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Mundo

Caricaturas de Maomé acendem na França debate sobre liberdade de imprensa

Em meio à agitação provocada por um filme norte-americano anti-Islã, revista francesa de humor publica ilustrações satirizando o profeta. Especialistas veem ato como provocação, enquanto governo teme tumultos.

Há anos, a revista francesa Charlie Hebdo chama atenção com suas manchetes sarcásticas e, em sua última edição, desta quarta-feira (19/09), ousou ainda mais. Apesar do clima tenso no mundo árabe por conta de um filme anti-Islã dos EUA, a publicação dispôs uma caricatura de Maomé na capa.

O desenho mostra um muçulmano com um turbante – representando o profeta –, em uma cadeira de rodas e empurrado por um judeu ortodoxo. E o polêmico filme, Innocence of Muslims, ocupa diversas páginas da revista.

Sete anos após a publicação de caricaturas de Maomé em um jornal dinamarquês, o caso francês também coloca em discussão as liberdades de expressão e de imprensa, assim como a responsabilidade da mídia. Enquanto o governo tenta acalmar os ânimos e alerta para excessos dessas liberdades, a revista se defende com base na liberdade de imprensa.

"Entendemos a publicação dessas caricaturas como parte de nosso trabalho e como liberdade de expressão", disse à DW o editor-chefe, Gérard Biard. "Diante de um filme idiota que provoca tumultos em quase todo o mundo, com mortes e embaixadas incendiadas, se nós, jornalistas, não pudermos comentar o fato, então quem poderá?", argumenta.

Exaltar ânimos

Prof. Dr. Schirin Amir-Moazami

Para Amir-Moazami, revista pretende atiçar ainda mais a ira dos muçulmanos

Schirin Amir-Moazami, especialista em Islã da Universidade de Berlim, questiona a suposta proteção da liberdade de imprensa. Para a pesquisadora, com a publicação da caricatura, a revista francesa pretende "não apenas provocar os muçulmanos, mas talvez também mostrar que eles não são totalmente bem-vindos no país". Amir-Moazami tem a impressão de que a ideia seja atiçar ainda mais a ira dos muçulmanos.

Em novembro de 2011, houve protestos diante da redação da Charlie Hebdo, após a publicação semanal dedicar uma edição especial à lei islâmica, a Sharia. "A revista é conhecida por suas provocações", diz a especialista. Os exemplares daquele número foram vendidos rapidamente, assim como o desta semana. Segundo a revista, a tiragem semanal é de 75 mil exemplares, e a edição atual com as caricaturas de Maomé deverá ser reimpressa na mesma quantidade.

Asiem El Difraoui, da Fundação para Ciência e Política (SWP, na sigla em alemão), está convencido de que a principal intenção dos editores era aumentar a tiragem. "A Charlie Hebdo quer aparecer o máximo possível na mídia", considera. Por trás da publicação das caricaturas, Difraoui vê uma verdadeira estratégia de marketing.

Há evidências para a tese de Difraoui. A revista de humor, fundada em 1970, já esteve prestes a se extinguir mais de uma vez. Do final de 1981 a 1992, chegou a ser suspensa por falta de recursos. E, sem dúvida, a atuação da Charlie Hebdo é arriscada. Agora, a invasão do site da revista após a publicação das caricaturas parece ser o menor dos problemas.

Governo fecha 20 embaixadas

Em 2011, houve uma tentativa de incêndio contra a redação da revista, em Paris. Desde então, a polícia vigia o prédio, e seguranças acompanham o editor e cartunista Stéphane Charbonnier. Mas o impacto no exterior poderia ser ainda maior. Por medo de mais tumultos em países muçulmanos, o governo francês mandou fechar 20 embaixadas, consulados e escolas mundo afora nesta sexta-feira (21/09).

Frankreich Paris Charlie Hebdo Polizeischutz

Polícia vigia redação da Charlie Hebdo, em Paris, desde ameaça de incêndio em 2011

A repercussão na imprensa francesa após a publicação das caricaturas mostra-se dividida. O jornal Le Monde dá ao semanário o direito de criticar ou debochar de religiões, mas "a publicação no momento atual contribui para atiçar o fogo, de modo que a responsabilidade dos autores e editores é questionável".

O jornal católico La Croix também criticou a revista. "Não há uma maneira mais sutil e engraçada para, por meio de caricaturas, denunciar fundamentalistas religiosos, extremistas de todo tipo e protestos violentos?", indagou o veículo.

Caminho perigosa

Já o jornal parisiense Libération defende a publicação. "Lembrar os artistas sobre a sua responsabilidade, alertá-los para pensar bem antes da publicação e levar o contexto geopolítico em consideração, como se fossem porta-vozes do ministério do Exterior, é um primeiro passo em uma escada perigosa. Seu primeiro degrau é a autocensura; o último, a rendição." Enquanto o debate segue adiante na mídia, as caricaturas continuam sendo uma provocação para os cerca de 5 milhões de muçulmanos que vivem na França.

Por enquanto, a maioria se comporta de modo contido. Mas a ocasião poderia ser aproveitada por minorias radicais como os salafistas, aponta Difraoui. "As caricaturas e o filme atiçam extremos diferentes: a Charlie Hebdo está feliz com a atenção conseguida com as caricaturas. E os muçulmanos radicais estão contentes por atrair o foco da opinião pública mundial", considera.

Enquanto isso, a maioria dos muçulmanos moderados, que vivem há gerações na França, mantêm uma posição moderada. "Provavelmente muitos se sentem insultados e ofendidos. E é claro que isso não contribui para a integração da maior comunidade muçulmana do país", diz Difraoui.

Possíveis consequências

Frankreich Paris Charlie Hebdo OHNE KARIKATUR

Editor e cartunista Stéphane Charbonnier ganhou atenção da mídia francesa

Além disso, Difraou teme que a polêmica em torno das caricaturas possa ser aproveitada na política. A oposição de direita tenta se beneficiar da ocasião ao se posicionar contra a intolerância muçulmana. "As caricaturas são perigosamente manipuladas por certos políticos", afirma.

Tal posicionamento poderia levar à inquietação nos subúrbios parisienses, os chamados banlieues. Além de abrigarem muitos muçulmanos, esses bairros são considerados focos de problemas sociais: alto índice de desemprego entre os jovens, infraestrutura precária e criminalidade. Em 2005, os banlieues foram incendiados após tumultos.

Amir-Moazami admite que nem todos os jovens muçulmanos residentes nesses subúrbios são devotos, mas teme que eles "possam se sentir provocados por tais publicações".

Autor: Ralf Bosen (lpf)
Revisão: Roselaine Wandscheer

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