1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages

Ciência e Saúde

Crise da água em SP será esquecida com a primeira enchente, diz secretário

Mauro Arce, secretário de Saneamento e Recursos Hídricos de São Paulo, diz que abastecimento de água na região metropolitana está garantido até março de 2015. Em entrevista à DW, ele afirma que não houve má gestão.

default

Barragem do rio Jaguari, em Bragança Paulista, em fevereiro de 2014

O Sistema Cantareira, principal fornecedor de água da região metropolitana de São Paulo, atravessa a pior seca de sua história. Mas ninguém deve ficar sem água na região metropolitana de São Paulo até março de 2015, diz Mauro Arce, secretário estadual de Saneamento e Recursos Hídricos. Antes da crise atual, o sistema abastecia 9 milhões de moradores – agora supre a metade.

A esperança está depositada no segundo volume estratégico, também chamado de volume morto, do Cantareira, que armazena 150 bilhões de litros de água. Ele ainda não começou a ser explorado. O primeiro volume morto, que manda água para a região desde maio, deve dar conta do abastecimento até novembro.

Em entrevista, feita por telefone na última semana, Arce, que assumiu a pasta em abril, disse não confiar na previsão da meteorologia e que o problema será esquecido assim que "der uma chuva que inunde o Tietê". Segundo o secretário, pode ser necessário adotar em São Paulo medidas como o reuso da água para beber.

DW Brasil: As previsões meteorológicas para os próximos meses não são otimistas. Qual o risco de São Paulo ficar sem água?

Mauro Arce: As pessoas não acertam como foi o tempo ontem. Qualquer coisa acima de uma semana é um chute violento. Contamos com estatísticas. Sabemos que de maio a setembro não tem chuva. As chuvas começam na primavera, e estamos contando com isso. No caso do Sistema Cantareira, estamos usando o que chamamos de volume estratégico [volume morto]. Temos ainda outro volume estratégico, que espero que não precise ser usado. Estamos vivendo um período eleitoral, e, às vezes, as pessoas querem tirar proveito dessa situação.

Até quando a região metropolitana de São Paulo está garantida?

Se não chover a média, estamos garantidos até março [contando com o segundo volume estratégico de 150 bilhões de litros de água, que ainda não começou a ser usado]. Estamos fazendo o possível para garantir que todos os consumidores de São Paulo tenham água, os que fazem economia ou não. Mas vamos continuar insistindo para que as pessoas reduzam o consumo.

Com a reserva [volume morto] que está sendo usada agora, até quando o abastecimento está garantido?

Espero não precisar usar a segunda reserva. Mas se precisar, será lá para novembro. Estamos fazendo investimentos para isso, mas estou torcendo para não usarmos. Quando se faz o planejamento de alguma coisa, falam em risco zero. Isso não existe. Não existe isso de garantir, em qualquer circunstância, que você vai ter água, que, se nunca mais chover, você terá água.

Muitos especialistas que acompanham a crise falam em má gestão dos recursos hídricos. Também dizem que o governo de São Paulo não ouviu alguns alertas que foram emitidos em 2011, como o estudo da Agência Nacional de Águas (ANA), que apontou que 55% das cidades brasileiras poderiam ficar sem água em 2015, caso investimentos não fossem feitos imediatamente.

Ninguém alertou nada. Em 2009, tivemos uma grande enchente. Para o Cantareira, foi feita a definição de um volume de espera. As pessoas dizem: "No final do ano passado vocês já sabiam que o verão iria ser ruim". Isso não é verdade. Eu não sei se vai ser bom ou ruim, mas eu tinha que manter um volume de espera. Eu podia ter jogado água fora, porque uma enchente poderia acontecer. As mesmas pessoas que falam que vai faltar água dizem que temos que nos prevenir para uma enchente.

Na opinião do senhor, não houve má gestão?

Não, de jeito nenhum.

O senhor avalia que obras foram feitas para assegurar o abastecimento de água a longo prazo da região metropolitana de São Paulo?

A região metropolitana de São Paulo tem a menor disponibilidade de água por habitante/ano do Brasil. Estamos a 800 metros acima do nível do mar, temos o rio Tietê, que nasce aqui [no estado], mas que dá uma volta e passa aqui com pouca água. Se tivéssemos construído São Paulo na foz do rio Tietê com o rio Paraná, não estaríamos discutindo isso agora.

Qual é o planejamento e as ações estratégicas a longo prazo para sanar esse problema, então?

Até agora, os períodos mais críticos tinham sido os anos de 1952 e 1956, quando foram registradas as menores afluências. Hoje não são mais, é 2013/2014. Isso implica numa mudança, o planejamento que está feito e que tinha prazos terá que ser antecipado.

Uma coisa que evidentemente mudou é que, em 1952 e em 1956, não existia irrigação. Hoje, 50% da água vai para o consumo humano, e os outros 50% são divididos entre a irrigação e indústria [no estado de São Paulo]. Uma nova situação está criada. Há alterações na demanda e, com a vazão menor que aconteceu agora, a gente vai ter que antecipar investimentos. E até introduzir coisas que não estavam nos planos da metrópole, como o reuso da água – não para lavar calçada e coisas do tipo, mas para as pessoas beberem, como se faz em Singapura e em outros lugares.

E já se sabe de quanto será esse investimento e quando será feito?

Algumas coisas estão andando, mas são coisas emergenciais e estruturais. São dois projetos: um que entra em 2018 e outro que pode entrar no final do próximo ano, que representam juntos um aumento de 10 metros cúbicos, que é bastante, é muita água. A partir do instante em que a situação voltar ao normal, ou seja, a parte climatológica se normalizar, vamos rever o que tem que ser feito.

Existe certa dificuldade em definir responsabilidades federais, estaduais e municipais no caso da gestão da água?

Sim. O Operador Nacional do Sistema, por exemplo, é um órgão privado, que tem uma função importante, mas que está focado na geração de energia elétrica. E, de acordo com a lei brasileira, não é prioridade gerar energia quando se tem uma situação em que não se pode abastecer as pessoas com água.

O Brasil tem uma legislação que define rios federais e rios estaduais. A legislação é meio confusa no caso de um rio estadual que tem um aproveitamento hidrelétrico. O rio Jaguari [que nasce em Minas Gerais e corre por São Paulo], por exemplo: é um rio de domínio estadual, mas porque tem um aproveitamento hidrelétrico, há uma ligação [federal]. Além disso, a Agência Nacional de Água tem ótimos técnicos, mas é uma agência nova. Ela tem que olhar para o Brasil como um todo, e aí é muito complicado.

Uma coisa que me preocupa bastante é que, com a primeira chuva que inundar o Tietê, ninguém mais vai falar sobre isso, vai esquecer. E só volta a falar disso na hora em que houver outra crise.

Mas é um assunto que afeta diretamente as pessoas.

Claro, assim como a enchente também afeta. Tenho que deixar o reservatório vazio para controlar a enchente. E não sei se vai chover ou não. Quer dizer, tenho que deixar o volume de espera no reservatório. Em Barra Bonita, por exemplo, o reservatório não pode chegar ao início da estação chuvosa com mais de 60%. Tenho que ter 40% de espaço livre pra controlar uma possível enchente. Em 1976, veio uma chuva forte e duas barragens romperam, foi uma catástrofe. Romperam, porque não havia volume de espera. É complicado.