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Economia

Crédito fácil e parcelamentos levam consumidor brasileiro a "labirinto de dívidas"

Estímulos ao consumo por parte do governo federal fortalecem o mercado interno, mas também endividam uma parte da população brasileira. Estudo diz que classe C já compromete 46,36% da sua renda com pagamento de dívidas.

Política de juros baixos, crédito fácil e abundante e parcelamentos de compras "a perder de vista" são ingredientes que estimulam a economia. Mas essa estratégia de aquecer a economia por meio do consumo, largamente incentivada pelo governo brasileiro, tem prazo de validade: a população, principalmente a classe C, está endividada. E uma hora ela terá que reorganizar as contas da casa.

Nos últimos dez anos, o acesso da população mais pobre aos bens de consumo foi consideravelmente ampliado. "Essa parcela da sociedade não tinha acesso aos bens mais sofisticados, pois muitos viviam próximos do nível de sobrevivência, da compra dos produtos mais básicos", diz Fulvio Giannella Júnior, coordenador executivo do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).

Hoje a oferta de crédito é muito grande, até mesmo excessiva, dizem os economistas, e o consumidor acaba optando pelo parcelamento na hora de realizar o desejo de comprar produtos mais caros. "É a forma que ele encontra para adquirir um produto da maneira mais rápida possível e satisfazer a sua vontade", diz Giannella Júnior.

Labirinto de dívidas

Segundo a coordenadora da associação de consumidores Proteste, Maria Inês Dolci, o alto endividamento das famílias brasileiras é resultado direto da facilidade de crédito no país. Um estudo realizado pela Proteste em agosto deste ano mostra dados preocupantes.

As classes A e B comprometem, em média, 35,1% da renda para o pagamento de dívidas. Já a classe C compromete quase a metade da sua renda (46,36%) e a classe D, 26,01%. Ainda de acordo com o estudo, realizado com 200 participantes no Rio de Janeiro e em São Paulo, uma família endividada possui, em média, três dívidas ativas.

As mais comuns são o parcelamento de compras com o cartão de crédito, o parcelamento de faturas de débitos do cartão de crédito e dívidas decorrentes de saques realizados com o cartão de crédito – ou seja, o cartão de crédito é o maior vilão do endividamento dos brasileiros.

"Isso leva a um labirinto de dívidas do qual o consumidor não consegue mais sair. E, ainda, o consumidor contrai empréstimos para saldar dívidas anteriores e cai no labirinto das dívidas impagáveis", diz Maria Inês Dolci. Mesmo com a queda na taxa básica de juros, a Selic, os juros cobrados pelas administradoras de cartões de crédito continuam acima dos 200% ao ano.

Juros embutidos nas parcelas

Muitos consumidores optam pelo parcelamento de compras e não consideram os juros que estão embutidos no parcelamento "a perder de vista". O ideal, segundo os especialistas, é juntar dinheiro e negociar o valor do produto à vista e, assim, pagar menos.

"Pelo fato de a parcela caber no bolso, o consumidor acaba pagando duas ou três vezes o valor do produto", frisa o professor de economia Samy Dana, da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Como lembra Maria Inês Dolci, quanto maior a facilidade, "maiores são os juros embutidos nos preços".

Mesmo fazendo as contas e pagando mais caro, muitos consumidores deixam de lado essa questão, pois não teriam como comprar o produto à vista. "Isso porque querem ter acesso imediato ao produto e ir pagando em suaves prestações. Assim, a inadimplência pode surgir, pois até quitar totalmente o produto, o consumidor pode ficar desempregado ou ter outros gastos de emergência", diz Giannella Júnior.

Os consumidores têm que saber que milagres não acontecem no comércio, diz Maria Inês Dolci. "Tudo tem seu preço e qualquer compra parcelada é engordada por juros escrachantes, o que é uma das características do nosso mercado financeiro."

Política de estímulo ao consumo

O governo federal tem estimulado o consumo com a ampliação da oferta de crédito e taxa de juros que caem consecutivamente. Isso ajudou o Brasil durante a crise econômica de 2008/2009, quando o país não foi tão atingido como outros. "Uma das opções para fazer frente a uma crise é um mercado interno forte. Esse foi o ponto positivo", diz Giannella Júnior.

Mas os incentivos do governo ao consumo foram tão bem recebidos que muitas pessoas consumiram o que podiam e o que não podiam. "Uma prestação aqui, outra acolá e acabaram estrangulando toda a renda", comenta Samy Dana.

Como lembra o professor alemão de economia Federico Foders, os riscos dessa política de estímulo ao consumo por meio do crédito são evidentes. É uma fórmula que tem prazo de validade: mais cedo ou mais tarde, a conta – literalmente – virá. Para ele, deveria ser política do governo evitar o endividamento das famílias.

Autor: Fernando Caulyt
Revisão: Alexandre Schossler

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