Cineasta fala sobre filme centrado em mulheres de extrema direita na Alemanha | Cultura europeia, dos clássicos da arte a novas tendências | DW | 21.01.2012
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Cultura

Cineasta fala sobre filme centrado em mulheres de extrema direita na Alemanha

David Wnendt escolheu para seu filme de estreia um tema atual na Alemanha: a violência de direita. Em entrevista, ele fala sobre as razões que o levaram a rodar "Guerreira", seu longa sobre jovens mulheres extremistas.

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Mulheres em manifestação de extremistas de direita na Alemanha

A "guerreira" em questão chama-se Marisa, tem 20 e poucos anos e é atuante na cena do extremismo de direita na Alemanha. Ela defende suas posições de maneira tão violenta quanto os homens de sua turma, até que um dia atropela dois requerentes de asilo no país. O fato acaba mudando sua vida. Guerreira, o filme dirigido por David Wnendt, começou a ser rodado em 2010, num momento em que o extremismo de direita na Alemanha estava presente, embora não fosse ainda um assunto tratado com tanta frequência pela mídia como é hoje. Em entrevista à Deutsche Welle, Wnendt fala sobre suas pesquisas e sobre a produção do filme, que acaba de estrear nos cinemas do país.

Deutsche Welle: Guerreira não é um filme dogmático, no qual tudo é explicado e no qual não se fica sabendo por que as personagens se tornaram o que são. Sendo assim, o espectador pode refletir junto. Qual foi a reação dos produtores e dos patrocinadores do filme? Houve uma compreensão frente às suas ideias ou foi difícil encontrar um distribuidor alemão para a estreia do filme nos cinemas do país?

Deutschland Film Regisseur David F. Wnendt erhält Filmpreis in Berlin

David Wnendt, ao receber prêmio em Berlim

David Wnendt: Como se trata de uma produção para a TV e ainda por cima de um filme de estreia do diretor, tivemos também outras possibilidades. Não tivemos muitos recursos e isso garantiu certa liberdade. Chegamos a um consenso junto ao redator da TV de que faríamos um filme que não fosse pedagógico em primeira linha. Mesmo assim, não foi tão fácil encontrar um distribuidor. Isso não tem a ver com a forma como o filme foi feito, mas com o fato de que o assunto não atrai as pessoas para o cinema. É um tema difícil, do qual muita gente nem quer ouvir falar. Além disso, trata-se de um filme simples, sem atores conhecidos. Tudo isso dificulta a decisão de um distribuidor.

Por que você escolheu o radicalismo de direita entre as mulheres como tema?

Achei esse aspecto especialmente interessante, porque não havia, até então, nenhum filme cujo foco fosse as mulheres. Minhas pesquisas mostraram também que há cada vez mais mulheres nesta cena e que elas se tornam cada vez mais ativas em todos os sentidos, inclusive no uso da violência. Achei isso interessante, porque essas mulheres vivem com determinadas contradições. Na verdade, na ideologia de direita, são dadas às mulheres muito poucas possibilidades de desenvolvimento. A elas é delegado o lugar à beira do fogão ou a condição de mães, mas não esse papel rebelde, que muitas mulheres exercem hoje, de fato, dentro da cena de direita.

Você entrevistou muitas mulheres jovens, ligadas à cena neonazista. Você filmou essas mulheres também no dia a dia. O que foi mais surpreendente nisso?

Pesquisei muito e fiz entrevistas muito intensas, em parte longuíssimas, com seis interlocutoras. Essas jovens eram muito diferentes, mas havia também semelhanças. A geração que viveu a guerra, de seus avós e bisavós, ainda desempenhava para elas um papel importante, isso ficou com frequência visível nas conversas. Uma jovem me contou que sempre houve conflito e brigas entre seus pais e que eles sempre trabalharam muito. Apenas com o bisavô é que ela tinha uma relação afetuosa.

Só com ele é que ela podia ser sempre sincera, contar tudo sobre sua vida. E ele foi sempre muito aberto em relação à ela. E aí ele, que era uma pessoa muito importante para a garota, dizia: "Preste atenção, eu fui prisioneiro de guerra, vivenciei o Terceiro Reich e não acredito em tudo o que contam sobre o Holocausto. Na verdade, nada foi tão ruim assim, aqueles tempos eram, na verdade, muito melhores". A jovem disse que acreditava então muito mais em seu bisavô do que nos professores na escola.

O fato de que a história se passa na Alemanha Oriental não é tão visível no filme. Por quê?

Szenenbilder zum Film Kriegerin von David Wnendt

Cena do filme 'Guerreira', do diretor David Wnendt

Talvez porque eu tenha tentado evitar que algum lugar fosse reconhecido. Eu não queria que o assunto tivesse ligação com alguma cidade especificamente. Mas parti do princípio de que essa paisagem, que se vê no filme, é típica do Leste alemão. Por isso não achei necessário mostrar explicitamente em algum lugar do filme "Leste da Alemanha, 2010".

Os temas do radicalismo e do terrorismo de direita tornaram-se novamente atuais na Alemanha e presentes na mídia. Indiretamente você "lucrou" com isso? Há talvez agora uma abertura maior frente a seu filme?

Não se pode prever se o filme vai se beneficiar disso. É também possível que as pessoas já estejam fartas do assunto e não queriam mais ver um filme a respeito. Mas a agência que cuida da divulgação do meu filme me relatou que está encontrando maior abertura para o tema e que até redações [de órgãos de imprensa], que antes não queriam tocar no assunto, estão manifestanto interesse em falar do filme. Algumas portas se abriram, porque o tema se tornou novamente atual na mídia.

Entrevista: Jörg Taszmann (sv)
Revisão: Francis França

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