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Alemanha

Como os alemães lançaram raízes no Brasil

Por que o Império brasileiro atraiu alemães? Por que eles aceitaram trocar a Alemanha pelo Brasil? O que enfrentaram em sua nova pátria? Uma entrevista com o professor Lauro Müller.

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Primeiras casas de imigrantes no Vale do Rio dos Sinos no século 19

A maior parte dos primeiros imigrantes alemães no Brasil era de camponeses. Mas também vieram muitos artesãos que contribuíram para o início da industrialização no Sul do país. Tanto uns quanto outros procuravam no Brasil condições para progredir que não encontravam mais na Alemanha, explica o historiador Telmo Lauro Müller, autor de mais de 20 livros sobre a colonização alemã no Brasil, que está completando 180 anos em 2004.

Em sua recente viagem à Alemanha, para divulgar as comemorações dos 180 anos da imigração alemã no Brasil, o professor e diretor do Museu Histórico de São Leopoldo (RS) conversou com DW-WORLD.DE.

DW-WORLD.DE: Por que o Império brasileiro escolheu justamente imigrantes alemães para colonizar o Sul do país e, assim, garantir as fronteiras?

Prof. Telmo Müller: Portugueses e seus descendentes já estavam no país e, além do mais, o Brasil declarara sua independência. Imigrantes espanhóis não vinham ao caso porque os espanhóis eram os inimigos no sul, contra os quais se tinha de defender as fronteiras. Os franceses antes atacaram o Rio de Janeiro, tentando fundar ali a França Antártica. Os ingleses também haviam tentado se estabelecer no Brasil, e os holandeses mantiveram o Nordeste ocupado por 24 anos.

Por que não os alemães? A imperatriz Leopoldina era filha do imperador da Áustria, mas era alemã, da dinastia dos Habsburgo. Leopoldina sabia que sua antepassada, a imperatriz Maria Tereza, ordenara a colonização ao longo do Rio Danúbio para conter o avanço dos turcos em direção ao Centro da Europa.

A situação no Sul do Brasil era parecida. Achava-se que a colonização desses territórios contribuiria para firmar a estabilidade geopolítica. A Prússia, da qual resultaria depois a Alemanha, possuía um exército, e dom Pedro I admirava o exército prussiano. O Brasil precisava de soldados, pois quem iria defender o Brasil, depois da independência? Dom Pedro estava interessado em mercenários alemães, mas, possivelmente para não expor sua intenção, decidiu chamar colonos para povoarem o Sul.

O que o governo brasileiro fez para atrair colonos alemães no século 19?

Houve vários incentivos. O governo brasileiro procurou atrair gente pagando a viagem, prometeu terras, sementes, gado, suprir o necessário no início, material de construção, ferramentas, prometeu também o gozo de todos os direitos civis, isenção de impostos por cinco anos e liberdade de crença.

No Brasil diz-se que, quando a esmola é muita, o santo desconfia. Os alemães só foram desconfiar de tantas promessas quando era tarde demais. No caso de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, as parcelas dos primeiros imigrantes ficavam a 30 ou 40 quilômetros do local onde eles eram deixados no litoral. E não havia estradas, nem ruas, nem escolas, nem nada, o que deve ter causado muito trabalho e lágrimas, no início.

E, no que diz respeito à liberdade religiosa, o governo deveria ter previsto que viriam muitos protestantes entre os colonos. Acontece que, pela Constituição do Império, de 1824, o catolicismo era a religião oficial. Ou seja, a liberdade de confissão prometida aos colonos era inconstitucional. Por isso, os cultos de outras religiões só podiam se realizar em recinto privado, em casas que, por fora, não tivessem caráter de igreja.

E que motivo tinham os alemães para deixar seu país e ir desbravar regiões inóspitas no Brasil. Não terá sido apenas o espírito de aventura?

Certamente os mais jovens tinham esse espírito. No fundo, ninguém pode dizer exatamente o que motivou essas pessoas. Muitas certamente foram movidas pelo desejo, muito humano, de progredir, de levar uma vida melhor, o que não era possível em seu país naquela época. Nas famílias alemãs, apenas o filho mais velho herdava. Mas era comum terem oito, dez ou até mais filhos.

A propaganda do governo brasileiro despertou muita esperança nos camponeses alemães. Possuir terras era um sonho para muitos. E que terras! Sessenta ou 70 hectares eram uma quantidade impressionante.

Depois é preciso ver as razões históricas. As guerras napoleônicas haviam levado miséria e caos à Alemanha na época da emigração para o Brasil. As lavouras eram destruídas, casas incendiadas, morte, os homens foram dizimados, as mulheres violentadas pelos soldados. A Renânia, a região do Rio Reno, de onde emigraram muitos, sempre havia sido palco de conflitos e guerras. A agricultura era a principal atividade nas primeiras colônias alemãs no Rio Grande do Sul e outros estados do Brasil.

Mas foram somente camponeses que se mudaram para o Brasil?

Museu Histórico Visconde de São Leopoldo Professor Telmo

Professor Lauro Müller, no Museu Histórico Visconde de São Leopoldo, o qual dirige

Além de agricultores, foram também artesãos. A emigração começou em 1824, isto é, 70 anos após a invenção da máquina a vapor na Inglaterra, e seus efeitos aos poucos se faziam notar no continente europeu: a mão-de-obra tornou-se supérflua. A perspectiva de não ter trabalho deve ter pesado entre as razões de emigração.

Posteriormente, pudemos reconhecer que esses artífices que ficaram sem possibilidades na Alemanha foram de grande importância para o início da industrialização no Sul do Brasil. Eles trabalhavam com couro, ferro, madeira e os mais diversos materiais. Muitos sobrenomes alemães que encontramos no Brasil são designação de ofícios: Schmidt é Schmied, o ferreiro; Weber é o tecelão; Zimmermann é o carpinteiro; Müller, o moleiro.

O trabalho desses artesãos era muito apreciado. Aurélio Porto, que escreveu O Trabalho Alemão no Rio Grande do Sul, diz que a palavra serigote, que significa uma sela rústica, vem do sehr gut (muito bom) do alemão, pois o trabalho alemão acabou sendo apreciado pelos gaúchos de São Francisco, a parte de cima da serra. Com seu trabalho, os artesãos constituíram a base, o ponto de partida para a industrialização no Rio Grande do Sul. Dai não é de se admirar que muitas indústrias tenham se concentrado no Vale dos Sinos.

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