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Mundo

Corte francesa proíbe peça de comediante considerado antissemita

Conselho de Estado anuncia suspensão de espetáculo do polêmico ator Dieudonné horas antes de ele subir no palco em Nantes. Decisão é vitória do governo, para quem a peça estimula o ódio.

O Conselho de Estado francês, a mais alta corte administrativa do país, proibiu nesta quinta-feira (09/01) uma apresentação do polêmico comediante Dieudonné apenas duas horas antes do início do espetáculo, na cidade de Nantes.

A decisão respalda um pedido do governo da França para vetar o show do ator, considerado antissemita, e contraria uma decisão anterior de um tribunal local, que havia autorizado Dieudonné a realizar a peça.

O anúncio pegou muitos espectadores de surpresa e causou certa indignação na frente do Teatro Zenith, onde o comediante iria se apresentar na noite desta quinta para um público de seis mil pessoas. Policiais da tropa de choque foram chamados para bloquear o acesso à casa de shows.

"Liberdade de expressão!", gritavam alguns fãs mais exaltados, ao tomarem conhecimento do cancelamento da peça. Além de Nantes, também foram suspensas as apresentações em cidades como Bordeaux, Orleans, Tours, Nice e Biarrity, agendadas até junho.

"Renuncie, Valls", diziam outros, referindo-se ao ministro francês do Interior, Manuel Valls, um dos maiores inimigos declarados de Dieudonné no governo. O ministro pretende suspender o ator de todos os palcos da França e afirma que a peça se apoia em "mecanismos de ódio".

Na terça-feira, Valls chegou a enviar uma circular às autoridades locais de Nantes pedindo a suspensão preventiva do espetáculo, no qual o ator faz uma série de piadas com judeus. O tribunal, porém, rechaçou os argumentos do governo de que o show constituiria um risco à ordem pública e à dignidade humana. Ainda segundo a corte local, a proibição não faria sentido uma vez que se "desconhece" o conteúdo, já que o comediante faz muito improviso.

Nicolas Anelka Quenelle Gruß

O jogador de futebol Nicolas Anelka, seguidor de Dieudonné, faz o 'quenelle' durante uma partida

Vários processos

Já o Conselho de Estado considerou que o conteúdo da peça já era conhecido dado o histórico de posicionamentos antissemitas do ator. Filho de uma francesa e de um camaronês, Dieudonné, de 47 anos, recebeu várias condenações ao longo de sua carreira – sempre impulsionada pela extrema direita – por discriminação racial e antissemitismo. Ele também está sendo investigado por lavagem de dinheiro e por simular uma bancarrota para não pagar uma dívida de 65 mil euros em multas e outras condenações.

Há um mês, um canal de televisão francês divulgou um trecho de um de seus shows, no qual o comediante insinua que um jornalista de uma rádio judaica deveria ir para uma câmara de gás. Ele também ridiculariza o holocausto em seus espetáculos.

Dieudonné afirma, porém, ser mais antissionista do que antissemita. Seu estilo provocador atrai a atenção principalmente de jovens, que repetem um gesto usado por ele, o quenelle, alvo de críticas por se parecer com uma saudação nazista apontada para baixo.

A polêmica envolvendo Dieudonné desencadeou um intenso debate na França nas últimas semanas sobre a imposição de limites às apresentações de comediantes no país. O governo argumenta que, neste caso particular, os shows de Dieudonné deixaram de ser uma simples comédia para se tornarem manifestações políticas.

MSB/dpa/ap/rtr

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