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Mundo

Com reforço policial, ato pró-palestinos em Berlim termina pacífico

Protesto marca "Dia de Al-Quds", proclamado por aiatolá do Irã há 35 anos. Com um policial para cada dois manifestantes, não houve episódios violentos nem slogans antissemitas como em marchas anteriores.

Entre bandeiras israelenses e palestinas, e apesar do clima exaltado, em parte agressivo, transcorreu sem violência a marcha contra a ofensiva israelense em Gaza realizada em Berlim nesta sexta-feira (25/07). Segundo estimativas da polícia, confrontaram-se na avenida Kurfürstendamm, no centro da cidade, cerca de 1.200 participantes e 600 opositores da manifestação – separados por mil agentes de segurança.

Dois manifestantes foram presos por pequenos delitos. Atendendo às regras impostas pela polícia berlinense e reiteradas por alto-falante pelos organizadores do protesto, foram evitadas, no geral, palavras de ordem explicitamente antissemitas – como ocorrido em manifestações recentes.

Ainda assim, houve tentativas dos manifestantes pró-palestinos de provocar os ativistas adversários. Ouviram-se slogans como "Israel assassino de crianças" – ou, segundo o periódico Tagesspiegel, até mesmo "Israel para a câmara de gás". Cartazes traziam dizeres como "Chega de genocídio" e "Liberdade para Gaza"; enquanto do lado contrário exortava-se: "Vida longa a Israel".

Eventos similares em outras cidades da Alemanha também se realizaram pacificamente. As passeatas contra a política de Israel desta sexta-feira foram organizadas no contexto do assim chamado "Dia Internacional de Al-Quds" muçulmano.

"Dia de Al Quds"

"Al-Quds" é o nome árabe da cidade de Jerusalém. No entanto, a comemoração anual de um "Dia de Al-Quds", marcando o fim do mês de jejum Ramadã, é um produto de exportação iraniano. Ele foi introduzido em 1979 pelo líder religioso aiatolá Khomeini. Sua meta era recordar a ocupação do leste de Jerusalém por Israel, na Guerra dos Seis Dias de 1967, conclamando a comunidade islâmica internacional à "libertação" e mobilizando-a contra o Estado judaico.

Anerkennung der DPR in Iran

Aiatolá Khomeini (esq.) proclamou "Dia de Al Qud"

Até hoje, a data é feriado nacional no Irã e marcada por manifestações de massa, em diversas partes do mundo. Na Alemanha, até 2000 eram sistematicamente registrados tumultos e agressões durante as passeatas do "Al Quds", sobretudo na capital. Porém, nos últimos anos o número de participantes vinha decaindo, e o dia ganhou, antes, caráter de manifestação pacífica.

Neste ano, contudo, a data era aguardada com expectativa renovada. Diante da escalada do conflito armado entre israelenses e palestinos na Faixa de Gaza, a manifestação anual se conecta inevitavelmente à recente série de marchas pró e anti-Israel em toda a Alemanha, que denotam um avanço das manifestações de ódio a judeus.

Especialmente alarmantes têm sido os sinais registrados nos recentes protestos contra a ofensiva militar israelense. Num contexto confuso, que reunia tanto ativistas árabes quanto pacifistas e membros da extrema direita alemã, ouviam-se velhos slogans de propaganda antissemita. Houve até mesmo agressões contra passantes judeus e paralelamente ocorreram ataques contra sinagogas.

Apelo contra ódio e discriminação

Segundo a emissora RBB, de Berlim-Brandemburgo, a associação que organizou o evento desta sexta-feira, denominada Al-Quds AG, é acusada de ligações com o movimento xiita libanês Hisbolá e está sob a observação do Departamento alemão de Defesa da Constituição. Na véspera do "Dia de Al-Quds" ocorreram três outras passeatas pró-palestinos em Berlim, e para o sábado estão programadas pelo menos mais duas.

Antecipando as manifestações, numerosas personalidades da política, economia, esporte, cultura e mídia alemãs condenaram o antissemitismo em declarações ao jornal Bild. O presidente Joachim Gauck conclamou "a todos" para "elevarem sua voz, se houver um novo antissemitismo pelas ruas". A chanceler federal Angela Merkel falou de um "ataque à liberdade e à tolerância, que não será aceito".

A ministra da Defesa Ursula von der Leyen instou a que se mostre mais coragem civil contra o ódio aos judeus. "Devemos escutar os que veem caminhos para a reconciliação e para uma convivência sem terror nem medo", declarou.

Segundo o diretor executivo da montadora Volkswagen, Martin Winterkorn, "não pode haver lugar para a discriminação e o ódio na Alemanha", e todos devem lutar "por uma sociedade livre, aberta e democrática".

Al-Kuds Berlin Pro-Israel Demonstration Palästinenser 25.07.2014

Clima de tensão, porém sem tumultos na passeata do Kurfürstendamm

Organizadores negam antissemitismo

Segundo fontes da polícia de Berlim, haviam se registrado para as passeatas do "Dia de Al-Quds" 1.500 pessoas (contra 800 no ano anterior), assim como 400 opositores aos protestos anti-Israel. Em resposta, as autoridades anunciaram um "sensível aumento" da presença policial, incluindo tradutores e agentes de segurança estatal.

A intenção era garantir que as normas para realização de manifestações fossem rigorosamente respeitadas. Já na segunda-feira, a polícia berlinense proibiu a queima de bandeiras ou de bonecos. Também foi interditado o uso de palavras de ordem aplaudindo que quaisquer pessoas sejam assassinadas, feridas ou sequestradas.

Em entrevista à Deutsche Welle, Jürgen Grassmann, da Al-Quds AG, garantiu que sua associação é absolutamente pacífica: seu grupo de trabalho, composto informalmente, apenas organiza as passeatas anuais e mantém um portal de internet, disse.

Se ocorrem distúrbios, eles devem ser atribuídos a adeptos de grupos fundamentalistas islâmicos, assegurou Grassmann. Ele – que enfatizou repetidamente não ser antissemita – afirma não gostar que os islamistas participem das manifestações, porém, argumentou, "não se pode impedi-los".

AV/dw/afp/kna/dpa