A Lusa tem pessoas em todas as partes do mundo. Nós não temos e ninguém em Portugal tem jornalistas sequer em países onde se fala português. Então, se não tivermos a Lusa lá, não estaremos lá", ressalta.

Ameaças à qualidade do jornalismo nos setores público e privado vêm em um momento em que vários protestos de massa contra a austeridade são realizados em Portugal e que o modelo político e econômico do país é questionado.

Lorena diz que é exatamente nessa situação que os jornalistas são mais necessários. "Neste tempo de profunda crise é quando mais precisamos que a mídia tenha capacidade de realizar o seu trabalho sob as melhores condições. E o que temos é exatamente o contrário. Todos os jornais em Portugal perderam dezenas de funcionários neste ano. Por isso será algo catastrófico se todos esses cortes forem levados adiante."

Esta opinião é compartilhada por muitos em Portugal. Mesmo antes dos recentes cortes, Carlos Magno, presidente do Conselho Regulador da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), havia dito que a democracia portuguesa estava sob ameaça.

"Nenhuma democracia sobrevive sem uma imprensa forte. A imprensa portuguesa é vulnerável à crise econômica e incapaz de discutir maneiras de sair dela de forma razoável, racional, de mobilizar cidadãos e de estar aberta a todas as opiniões – ou seja, opiniões alternativas sobre questões econômicas", destacou.

Implicações mais amplas

Segundo Carlos Magno, grupos de comunicação em dificuldades financeiras estão sendo "invadidos" por capital financeiro proveniente de Angola, ex-colônia portuguesa com diferentes tradições quando se trata de liberdade de expressão.

De maneira ainda mais surpreendente, há preocupações quanto à emissora pública estatal RTP, após o consultor de privatizações do governo ter sugerido que o principal canal de televisão do país poderia ser entregue a investidores privados.

Symbolbild Medien Presse Abhängigkeit

Jornalistas estão preocupados com as implicações dos cortes nas redações

Magno acredita que o que acontecer com a RTP terá uma enorme influência sobre o resto da mídia. Ele avalia que grandes oportunidades comerciais são esperadas em um mundo onde há um rápido crescimento de economias de língua portuguesa como Brasil, Angola e Moçambique.

"A RTP vai ser uma espécie de pedra fundamental para definir grupos portugueses no futuro, que poderão crescer e se consolidar, ou se tornarem cada vez menores e morrer. Acho que a coisa mais importante é impulsionar grupos portugueses e levá-los a competir no espaço lingüístico", disse Magno.

Em meio a incertezas, Sofia Lorena ressalta que a crise está unindo jornalistas de diferentes organizações, mesmo estando cada em seu piquete de greve.

"Acho que as circunstâncias estão ampliando a solidariedade, porque as pessoas estão percebendo que não se trata somente de alguns postos de trabalho, mas sim todo o propósito da nossa profissão que está em risco. Há um senso de urgência: de que forma esse processo vai afetar a democracia e, se há alternativas, quais seriam elas", afirma Lorena.

Autora: Alison Roberts (fc)
Revisão: Mariana Santos

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