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Eleição na Alemanha

Ciranda ideológica e delírio pelo poder

Os resultados das eleições deixam no ar a pergunta: o que significa hoje no país direita, esquerda e centro? Cogita-se formar coalizões antes impensáveis e os social-democratas insistem: governo só com Schröder à frente.

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Quem governa à sombra de quem?

Se a confusão pós-eleições estivesse acontecendo em algum país do chamado Terceiro Mundo, o comentário de praxe seria sem dúvida: trata-se de uma "república das bananas". A apuração do pleito na Alemanha deixou analistas políticos desorientados e comentaristas estrangeiros boquiabertos. Afinal, como se pode pensar, agora, num governo formado por correntes políticas que, pelo menos à primeira vista, se diferem tão fundamentalmente?

Merkel: negociações com quase todos

A candidata da CDU (União Democrata Cristã), Angela Merkel, se diz aberta a negociar "com todas as facções, com exceção do Partido de Esquerda". Ou seja, os tradiconalmente conservadores democrata-cristãos se dizem aptos a formar um governo com os arquirrivais social-democratas e até mesmo com os verdes, que, no cenário político alemão, estão a anos luz de distância das propostas defendidas pelo partido de Merkel, Stoiber & cia.

Paul Kirchhof

Paul Kirchhof

Vide questões relacionadas à energia atômica, mercado de trabalho, previdência e até política externa. Talvez para amenizar os contratempos, Paul Kirchhof, indicado para a pasta das Finanças num governo Merkel, anunciou nesta segunda-feira (19/09) que não pretende assumir o cargo.

Outra possibilidade inverossímil de coalizão une verdes, liberais e social-democratas. Um cenário que também beira o absurdo, pois o FDP de Guido Westerwelle se auto-afirmou durante a campanha eleitoral por seus ataques ferrenhos ao atual governo social-democrata-verde. Se agora formasse uma aliança com os mesmos, é possível que garantisse derrotas homéricas nos pleitos dos próximos anos.

Quanto fisiologismo cada um agüenta?

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Schröder (SPD), Westerwelle (FDP) e Fischer (Verdes)

Ou seja, a questão que se coloca é: a quanto fisiologismo político os partidos alemães estão dispostos? Quem vai ceder e até que ponto? Enquanto o SPD insiste que só fecha uma "grande coalizão" com a rival CDU se o governo for encabeçado por Schröder, os democrata-cristãos afirmam que uma aliança com os social-democratas só será selada se tiver Merkel à frente. Diante do beco aparentemente sem saída, é possível que haja até mesmo o anúncio de novas eleições. E tudo voltaria à estaca zero.

Novas eleições que forcem o eleitor a escolher um ou outro? Isso num momento em que não há nem mesmo um consenso interno entre democrata-cristãos. Edmund Stoiber, presidente da União Social Cristã (CSU), partido ligado à CDU, passou a defender, por exemplo, uma coalizão com liberais e verdes. Outros democrata-cristãos, porém, reviram os olhos para esta que no país vem sendo chamada de "coalizão Jamaica", numa alusão às cores dos três partidos – as mesmas da bandeira do país caribenho.

"Não posso falar uma coisa e fazer outra"

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Joschka Fischer após as eleições

O verde Joschka Fischer garante que deixa o posto de ministro do Exterior sob um governo Merkel. "Não posso falar para as pessoas que continuamos rejeitando uma política da frieza social e do retrocesso ecológico e, ao mesmo tempo, fazer algo completamente diferente."

Vários social-democratas demonstram a esperança de que a geléia geral acabe numa junção do partido de Schröder com verdes (como antes) e liberais. A parlamentar Andrea Nahles, por exemplo, afirmou que vê nesta combinação a melhor saída. Mas como, se os liberais se negam a selar tal coligação?

Sem contar que pensar numa cooperação entre verdes e os pais do neoliberalismo deve provocar dores de estômago nos correligionários de um e de outro lado. Mesmo porque, como analisa o diário Der Tagesspiegel, não é de se esperar que o carro liberal que anda à direita dê quaisquer sinais de uma guinada para a esquerda.

Futuro sem oposição

Será que tudo vai acabar em chucrute? Improvável, numa Alemanha que regulamenta tudo em excesso e na qual para qualquer eventualidade existe uma instância jurídica a ser acionada. Se a economia mais forte da UE vier a ser governada pelos rivais CDU e SPD, não importa quem ocupe o posto de chanceler federal, vai faltar ao país uma oposição que se preze e que controle o governo – algo não apenas saudável, mas praticamente indispensável.

Bildgalerie Nach den Wahlen Gysi und Lafontaine

Gregor Gysi (esq.) e Oskar Lafontaine

Os gritos da oposição, no caso, viriam principalmente do Partido de Esquerda, que embora se auto-intitule e reclame para si a posição esquerdista, mais parece um nicho criado para cultuar os líderes Gregor Gysi e Oskar Lafontaine. "No universo paralelo socialista, eles querem soltar cada vez mais faíscas. Nunca um partido foi tão desnecessário no Parlamento quanto este", alfineta o semanário Der Spiegel.

Schröder fora de si

Bildgalerie Nach den Wahlen Schröder

Schröder esfuziante com os resultados

Um capítulo do dia das eleições registrado pela mídia do país com perplexidade foi o comportamento de Schröder frente às câmeras na noite do domingo (18/09). "Ele parecia em êxtase", observa o Berliner Zeitung. O diário ironiza que o premiê deu a impressão de estar tão fora de si que seus assessores teriam estado em condições "de pegar o chefe de governo pela mão, entregando-o a senhores de jaleco branco".

E a avaliação do jornal vai mais longe, ressaltando a sensação dos jornalistas e espectadores de que o premiê parecia não estar consciente do que dizia. "Ele desapareceu atrás de uma máscara e, na noite da segunda-feira, quando não encontrou mais esta máscara, ficou completamente louco. Quando a achou de novo, aí podíamos reconhecê-la como uma máscara."

Fran-Josef Strauß

Franz Josef Strauss

O jornal foi até mesmo buscar na história política alemã outros deslizes desencadeados pelo delírio do poder, comparando o Schröder pós-eleições à figura do político bonachão de direita Franz Josef Strauss, que no passado da "República de Bonn" era conhecido por ter aparecido embriagado em público. Resta ver até onde a embriaguez de Schröder (e do país no momento) vai chegar.

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