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Cultura

Concerto da DSO com OJESP marca início de uma bela amizade orquestral

Orquestras sinfônicas de Berlim e Jovem de São Paulo travam intercâmbio didático-musical a partir da turnê da DSO pela América do Sul. Empenho e entusiasmo são recíprocos.

Aplauso delirante no Parque do Ibirapuera de São Paulo para Aquarela do Brasil e Tico-tico no fubá, sob a regência de Vladimir Ashkenazy, durante a turnê da Deustsches Symphonie-Orchester Berlin (DSO) pela América do Sul. Porém, por mais espetacular que seja, a apresentação das duas peças de bis é apenas a ponta do iceberg de um processo de fôlego, unindo as trajetórias de duas orquestras com históricos totalmente diversos.

A DSO existe há 66 anos e figura entre os principais conjuntos sinfônicos do mundo. Nomes como Ferenc Fricsay, Riccardo Chailly, Lorin Maazel e Kent Nagano estiveram entre seus sucessivos regentes titulares. A orquestra, que reúne numerosas nacionalidades, já atravessou o mundo em turnês, e seus postos são disputados pelos melhores instrumentistas em atividade.

Como o próprio nome indica, a Orquestra Jovem do Estado de São Paulo (Ojesp) é formada por músicos ainda estudantes ou no início da carreira profissional. A direção artística do grupo está nas mãos de Cláudio Cruz. Fundada em 1979, com a finalidade de solidificar a formação musical dos músicos aspirantes, a orquestra é ligada à Escola de Música do Estado de São Paulo Tom Jobim (EMESP Tom Jobim).

Deutsches Symphonie-Orchester Berlin in Brasilien

Ritmo reforçado por jovens percussionistas brasileiros

Pré-ensaios pela internet

"Uma coisa utópica": assim classifica a violinista paulista Tamiris, da Ojesp, a oportunidade de se apresentar lado a lado com a Deutsches Symphonie-Orchester, sob a regência de Ashkenazy. "É o tipo de coisa que você vê na internet e pensa: 'Nossa, como eles são ótimos!'. E agora eles estão do seu lado, tocando juntos! E ainda por cima eles são super gente boa!", diz.

Com o apoio da Deutsche Welle e o patrocínio da Mercedes Benz do Brasil, a ideia de aproximar a DSO e a Ojesp partiu de uma iniciativa da DSO e do Mozarteum Brasileiro, instituição paulista fundada pela alemã Sabine Lovatelli e voltada à promoção da música erudita no país.

A partida foi dada meses antes. Encabeçados pela violista brasileira Thais Coelho, diversos integrantes da orquestra alemã começaram a assistir os músicos de São Paulo em oficinas através da internet, tendo em vista o encontro durante a turnê da DSO pela América do Sul.

Deutsches Symphonie-Orchester Berlin in Brasilien

Violinista Pauliina Quandt-Marttila orienta músicos da OJESP pelo Skype

Embora a notação musical disponha de uma precisão quase científica, a interpretação de uma peça sempre deixa grande margem à subjetividade. Questões como articulação (se as notas são executadas destacadamente ou num só sopro ou arcada), dinâmica (tocar forte ou fraco, de forma plana ou fazendo crescendos e diminuendos), agógica (a velocidade das passagens, com eventuais variações expressivas de andamento) precisam ser esclarecidas, antes que 70, 90, 120 músicos comecem a tocar juntos.

Essa necessidade é ainda maior quando se combinam num mesmo palco músicos com graus distintos de experiência – no caso desse projeto, os virtuosos de Berlim e os aspirantes da Orquestra Jovem. Assim, nas aulas através do Skype, cada músico da DSO se encarregou de orientar seu respectivo naipe da Ojesp: Thais Coelho para as violas, Kamila Glass para os violinos, Paolo Mendes para as trompas, entre diversos outros.

Sucesso garantido

Concluindo um programa eclético, que abarcou de Hector Berlioz a Richard Strauss, as orquestras tocaram juntas três peças de bis em 13 de maio de 2012, no palco ao ar livre do Parque do Ibirapuera. Além do tango EmBRUCHado, do compositor uruguaio Adrián Varela, o maestro Ashkenazy escolheu arranjos orquestrais de dois imbatíveis sucessos brasileiros: Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, e o Tico-tico no fubá, de Zequinha de Abreu.

Durante a hora e meia de apresentação, o público distribuído pelo gramado do Parque do Ibirapuera se manteve atento. Nem o frio e a umidade, nem os eventuais ruídos ambientes ou a ameaça de garoa desviavam o foco da perfeição musical da DSO. Não se registraram nem mesmo os clássicos "aplausos fora de hora" – sintoma de falta de familiaridade com o repertório, falta de concentração ou excesso de entusiasmo.

No entanto, nada permitia prever o grau de entusiasmo suscitado pelas peças de bis. Sobretudo a atuação da percussão, brilhantemente reforçada pelos jovens da Ojesp, arrancou aplausos prolongados. E, às vésperas de completar 75 anos de idade, Ashkenazy confirmou sua fama de ágil dançarino do pódio.

Open-Air-Konzert DSO-OJESP

Público concentrado, apesar da garoa paulistana

Dedicação e entusiasmo recíproco

A aproximação entre a DSO e a Ojesp não se encerrou com esse evento popular, pois os percussionistas da Ojesp repetiram sua atuação nas peças de bis dos dois concertos no Teatro Municipal de São Paulo.

Além disso, a continuação do efeito de sinergia depende em grande parte de Thais Coelho. A musicista paulistana está disposta a lutar para que, como ela, os mais talentosos entre seus jovens conterrâneos também possam ter a chance de uma formação musical sólida e de, no melhor dos casos, pertencer a uma orquestra de porte mundial.

Felizmente, a brasileira não está sozinha em seu idealismo. Coelho conta especialmente com a colega e amiga pessoal Kamila Glass, cujo empenho é quase inexplicável. Ainda de Berlim, a violinista polonesa dedicou horas e horas diante da tela do computador em aulas com os brasileiros, sem qualquer remuneração.

Logo ao chegar em São Paulo, no quarto de hotel ou em salas de ensaio, Glass deu continuidade ao seu trabalho com um grupo numeroso de estudantes, os quais ela conhece todos pelo nome. Para os jovens, a violinista tornou-se uma inspiração e uma figura materna.

Deutsches Symphonie-Orchester Berlin in Brasilien

Thais Coelho (esq.) e Kamila Glass empenham-se por jovens músicos brasileiros

Juntas, as colegas da DSO lutaram, por exemplo, para que alguns músicos da Ojesp pudessem vivenciar os ensaios com Ashkenazy e assistir ao concerto no Teatro Municipal. As lágrimas na despedida eram inevitáveis, mas já está certo que essa amizade musical continuará sendo cultivada pela internet.

Pelo lado institucional, o Mozarteum Brasileiro e a EMESP também promoveram nos últimos dias da estada da DSO na metrópole brasileira duas master-classes nas dependências da escola de música. Com quatro horas de duração prevista, as aulas com os músicos de cordas, madeiras e metais de Berlim se estenderam, em salas lotadas, por até sete horas e meia ininterruptas.

Autoria: Augusto Valente
Revisão: Luisa Frey

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