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Alemanha

Ciências humanas no banco dos réus

As verbas do Estado destinadas à educação encolhem. Sobre os cursos de ciências humanas nas universidades do país paira a ameaça: eles podem ter que se transformar de templos do intelecto em fábricas do saber.

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Filosofar em alemão: perda de tempo?

Os defensores da reforma a que são submetidas as instituições de ensino superior na Alemanha anunciam a chegada de um admirável mundo novo. Ao copiar o modelo anglo-saxão e introduzir os novos títulos bachelor (bacharelado, para graduação) e master (mestrado, para pós-graduação) no país, o Estado não esconde seus propósitos: reduzir o tempo gasto pelos estudantes nos bancos unversitários e, com isso, as verbas dispendidas com o ensino superior. Até então, as graduações em ciências humanas do país só podiam ser concluídas com o título de Magister, o equivalente ao mestrado, só obtido perante a defesa de uma tese ( Magisterarbeit).

As primeiras vítimas desse afã desesperado em frear a saída de verbas dos caixas destinados à educação no país são, sem dúvida alguma, os cursos de graduação em ciências humanas. O leque destes no país é, diga-se de passagem, enorme. São inúmeras as variações em letras anglo-saxônicas, românicas ou latino-americanas, ciências cênicas, sinologia, grego antigo, teologia, etc, etc, etc. E isso em centenas de instituições espalhadas pelo país. Os adversários de tais disciplinas propagam aos quatro cantos: "a Alemanha possui um excesso de estudantes de humanidades".

Úteis ou não?

Universitätsbibliothek in Konstanz

Estudante na biblioteca da Universidade de Konstanz

Desses cursos cobra-se um "saber útil", requer-se o pagamento de volta à sociedade dos anos investidos em cada estudante, ou seja, encaixa-se a educação universitária na gaveta de uma rentabilidade ditada pelos parâmetros do lucro.

Professores e alunos dos cursos de ciências humanas batem o pé contra tais pressões e também contra os cortes concretos que chegam aos institutos das universidades, enquanto a discussão se espalha pelo país. O semanário Die Zeit, por exemplo, promove há semanas um debate sobre o tema, questionando a importância que as humanidades ( Geisteswissenschaften, literalmente as ciências do espírito) têm para a sociedade.

"Resultados concretos" de "cursos rentáveis"

Menschliche Stammzellen

Investimento apenas em ciências naturais e exatas?

Comparados às ciências naturais, os cursos de graduação nessas áreas vêm sendo forçados a apresentar "resultados concretos", a provar sua "utilidade", a produzir um "saber aplicado", enfim, a serem "rentáveis". Como fazem os colegas dos institutos do outro lado do campus, voltados para o concretismo das técnicas de construção naval ou para as fórmulas da bioquímica.

Ou como o séquito de adeptos dos jargões rasos criados por empresas de consultoria: aqueles que, de terno e gravata, têm sempre na ponta da língua "projetos orientados pelo desejo do cliente", benchmarking, new public management ou até a "necessidade de levar a cultura empresarial à universidade". Sim, estes também parecem ter sua "função social" plenamente cumprida perante os olhos do Estado.

Prestação de serviços para a indústria cultural

Segundo o diário berlinense taz, a "crise" que assola as ciências humanas pode ser percebida através de vários sintomas, entre estes "um desencorajamento em termos de ideal". Sem contar a transformação das humanidades em "prestadoras de serviço para a indústria cultural".

A verdadeira crise se dá, no entanto, é nos cofres estatais. Pois o número de estudantes de Letras, Ciências Sociais e Estudos Culturais cresce a cada ano, nunca tendo estado tão alto como no momento. O "setor" emprega nada menos que 20 mil funcionários em todo o país e "produz" cerca de 2500 teses de doutorado por ano.

Se em tempos de vacas gordas os políticos costumavam receber "humanistas" com todas as pompas, bastou o encolhimento dos caixas para que estes sejam as primeiras vítimas de cortes dentro do sistema unviersitário alemão.

Em Hamburgo, por exemplo, considera-se "óbvio" que, em tempos de dificuldades financeiras, os primeiros institutos a serem reduzidos ou fechados devam ser os de Filosofia, Arqueologia, História da Arte ou Letras Germânicas. Caso semelhante acontece na Universidade Livre de Berlim.

Falta capacidade de autoafirmação

Studenten mit Aristoteles Denkmal in Freiburg

Estudantes aos pés de Aristóteles, na Universidade de Freiburg

Um dos problemas das humanities no país, no entanto, está na incapacidade de se autodefinir com firmeza perante a sociedade. O semanário Die Zeit observa que falta às ciências sociais e da cultura a afirmação de que "elas se assemelham a qualquer centro de tecnologia". Pois na discussão entre a "utilidade" ou não de estudos voltados para a (auto)reflexão, ignora-se que ali são produzidos os códigos do pensar e agir contemporâneos, através dos quais o mundo, enfim, "funciona".

O que seria do Estado-Nação e da democracia sem a legitimação que lhes dá as ciências sociais? Ou das discussões sobre classes sociais, sem que essas tivessem sido anteriormente definidas? Haveria a noção de povo sem a reflexão proporcionada pelos conceitos das ciências humanas? O que saberia a Política e a Economia, não tivessem as ciências sociais definido, por exemplo, a categoria de consumo? – pergunta o Die Zeit.

Ou como conclui sabiamente no mesmo jornal Achatz von Müller, professor de História da Universidade da Basiléia: "Questionar a utilidade das ciências humanas faz tanto sentido quanto questionar a utilidade do homem".

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