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Mundo

Confrontos na Turquia resultam de luta interna pelo poder, diz especialista

Após os embates em torno do escândalo de corrupção, situação se acalma na Turquia. Para analista, os últimos acontecimentos resultam da disputa entre o partido do premiê Erdogan e o movimento do pregador islâmico Gülen.

Após os protestos desta sexta-feira a situação na Turquia finalmente se acalmou. Os confrontos violentos entre a polícia e manifestantes deixaram vários feridos e resultaram em um grande número de prisões. Na manhã deste sábado (28/12), a situação na capital Ancara, assim como na maior metrópole turca, Istambul, já estava mais calma, embora as forças do governo continuem em prontidão.

O governo do primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan levou duros golpes nesta semana. Na esteira de um escândalo de corrupção, três ministros deixaram seus cargos. Pouco depois, Erdogan reformulou seu gabinete e trocou 10 do total de 25 ministros. Ao mesmo tempo, pressões internas e externas não param de aumentar.

Para o cientista político alemão Ekrem Eddy Güzeldere, que vive desde 2005 em Istambul, é improvável que a Justiça turca atue de forma independente quanto às investigações de corrupção.

Em entrevista à DW ele afirmou que "ela é muito politizada e usada de forma abusiva para propósitos do governo e de outros poderes, que estão presentes com força. Não podemos esperar um procedimento justo e independente da Justiça num futuro tão próximo", disse o pesquisador, que também trabalha para o think tank European Stability Initiative.

Deutsche Welle: Na esteira de um escândalo de corrupção, o primeiro-ministro Erdogan reformulou seu gabinete e trocou 10 ministros. Como o senhor avalia esses acontecimentos?

Ekrem Eddy Güzeldere: Para quem estuda o país, não é nenhuma novidade que existe corrupção na Turquia. Porém, foi surpreendente que essas acusações viessem somente agora a público e que tanto promotores como também a mídia sob o governo do partido AKP, de Erdogan, não se atreveram em todos estes anos em divulgar escândalos como esse, que eram de conhecimento de alguns jornalistas.

Isso pode decorrer do fato que se trata de um caso complexo de corrupção. Mas também se esconde por trás uma luta pelo poder entre o governo do partido AKP e o movimento Gülen. Por muito tempo, o governo de Erdogan e o movimento do pregador islâmico Fethullah Gülen mantinham interesses comuns e se apoiavam mutuamente. Mas, no início de 2012, os dois grupos passaram a se confrontar abertamente. O escândalo de corrupção foi o último passo deste confronto.

Erdogan culpou também embaixadores estrangeiros por participarem de uma campanha contra ele. Quais são os impactos disso na reputação da Turquia no exterior?

Isso certamente não vai melhorar a imagem da Turquia fora do país. Mas a declaração é um típico reflexo da política turca das últimas décadas, de desviar as atenções dos escândalos domésticos colocando a culpa em outros países. Quase o mesmo círculo, que recebeu agora a culpa, também foi responsabilizado no meio deste ano pelos protestos que aconteceram por causa do Parque Gezi, em Istambul. Seja por militares ou pelo AKP, círculos estrangeiros também eram considerados culpados nos anos anteriores e sob outros governos, de que eles estariam supostamente tentando fragilizar a Turquia.

Porträt des türkischen Journalisten Ekrem Eddy Güzeldere

Güzeldere: escândalo foi último passo do confronto entre partido de Erdogan e movimento do pregador Gülen

Por meio da reformulação do gabinete, o ministro turco para Assuntos Europeus, Egemen Bagis, perdeu também seu posto. Qual será a influência disso nas relações entre a Turquia e a União Europeia?

Nos últimos meses, ou até mesmo anos, Egemen Bagis foi mais conhecido por trabalhar contra a adesão da Turquia do que a favor. Quando começou a exercer o cargo de ministro, ele ainda tinha uma boa reputação em Bruxelas, Estrasburgo e também nos Estados Unidos, mas que logo foi se perdendo. Um político do AKP, Mevlüt Cavusoglu, que atuava há bastante tempo no Conselho Europeu, o sucedeu e assumiu a função. Ele é conhecido por ser crítico à União Europeia.

Portanto, não podemos partir do princípio que essa mudança será responsável por alterações na relação entre Turquia e União Europeia. O escândalo de corrupção e a renúncia dos ministros não passam uma boa imagem à democracia turca. Inclusive já houve algumas observações críticas de políticos europeus, sendo que o austríaco Hannes Swoboda, membro do Parlamento Europeu, afirmou que Erdogan também deveria renunciar.

Quanto ao plano político, o que significa o escândalo de corrupção para o governo de Erdogan? Como isso vai influenciar as eleições regionais de março de 2014?

O governo de Erdogan está numa luta defensiva, em que não se pode fazer muita política. Mas ainda não está muito claro até que ponto isso vai ter uma influência no comportamento eleitoral dos cidadãos. Em pesquisas realizadas nos últimos anos, sempre que o partido AKP perdeu votos foi, na maioria das vezes, por causa de dificuldades econômicas, sendo que os partidos de oposição nunca conseguiram se beneficiar dessa situação. Em vez disso, aumentou o número de não votantes e de indecisos.

Já que a maioria da população turca se informa pela mídia tradicional, que é próxima do partido AKP, muitos estão convencidos de que a versão dada pelo governo é a única que está certa. Por isso, a situação depende também de como o AKP vai lidar com a crise. Se ele proceder de forma hábil como fez após os protestos realizados na metade deste ano, com uma campanha profissional de propaganda, pode ser que o escândalo tenha pouca influência nas eleições regionais de março.

Mas se essa crise durar um longo tempo e talvez uma ou outra mídia publicar notícias mais críticas sobre o assunto, pode ser que exista impacto sobre as eleições e o enfraquecimento da posição do AKP.

O senhor acredita que tanto as investigações de corrupção quanto a Justiça do país irão proceder de modo independente?

Há anos, a Justiça turca não é independente. Ela é muito politizada e usada de forma abusiva para propósitos do governo e de outros poderes, que estão presentes com força. Uma parte da Justiça é próxima do AKP, uma outra faz parte do movimento do pregador religioso Fethullah Gülen. Não podemos esperar um procedimento justo e independente da Justiça num futuro tão próximo.

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