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Brasil

Crise com vista para o mar

Desaceleração do mercado imobiliário em áreas nobres do Rio, como Copacabana e Ipanema, é simbólica da recessão em que Brasil mergulhou. Apartamentos de luxo estão encalhados, numa prova de que a crise chegou para todos.

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Orla de Copacabana, cartão-postal da cidade: preços caíram até 30% nos últimos dois anos

Basta uma caminhada pelas ruas de bairros icônicos na badalada Zona Sul do Rio de Janeiro, como Copacabana e Ipanema, para identificar incontáveis placas de "vende-se" ou "aluga-se" penduradas nas janelas. E se ainda restar dúvidas de que a crise chegou, de fato, para todos, um passeio noturno pela orla carioca revela a maioria das varandas vazias e luzes apagadas em apartamentos que, até então, eram disputados por dezenas de milhões de reais.

O freio na economia fez desacelerar o mercado imobiliário – sobretudo os imóveis de luxo, cujos preços caíram até 30% nos últimos dois anos, num indicativo de que a incerteza assombra até as elites brasileiras. Apartamentos estão encalhados na cidade-sede dos Jogos Olímpicos, que ainda tem o metro quadrado mais caro do Brasil (R$ 10,4 mil), de acordo com o índice FipeZap, da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) em parceria com o portal Zap Imóveis. No Rio, a recessão tem vista para o mar.

Economistas divergem sobre o uso do termo "bolha" para definir a supervalorização no mercado imobiliário brasileiro. Ao contrário do ocorrido nos Estados Unidos em meados de 2008, no Brasil, houve uma "bolha" de preços – e não de crédito. Desde 2008, o crescimento econômico e a facilidade de se obter crédito alimentaram a demanda e estimularam os preços. Além da estabilidade do real, foi um período que coincidiu, ainda, com os programas de habitação do governo, como o Minha Casa Minha Vida. E a isso, soma-se, ainda, a alta dos preços dos insumos da construção civil e do valor dos terrenos. Foi a especulação que saiu do controle em um país obcecado pelo "sonho da casa própria".

Mas, na prática, essa definição pouco importa para corretores do setor de alto luxo como Ricardo Whitaker, proprietário da Whitaker e Monteiro Imóveis. O fluxo de vendas desabou. Ele lamenta o desaquecimento econômico e aponta que, hoje, está mais difícil vender. E cita como exemplo um apartamento de 300 metros quadrados, reformado por um renomado arquiteto, com quatro quartos, de frente para a famosa praia de Ipanema. Avaliado inicialmente em R$ 18 milhões, o imóvel hoje já custa a "barganha" de cerca de R$ 10 milhões. Faltam interessados.

"Tive apenas duas visitas neste imóvel o ano passado inteiro e agora, no fim de 2015, consegui um interessado, britânico. Mas o negócio ainda não foi fechado. Os clientes potenciais são estrangeiros, por conta da desvalorização do real frente ao dólar e ao euro. Ainda assim, quem quer especular e vender por um preço muito alto para agradar ao proprietário não consegue vender", conta.

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Em Ipanema, corretores têm dificuldade para vender: apartamento avaliado em R$ 18 milhões está saindo por 10

Reflexo da recessão

A corretora Kika Cavalcanti faz coro. Segundo ela, os investidores fugiram devido ao cenário sombrio, sobretudo, na capital fluminense, dependente da indústria do petróleo. E isso porque, embora os mercados estejam desacelerando em todo o país, no Rio, a situação é mais grave por conta da Operação Lava Jato, que investiga fraudes em contratos da Petrobras.

Além de sofrer com a queda nos preços das commodities, a petrolífera se viu obrigada a suspender contratos com dezenas de empreiteiras que operavam na cidade e no estado. Algumas chegaram a pedir recuperação judicial. E, com isso, os clientes, funcionários e colaboradores dessas companhias evaporaram.

"É um momento de cautela. Ninguém está investindo no Brasil, e quem ainda tem dinheiro está segurando, esperando para ver o que vai acontecer. Tenho trabalhado mais com locação, mas a concorrência está muito grande. Sobram imóveis na cidade, e os aluguéis também caíram entre 20% e 30%. Ficou mais fácil barganhar com os proprietários", diz Kika, dona da Rio Best Property.

Para economistas, a desaceleração do mercado imobiliário é simbólica da recessão na qual mergulhou o Brasil – e ultrapassa o mercado de luxo. Em 20 cidades avaliadas pelo Fipe/Zap, foi registrada uma queda real de 8,4% no valor dos imóveis em 2015. E, pela primeira vez em 15 anos, o interesse por aluguéis, em todos os setores e faixas de preço, é maior do que pela compra. Tudo por conta da baixa confiança do consumidor e da escassez de crédito, além das elevadas taxas de juros praticadas atualmente no país (14,25%).

"Houve no Brasil uma especulação que contaminou a economia toda. Os preços subiram exagerada e artificialmente sem motivo. Criaram-se distorções e, com os juros altos, as taxas de financiamento ficaram impossíveis. Tratar o mercado imobiliário como fonte insuperável de lucro e investimento foi um erro. Os preços vão continuar caindo", afirma Luiz Carlos Ewald, especialista em Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV).

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