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Cultura

Cineasta judeu quebra tabus com comédia sobre Hitler

Tanto a sensibilidade alemã quanto a judaica terão que passar por um teste quando o novo filme de Dani Levy chegar aos cinemas em janeiro. Durante 90 minutos, a comédia transforma Hitler em ridículo alvo de escárnio.

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Diretor suíço Dany Levi

O título Meu Führer: de verdade a mais verdadeira verdade sobre Adolf Hitler já dá uma ideia do tom desta comédia, na qual Hitler, depressivo com a idéia de perder a guerra em 1944, contrata um judeu de um campo de concentração para viver com ele e orientá-lo em seus discursos públicos. Nos trechos apresentados antecipadamente, Hitler é retratado ensinando seu cão pastor alemão a saudá-lo com o "Heil Hitler" ou deitado na banheira com um navio de guerra de brinquedo.

O diretor do filme é Dani Levy, nascido na Suíça, mas radicado em Berlim desde 1980. De origem judaica, Levy admitiu que nunca poderia fazer uma comédia sobre o Holocausto, mas não vê problema algum em parodiar os nazistas. Para testar os efeitos de seu novo filme, Levy apresentou o roteiro primeiramente à sua mãe, sobrevivente do Holocausto, para certificar-se de que suas piadas não eram infames demais.

Tema delicado

Durante décadas, o cinema alemão se esquivou de levar a figura de Hitler às telas. A película A Queda ( Der Untergang), de dois anos atrás, na qual o diretor Oliver Hirschbiegel encenou a obscuridade dos últimos dez dias de vida do ditador nazista, certamente não foi diversão das mais leves.

Pois, por mais que os alemães gostem de ridicularizar seus atuais políticos em programas de televisão ou em cabarés, eles nunca aprenderam a rir de Hitler, nem que fosse com um sorriso falso: ele era simplesmente horrível demais.

Mas abominá-lo de tal forma nem sempre é saudável, diz Levy, já que a repulsa acaba colocando-o em uma espécie de "pedestal de monstruosidade" que, na sua opinião, é preciso destruir. O diretor insiste em que tem o direito de empregar um "humor judeu subversivo" para diminuir o impacto do ditador nazista.

O Hitler parodiado no filme está depressivo demais para fazer um de seus discursos histéricos e decide então contratar o professor judeu de teatro Adolf Gruenbaum, interpretado por Ulrich Mühe, para lhe dar um curso intensivo de cinco dias de como falar com eficiência.

Hitler é interpretado por Helge Schneider, um músico e comediante muito popular na Alemanha. Aos 51 anos, ele não tem absolutamente nada a ver com Hitler, mas nada que um cabelo tingido, um bigode falso e uma máscara de borracha não resolvam. Segundo o maquiador Gregor Eckstein, o mais difícil foi convencê-lo a abrir mão de suas longas madeixas loiras.

Hitler: impotente e inseguro

Durante a terapia do professor Gruenbaum, Hitler veste um agasalho esportivo amarelo e revela ser inseguro, impotente e fazer xixi na cama – bem no estilo das velhas piadas com que os Aliados zombavam dele.

Segundo Levy, uma de suas fontes de inspiração foi a teoria da psicóloga radicada na suíça Alice Miller, publicada em 1980, que dizia que algo de errado deve ter acontecido com Hitler durante sua infância. Além disso, Levy se inspirou num livro de Paul Devrient, um alemão que de fato orientou Hitler em seus discursos públicos.

Embora o filme só estréie na Alemanha em 11 de janeiro e os críticos ainda tenham que avaliar se a missão cultural que Levy impôs a si mesmo foi bem-sucedida, a mídia alemã já está debatendo se um filme como este representa um desenvolvimento positivo.

Enquanto Levy argumenta que seu título faz piada com o tom austero da maioria dos documentários alemães sobre Hitler, certos críticos questionam que imagem os jovens de amanhã terão de Hitler se só se lembrarem da versão cômica.

Sucesso anterior

O filme é uma produção de baixo orçamento financiada por diversas emissoras de televisão alemãs após o enorme sucesso obtido por Alles auf Zucker (algo como: Aposte tudo em Zucker), lançado por Levy em 2004. A comédia sobre as brigas de dois irmãos judeus na Alemanha dos anos 90 escandalizou muitos religiosos conservadores. Desta vez, o fato de o personagem judeu não ser o alvo de risadas já é um paliativo.

No entanto, Levy e a equipe de produção admitem que ficaram apreensivos ao filmar por dois meses nas ruas de Berlim com figurantes trajando uniformes nazistas, gritando "Heil Hitler" e acenando bandeirolas com a suástica estampada. O que sua mãe achou do filme permanece um mistério. "Assim que a primeira versão do roteiro ficou pronta, falei com minha mãe, já que ela mesma viveu como judia em Berlim durante o nazismo", disse Levy. "Queria saber se ela tinha um problema moral com o filme, mas ela só disse 'Não venha reclamar para mim se os críticos te estilhaçarem'."

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