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Cultura

Catalão leva épico "2666" aos palcos e capta essência da obra de Bolaño

Diretor Àlex Rigola transforma as mais de mil páginas do romance do escritor chileno em quatro horas de espetáculo, evidenciando características cinematográficas da obra.

2666, do chileno Roberto Bolaño, não é simplesmente um romance, mas um desafio. O livro póstumo baseado numa série de assassinatos numa cidade mexicana, que transformou o escritor num dos maiores nomes da literatura latino-americana da virada do século, é composto de cinco partes e diversos cenários, estilos e pontos de vista, em mais de mil páginas.

Um desafio que não intimidou o diretor catalão Àlex Rigola, que não só levou o multifacetado romance aos palcos como também conseguiu recriar a essência de Bolaño e desafiar o público com mais de quatro horas de espetáculo.

"Buscava uma história épica para criar uma aventura teatral diferente, onde o espectador tivesse que colocar seu cérebro em diferentes espaços do mundo, em diferentes épocas e também experimentar diferentes formas do jogo cênico. Queria criar uma viagem para o espectador", explica Rigola em entrevista à DW Brasil.

Moldar, mas manter a essência

Nessa busca, Rigola pensou em escrever uma peça, mas percebeu que, depois de ler 2666, estava constantemente presenteando seus amigos com o romance. "A obra de Bolaño oferecia tudo o que eu estava procurando. Como leitor, encontrei o autor que é minha alma gêmea", explica.

Schaubühne Berlin Theaterstück 2666 von Roberto Bolaño

Jogos cênicos são usados para retratar uma sociedade presa numa armadilha

No entanto, como colocar no palco um romance dividido em cinco partes, com distintos estilos, formas e narradores, que se passa, em parte, em diversos locais da Europa no decorrer do século 20, mas tem sua ação centrada numa cidade mexicana, na fronteira com os Estados Unidos?

"Para adaptar não é preciso comprimir, mas sim moldar, como uma escultura. Os pedaços têm que ser tirados aos poucos, mas sempre respeitando sua essência. Esse espetáculo é como a construção de uma escultura sobre a humanidade. A ideia era tirar o menos importante e deixar a essência, mas em Bolaño isso é um desafio porque muitas vezes os subtemas são tão importantes quanto a temática principal", afirma o catalão.

Monumentalidade de uma morte anunciada

2666 foi o último romance de Bolaño, no qual ele trabalhou até sua morte em 2003, decorrente de um câncer no fígado. "Ela sabia que ia morrer e, em vez de passar esse tempo com as pessoas que amava, trabalhou nessa monumentalidade. Ele faz diversas perguntas ao longo do livro, que estão conectadas na mesma história. Ele se questiona sobre o sentido da vida, mas também fala muito da maldade. O romance se chama duas vezes 666 e nos coloca numa posição onde podemos enfrentar a maldade ou virar a cabeça para não a ver", diz Rigola.

A peça apresentada em Berlim é a versão alemã de uma montagem que o diretor fez em Barcelona em 2007. Ele manteve os mesmo espaços cênicos, mas avalia que o espetáculo ganhou uma nova alma na mão dos atores alemães.

Schaubühne Berlin Theaterstück 2666 von Roberto Bolaño

Surrealismo de David Lynch e diálogos "tarantinescos" marcam a montagem de "2666"

"Um ator não pode se separar de quem ele é. Se você está procurando criar um trabalho orgânico, que dialogue com o mundo real, também vai partir do que são os próprios atores, e isso modifica os personagens."

Cinco olhares sobre o mesmo mundo

Mas o grande feito da montagem de Rigola foi justamente conseguir captar a essência das cinco partes do livro, evidenciando algumas características imagéticas e até cinematográficas do romance. "Era muito importante manter o amor pela literatura. Queríamos buscar uma narrativa para cada parte do livro, assim como fez Bolaño."

A epopeia de 2666 começa com um grupo de críticos literários europeus (um italiano, um francês, uma inglesa e um espanhol) que estuda o trabalho do misterioso e enigmático escritor alemão Benno von Arcimboldi. A forma de conferência escolhida pelo diretor é perfeita para a quantidade de informações que é passada pelos intelectuais e flui graciosamente e com leveza na pele dos atores.

Em busca de informações sobre Arcimboldi, eles acabam na cidade mexicana de Santa Teresa, onde conhecem Oscar Amalfitano, professor da universidade local e personagem central da segunda, e poética, parte do espetáculo. Uma balada perdida entre o mundo da classe média intelectual e os assassinatos que assolam a pobre cidade mexicana.

Schaubühne Berlin Theaterstück 2666 von Roberto Bolaño

A quarta parte do espetáculo é uma instalação que dialoga com uma impactante realidade

"O segundo livro me lembra os filmes de David Lynch, onde há uma mistura de elementos reais e estranhos, onde nunca sabemos se o que estamos vendo está ou não dentro da realidade. Buscamos esse espaço realista dentro de um cenário de filme americano", conta o diretor.

Na terceira parte, o narrador é um repórter americano que vai até Santa Teresa cobrir uma luta de boxe e acaba fascinado com os assassinatos. A metáfora criada por Rigola é uma caixa, como um clube noturno, onde esses personagens interagem, evidenciando que os diálogos criados por Bolaño poderiam estar num filme de Quentin Tarantino.

"Queria criar a sensação de uma sociedade presa, onde as pessoas querem cruzar [a fronteira com os Estados Unidos], mas não sabem como. É como uma armadilha", explica.

No quarto livro de 2666, o escritor narra de forma quase jornalística a morte das dezenas de mulheres assassinadas em Santa Teresa entre 1993 e 1997. O que parecia impossível de ser recriado no palco tornou-se uma assombrosa e impactante instalação nas mãos do diretor catalão.

Schaubühne Berlin Theaterstück 2666 von Roberto Bolaño

Assim como Bolaño, Archimboldi estava em constante movimento

Ele recriou o deserto nos arredores de Ciudad Juaréz, palco dos reais assassinatos no México. Com os diálogos de policiais que se deparam com mais um corpo, ele constrói uma aterrorizante sinfonia, um impactante retrato do valor da vida daquelas pessoas. "Até agora estávamos falando de ficção e isso é um choque de realidade", diz o diretor, que durante a encenação projeta a gigantesca lista das mulheres assassinadas na região.

Rigola se desprende de artifícios para concluir sua jornada. "Queria dar palavras aos personagens e, depois do deserto, queria criar uma ausência de espaço. O único artifício que uso é o constante movimento de Archimboldi. Suas decisões geram movimento, e para mim foi isso que Bolaño fez em sua vida. Ele estava em constante movimento físico, mas também um movimento intelectual", conclui o diretor.

A montagem de 2666 em Berlim é uma realização do Schaubühne, um dos mais conceituados e respeitados teatros da Alemanha, e faz parte do Festival da Nova Dramaturgia Internacional 2014 (F.I.N.D, da sigla em inglês). Este ano, o festival foca nas novas interfaces entre vida privada, arte e política, com destaque para os países de língua espanhola.

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