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9 de novembro de 1989

Cédulas misteriosas contam pedaço da história das duas Alemanhas

Eliminadas, esquecidas, inexplicavelmente reaparecidas: notas de 200 e 500 marcos orientais são relíquias da antiga RDA. Banco KfW, onde elas estão preservadas, é joia arquitetônica de Berlim.

Deutschland Wirtschaft Banken KfW Lysann Goldbach

Lysann Goldbach dirige arquivo do KfW

Lysann Goldbach ri ao contar a história, mas foi com certa apreensão que ela atravessou o controle de segurança do Aeroporto de Frankfurt portando 1 milhão em cédulas. Mas não demorou até que começasse a despertar suspeita entre os funcionários.

A diretora do arquivo do banco estatal KfW tentava explicar, mas continuou sendo alvo de olhares céticos. O mal entendido só se dissipou com a chegada de uma funcionária mais idosa: "É sim, são marcos da antiga Alemanha Oriental", atestou.

Do arquivo dirigido por Goldbach, de 36 anos, também faz parte o espólio do extinto Banco Estatal da República Democrática Alemã (RDA). Ele tinha em seu tesouro notas de recém-impressas de 200 e 500 marcos alemães orientais, que nunca entraram em circulação: o regime socialista da RDA considerou fora de propósito liberar cédulas que valiam o salário de um mês.

De forma surpreendente, anos após a queda do Muro de Berlim essas notas apareceram em diferentes locais da Alemanha. A suspeita é que tivessem sido roubadas.

Cédulas misteriosas

Foi na cidade de Frankfurt an der Oder, na antiga Alemanha Oriental, que a polícia confiscou as cédulas em questão, as quais a promotoria pública entregou, então, ao KfW, o antigo Kreditanstalt für Wiederaufbau (Instituto de Crédito para a Reconstrução).

Goldbach está convencida de que elas só podem ter ido parar no mercado devido a um "assalto". Ainda assim, enquanto arquivista, as cédulas novinhas em folha são motivo de alegria para ela.

Banknoten und Münzen aus der DDR

Notas intactas e "moedas de brinquedo"

Em decorrência da união monetária de 1990-91, todo o dinheiro impresso da RDA foi depositado em duas minas de calcário na Saxônia-Anhalt, para lá se decompor. Após a fusão com o Staatsbank, o Banco Central da RDA, em 1994, o KfW se tornou proprietário do dinheiro, acreditando que se encontrava em segurança.

Até que começaram a surgir, aqui e ali, as cédulas que, a rigor, não deveriam existir. Ladrões haviam encontrado o acesso aos túneis. Numa laboriosa operação, em março de 2002 o KfW mandou que se retirassem todas as notas de depósito e as destruíssem definitivamente.

Pelo menos é o que se pensava. No entanto, continuam aparecendo notas de 200 e 500 marcos orientais, como em Frankfurt an der Oder. Os comerciantes teriam pago 15 euros por unidade.

Prédio com tradição

O Grupo KfW tem sua sede berlinense bem no centro da capital, na Charlottenstrase. Ela já foi a Wall Street da Alemanha: em 1914 contavam-se mais de 170 bancos nas suas imediações. O prédio mais imponente, projetado pelo arquiteto Alfred Messel, era o da Associação de Comércio de Berlim, dirigida pelo banqueiro Carl Fürstenberg.

Depois da quase destruição na Segunda Guerra Mundial e desapropriação pelo Exército soviético, em 1945, o Staatsbank da Alemanha Oriental se instalou ali. A instituição era encarregada da emissão de cédulas e diretamente subordinada ao governo comunista.

Até hoje estão guardadas em seu tesouro esboços de notas de dinheiro da RDA. Goldbach exibe os projetos gráficos que não foram aplicados depois que, com a reunificação de ambos os Estados, em 1990, o deutsch Mark da República Federal da Alemanha foi adotado como moeda única em todo o território nacional.

Riqueza arquitetônica e histórica

Na arca cheia de trocados do tempo da RDA, as moedas parecem dinheiro de brinquedo. "Veja só, estas fichinhas de alumínio foram vendidas para a indústria automobilística. Provavelmente as moedas da RDA viraram peças de carros", comenta Goldbach.

Deutschland Wirtschaft Banken KfW Jürgen Pallokowski

Arquivo do KfW documenta dinheiro em circulação na RDA

Atualmente o arquivo do banco KfW é acessado, em média, 250 vezes por ano. No jubileu dos 25 anos da queda do Muro, o número de consultas aumentou. A maior parte dos visitantes vem da Coreia.

"Como foi, na época, com a união monetária?", querem saber, e se espantam com o bom estado de conservação das cédulas. Ao fim, todos pedem para fazer um giro pelo prédio, meticulosamente restaurado e saneado pelo Grupo KfW.

Martina Köchling, diretora de seção do banco, recorda com satisfação que no contexto da fusão com o Staatsbank, o KfW assumiu responsabilidade tanto por suas funcionárias e funcionários quanto pelos edifícios histórica e arquitetonicamente significativos no coração de Berlim.

Assim, a história do tradicional prédio é perpetuada. Lysann Goldbach é especialmente orgulhosa da Sala de Ácer: o magnífico revestimento de madeira, quase inteiramente preservado, e a gigantesca lareira conferem presença imponente ao aposento, com seu pé direito de mais de seis metros.

DDR-Staatsbank

Sede do KfW no centro de Berlim

Adeus à RDA

É difícil imaginar que justamente essa sala de recepção destinada aos abastados clientes da antiga Associação de Comércio de Berlim tenha abrigado a central da Volkspolizei, a "Polícia Popular" da RDA. Seu assoalho foi coberto de PVC, o teto, rebaixado. Fotos dos anos 1980 mostram os agentes que lá circulavam.

A arquivista Lysann Goldbach estudou em Potsdam e é entusiasta da história da economia. Em 9 de novembro de 1989, quando caiu o Muro de Berlim, ela tinha 11 anos de idade.

"No dia depois da queda, nós éramos só cinco alunos na classe: todos os outros tinham ido ver o Oeste. Eu não pude, porque os meus pais queriam ir primeiro sozinhos, achavam que fosse mais seguro", conta, rindo.

Está claro que Goldbach gosta do que faz. Por fim, pega as notas de 200 e 500 marcos alemães orientais, recoloca-as no saco de papel e fecha o tesouro. Com a arquivista, os tesouros da antiga RDA estão em boas mãos.