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Cultura

Cannes dá as costas ao cinema alemão

Mídia acentua o antagonismo entre a intenção de Cannes de ser um fórum do cinema de arte e as grandes produções hollywoodianas nas telas. Especialistas denunciam que festival continua ignorando filmes alemães.

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Festival se curva a Hollywood e ignora cinematografia vizinha

A Alemanha está este ano, mais uma vez, fora da mostra competitiva de Cannes, o mais importante festival de cinema do mundo, que começa nesta quarta-feira (17/05). Um dos poucos filmes presentes, incluído no ciclo Un certain regard, é o curta de 15 minutos True, de Tom Tykwer ( Lola, Corra, Lola), um entre os 20 episódios dirigidos por cineastas de todo o mundo dentro do projeto Paris, j'e taime.

"Trata-se um filme alemão como os franceses gostam: rodado em Paris", alfineta Michael Schmid-Ospach, diretor da Fundação de Fomento ao Cinema do Estado da Renânia do Norte-Vestfália, em entrevista à DW-WORLD.

Guerra fria

True, Film von Tom Tykwer

Cena de 'True', dirigido pelo alemão Tom Tykwer, um dos episódios de 'Paris, je t'aime'

A abstinência do festival francês em relação à cinematografia alemã – abstinência esta mantida por nada menos que 20 anos e quebrada apenas em 2004 e 2005 – é sentida tanto pelos próprios cineastas quanto pela crítica.

"A não presença de filmes alemães mostra que Berlim e Cannes ainda vivem tempos de guerra fria", afirma o diretor Volker Schlöndorff em entrevista ao diário Tagesspiegel. Schlöndorff reclama, embora pertença exatamente à "velha guarda" do cinema alemão, ou seja, à geração Fassbinder-Wenders-Herzog, que ainda continua servindo de referência para a produção do país no exterior.

Até há pouco, observa o crítico francês Gérard Lefort, no semanário Die Zeit, público e crítica franceses ainda aliavam o cinema alemão, na melhor das hipóteses, "às lembranças melancólicas dos grandes personagens cinematográficos dos anos 70 e 80". Uma associação que incomoda a nova geração de cineastas no país, muitos deles já beirando os 50 e com bons anos de estrada.

Imagem sombria

O problema, em princípio, não diz respeito somente a Cannes. Com raras exceções na última década – que vão de Lola, Corra, Lola a Educators, passando por Adeus, Lênin – o cinema alemão não costuma encontrar braços abertos fora do país.

Nos cineclubes britânicos, por exemplo, freqüentados por um público selecionado, conta o jornalista Peter Bradshaw ao Die Zeit, "são exibidos constantemente filmes franceses, argentinos, turcos ou iranianos. Já os alemães, por alguma razão, são considerados sombrios. Fazendo com que as distribuidoras não tenham expectativa de lucros".

Celebrações apenas em casa

Deutscher Filmpreis 2006 - Henckel von Donnersmarck Das Leben der Anderen

Prêmio do Cinema Alemão: diretor Florian Henckel von Donnersmarck, com as estatuetas de melhor direção e roteiro por 'A vida dos outros' (Das Leben der Anderen)

Em casa, por outro lado, as produções nacionais vão sendo celebradas em grande estilo, entre outros com a concessão de prêmios locais.

Os filmes mais populares acabam sendo aqueles que fornecem uma releitura da história alemã, como o recente A vida dos outros ( Das Leben der Anderen), que tem como protagonista um funcionário do serviço secreto da ex-Alemanha Oriental, de regime comunista, e que acaba de receber várias estatuetas no Prêmio do Cinema Alemão.

Filmes europeus e não mais nacionais?

A União Européia, por sua vez, festeja em Cannes a presença de um bom número de co-produções do continente. Motivo de brinde para a indústria cinematográfica "transnacional", que leva este ano à croisette da Côte d'Azur nada menos que 17 filmes financiados por um programa especial de fomento da UE.

"European films go global", reza a cartilha do "dia europeu" dentro da agenda do festival. "As cinematografias nacionais vão continuar existindo e isso é muito importante para a identidade de cada nação, mas a Europa está crescendo junto. Há cada vez mais co-produções européias interessantes e aí está, a longo prazo, exatamente a força cultural e econômica do continente", garante Schmid-Ospach.

"Plataforma para blockbusters"

Da Vinci Code

Tom Hanks e Audrey Tautou em 'Código Da Vinci'

Unir forças é certamente um passo necessário para competir no mercado com Hollywood, que, segundo o diário Die Welt, "usa Cannes como uma plataforma para blockbusters", vide a exibição da superprodução O Código Da Vinci.

Mesmo assim, vale lembrar que mais de 60% dos filmes em competição vêm da Europa, entre eles longas dos consagrados Pedro Almodóvar, Ken Loach, Nanni Moretti e Aki Kaurismäki. Sendo que nas mostras paralelas está presente um bom número de cineastas relativamente jovens do Leste Europeu.

Aliança infeliz

Porém, o fato de o diretor artístico de Cannes, Thierry Frémaux, se curvar perante Hollywood, continua sendo imperdoável aos olhos da mídia alemã. "A cobiça dos organizadores do festival, que buscam estrelas para desfilar sobre os tapetes vermelhos, sela uma aliança infeliz do festival com os desejos mercadológicos da Sony Pictures. E isso enquanto Cannes declara como metas: o destaque ao cinema de autor, a procura por novas vozes provenientes das mais diversas culturas, a qualidade apurada da direção e a prática do cinema como arte", lembra o diário berlinense taz.

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