Conflitos étnicos no Quirguistão são herança da divisão de fronteiras por Stalin | Notícias e análises internacionais mais importantes do dia | DW | 20.06.2010
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Mundo

Conflitos étnicos no Quirguistão são herança da divisão de fronteiras por Stalin

A arbitrária divisão de fronteiras no Vale de Fergana pelos soviéticos, nos anos 1920, desconsiderou a distribuição geográfica de grupos étnicos e reacendeu antigas rivalidades.

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Membros da etnia uzbeque no sul do Quirguistão

A calma era só aparente: dois meses depois da derrubada do ex-presidente Kurmanbek Bakiyev, o Quirguistão, uma ex-república soviética da Ásia Central, foi novamente sacudido por uma onda de violência.

Desde o início de junho, os conflitos se repetem na região de Osh, a segunda maior cidade do país, localizada na fronteira com o Uzbequistão. Por trás dos conflitos, estão antigas rivalidades étnicas entre quirguizes e uzbeques, estes uma minoria no país.

Segundo a especialista Andrea Schmitz, do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança (Stiftung Politik und Wissenschaft, em alemão), o conflito se intensifica devido aos ressentimentos dos quirguizes em relação aos uzbeques.

"Os quirguizes se sentem frequentemente prejudicados pelos uzbeques. Na realidade, os uzbeques formam apenas 15% da população total do Quirguistão, mas no sul a proporção é outra: tanto quirguizes como uzbeques são mais ou menos 50% do total."

Segundo ela, a forte imigração de quirguizes, verificada após o fim da União Soviética, fez com que os recursos se tornassem cada vez mais escassos no sul do Quirguistão, o que dá aos quirguizes a impressão de estarem sendo prejudicados.

Stalin: divisão arbitrária

Há muito que a região em torno da cidade de Osh e do Vale de Fergana, no sul do Quirguistão, é considerada por estudiosos como um barril de pólvora devido à presença de grupos étnicos rivais.

Densamente povoada, a fértil região do Vale de Fergana é habitada principalmente por uzbeques. Outros grupos étnicos presentes são os quirguizes, os tajiques e os tártaros. Muitos habitantes são agricultores que vivem na pobreza, e tendências islamistas possuem raízes profundas na população.

A região pertenceu a um único senhor feudal até o ditador soviético Josef Stalin dividi-la arbitrariamente entre o Uzbequistão, o Quirguistão e o Tajiquistão, sem levar em conta as distribuições de grupos étnicos. Tal demarcação de fronteiras reacendeu antigas rivalidades.

"O Vale de Fergana sempre foi multiétnico. Mas só depois da divisão artificial de fronteiras pelos soviéticos entre 1920 e 1930 é que isso se tornou um problema. Seguindo a máxima 'dividir para dominar', os soviéticos recortaram o vale praticamente a facão, destruindo antigas estruturas de povoamento. Temos hoje no Fergana uma série de enclaves, o que constitui uma situação delicada para as pessoas que lá vivem."

Interesses russos

Foi exatamente a existências de tais enclaves que contribuiu decisivamente para os violentos confrontos entre uzbeques e quirguizes em 1990. Na época, morreram cerca de 300 pessoas no chamado Massacre de Osh, até as tropas soviéticas acalmarem a situação.

Também na atual crise, a presidente interina, Rosa Otunbayeva, pediu reiteradas vezes a ajuda de Moscou para controlar a situação. Mas Schmitz vê com ceticismo uma interferência russa pois, segundo ela, Moscou desempenha um papel ambivalente no conflito.

"Tem-se às vezes a impressão de que a Rússia não faz nada pelo problema em si, e que por trás há sempre uma questão: isso me ajuda a ganhar terreno na região? Não se sabe exatamente quão sério isso [a mediação russa] é e com quais interesses a Rússia de fato age."

Schmitz aponta uma outra ex-república soviética como potencial mediadora. "Vejo aí uma tarefa para o Casaquistão, que ocupa a presidência da OSCE [Organização para a Segurança e Cooperação na Europa] e já negociou, após o golpe em abril, um compromisso entre o governo interino e Bakiyev, o que permitiu a ele alojar-se no exterior."

Mas, para Schmitz, uma real solução para o conflito no Quirguistão ainda está longe de ser alcançada. No momento, trata-se de conter a violência.

Autores: Esther Broders/Alexandre Schossler
Revisão: Rodrigo Rimon

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