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Alemanha

Como refugiados sírios protegeram uma mulher nos ataques de Colônia

Uma estudante americana e um refugiado da Síria descrevem a situação angustiante em que se conheceram durante o réveillon de Colônia: depois de ser atacada por vários homens, ela foi ajudada por ele e seus amigos.

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Caos e violência no réveillon alemão

Vinda de Seattle, Caitlin Duncan, de 27 anos, vive em Tübingen, no sul da Alemanha, e resolveu passar o réveillon na cidade renana de Colônia. Ao ser acidentalmente separada do namorado na estação ferroviária central, de início a jovem não viu motivo para apreensão.

"Assim que passamos pela porta principal, havia uma grande multidão, e nós fomos imediatamente separados um do outro", relata Duncan à DW. "Você pensa: OK, vão me empurrar um pouco, mas a gente se encontra daqui a uns minutos. Então, tudo bem, sem problemas."

A estudante americana de neurociência, na Alemanha há mais de um ano, conta que foi a Colônia com o namorado alemão para festejar. Mas logo ela se viu sozinha numa situação aterradora: alguém lhe arrancou o chapéu da cabeça, enquanto outros começaram a tocá-la de forma imprópria.

Polícia impotente

Caitlin conseguiu afastar os homens que a cercavam e buscou ajuda. "Eu estava um tanto abalada, então tentei simplesmente ficar longe da entrada, onde parecia estar mais lotado."

Mas a polícia do lado de fora da estação não foi de grande ajuda. Suplantados pela grande massa humana na praça central e tentando manter a situação sob controle, os agentes acabaram empurrando Caitlin de volta à multidão.

Lá ela se viu cercada por outro grupo de rapazes, que começaram a apalpar seu corpo, lhe puxando o cabelo e tentando empurrá-la para o chão. "A essa altura, eu já estava bem estressada e super assustada", conta.

Köln Pegida Demonstration Polizei

Ataques de Colônia desencadearam série de protestos na Alemanha

Sem que tivesse a menor ideia, Caitlin fora envolvida num evento que viraria notícia mundo afora, lançando uma luz crítica sobre a política de asilo para refugiados da chanceler federal alemã, Angela Merkel. Centenas de mulheres relataram ter sido agredidas na área da estação de Colônia naquela noite, a maioria por homens aparentando origem árabe ou norte-africana.

Desde então, certos círculos do país têm expressado preocupação crescente sobre a real possibilidade de integrar os refugiados do Oriente Médio. O governo Merkel tem até mesmo intensificado esforços para deportar muitos deles de volta ao país de origem.

Ao trazer à tona muitas histórias terríveis sobre aquela noite, a cobertura da imprensa tem também relegado a segundo plano alguns episódios mais positivos. A experiência de Caitlin Duncan é um exemplo.

Entre a necessidade de ajuda e o medo

Depois de conseguir se libertar da multidão, ela foi novamente falar com a polícia – a qual, mais uma vez, foi incapaz de ajudá-la. Desesperada para encontrar o namorado, de posse da carteira e telefone celular dela, ela permaneceu à beira da multidão, assustada e frustrada.

Foi quando um jovem oriental se aproximou, perguntando, em alemão, se podia ajudá-la de alguma forma. Como ela não entende alemão, nem ele a língua dela, o rapaz chamou um de seus amigos, Hesham Ahmad Mohammad, que fala inglês.

Seis meses atrás, juntamente com quatro amigos, Hesham, ex-professor sírio de 32 anos, enfrentara uma árdua viagem da Síria até a Alemanha. A jornada levou o grupo até a Turquia, depois à Grécia de barco, e então através da Macedônia, Sérvia, Hungria e Áustria, até, finalmente, chegarem à cidade bávara de Passau.

Köln Pegida rechte Demonstranten

Sírio solidário está seguro que refugiados bem intencionados não têm o que temer

Os cinco homens, que hoje vivem em cidades diferentes no oeste da Alemanha e não se viam desde a chegada ao país, decidiram se encontrar em Colônia para festejar juntos a entrada do ano.

Contudo o que viram ao chegar à estação central os deixou chocados. Hesham, conta que a multidão estava extremamente agressiva, e que ele até testemunhou uma tentativa de assalto. "Percebemosque o lugar era perigoso para nós, porque vimos muitas pessoas bebendo e perdendo a cabeça."

Ao se aproximar com seus amigos da estudante americana, Hesham viu que ela chorava e estava claramente "com medo de todos os homens". Depois de um tempo, ele conseguiu convencê-la a aceitar ajuda. "Ela me disse: 'Eu me perdi do meu namorado e estou sozinha. Sou americana. Estou aqui sozinha'. E eu disse a ela: 'Você tem que parar de chorar. Nós podemos ajudar.'"

A estudante então partiu novamente em busca do namorado, dessa vez acompanhada por Hesham. Ele conta que outros dez homens tentaram assediá-la no caminho, mas ele a protegeu. Mais tarde os amigos dele também acorreram, formando um círculo em volta dela.

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Hesham Ahmad Mohammad (c.) posa entre Caitlin Duncan e o namorado, em Colônia

"Algo bom numa noite ruim"

O sírio finalmente conseguiu avistar o alemão, que carregava uma bolsa branca muito característica. Ele se aproximou e disse: "Temos algo para você: é a sua namorada." O encontro dos dois foi cheio de alegria, diz o sírio: ele e seus amigos choraram.

Caitlin Duncan agradece ao grupo pela solidariedade. "Eles disseram: 'Estamos tão felizes por ter ajudado você', e, claro, fiquei extremamente grata a eles." Ela continua mantendo contato com o grupo sírio.

Hesham ficou chocado na manhã seguinte. ao saber das agressões sexuais em massa. No entanto ele não teme efeitos negativos do triste evento, pois sabe que não fez nada de errado. "Fizemos algo bom naquela noite ruim."

Gente como ele é geralmente muito grata por ter a chance de viver na Alemanha, assegura. Ele gostaria que todos os alemães entendessem que a maioria dos refugiados não percorre todo o caminho até a Europa só para desobedecer suas leis.

Por outro lado, o sírio reconhece que às vezes o ajuste cultural pode ser difícil para os recém-chegados. Por isso ele espera poder instruí-los sobre o modo de viver do país. "Eu acho que a vida na Alemanha é boa, mas temos que respeitar essa vida."

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