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Cultura

Brasileira resgata compositor barroco português

A pianista e cravista Débora Halász realiza a primeira gravação integral da obra para teclado de Carlos Seixas. E contribui para retificar uma injustiça musical de quase três séculos.

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Débora Halász nasceu em São Paulo

Um compositor português do século 18, uma virtuose brasileira, uma gravadora fundada por um alemão e sediada em Hong Kong... Esta combinação tão inusitada daria uma interessante charada, quase um romance de mistério.

Carlos Seixas

José Antonio Carlos de Seixas (1704–1742)

Comecemos pelo compositor: José Antonio Carlos de Seixas, ou Carlos Seixas, como é mais conhecido, era natural de Coimbra. Ele viveu entre 1704 e 1742, e pouco antes de falecer conseguiu alcançar o mais cobiçado posto da música em Portugal, na época: mestre da capela real na corte de Dom João 5º. Seu antecessor no cargo fora ninguém menos do que o grande italiano Domenico Scarlatti.

Músico fértil mas negligenciado

No curto espaço de 38 anos, Seixas compôs uma vasta obra instrumental e vocal, incluindo mais de 800 peças para cravo, das quais a maior parte supostamente se perdeu no grande terremoto de Lisboa, em 1755.

As cerca de 80 sonatas que chegaram até nós trazem a marca de um grande compositor, capaz de competir com seus mais destacados contemporâneos. São peças brilhantes e, ao mesmo tempo, refinadas. E, inegavelmente, originais, pois a polifonia barroca e um virtuosismo de tipo scarlattiano são enriquecidos por uma efusividade bem ibérica.

Porém, apesar de sua alta qualidade, até hoje a música de Carlos Seixas não tem o reconhecimento que merece, sucumbindo diante da de seus colegas germânicos, italianos, franceses, ou mesmo tchecos.

Uma paulista interfere

Entra em cena uma instrumentista brasileira, para ajudar a corrigir tal injustiça histórica. Débora Halász, natural de São Paulo e radicada na Europa desde 1989, tem uma sólida carreira de pianista. Sua gravação, em oito CDs, de toda a obra de Heitor Villa-Lobos para piano, por exemplo, recebeu a aclamação entusiástica da crítica internacional.

Ela explica que já conhecia a música de Carlos Seixas desde o Brasil, onde muitos de seus colegas o incluíam em seu repertório. Chegando à Europa, "me surpreendi muito em ver que ele aqui é bastante desconhecido", comenta Halász.

Há cerca de cinco anos, ela voltou sua atenção para um outro instrumento de teclas, típico do barroco: o cravo. A origem desse novo interesse foi o duo formado com seu marido, o violonista bávaro Franz Halász. De pesquisa em pesquisa, ela chegou à cópia de um revolucionário instrumento de Hieronymus Hass, de 1734.

Desbravando novos mundos sonoros

Cembalo

O cravo é um dos principais instrumentos do Barroco. Na foto, modelo do século 17, de Andreas Ruckers

Oferecendo-lhe "uma amplitude sonora e oportunidades de mudança de registro impressionantes", o novo cravo foi "um descobrimento". E Débora Halász ousou iniciar uma carreira de cravista, paralelamente à de respeitada pianista solista e de câmara.

Com despretensão e leveza características, ela comenta: "É só você se interessar e se dedicar, e aconteceu meio que naturalmente". Seja como for, não é todos os dias que alguém se estabelece como virtuose nos dois instrumentos.

Para seu début fonográfico, a musicista de São Paulo escolheu precisamente Carlos Seixas. E propôs à emissora Bayerischer Rundfunk um CD com sonatas. Esta "abocanhou" imediatamente, porém para levar adiante o projeto, necessitava de um parceiro.

Conexão Baviera-Hong Kong

Hora de a Naxos entrar em ação. Fundada em 1987 pelo alemão Klaus Heymann, a gravadora tem como programa produzir discos de música erudita de alta qualidade, a preços acessíveis e empregando estratégias de marketing inovadoras. Um de seus segredos é favorecer os jovens talentos e estar sempre de olho nas lacunas do repertório fonográfico.

Assim, a gravadora sediada em Hong Kong não só aceitou a proposta da emissora bávara como a ampliou. Em vez de fazer apenas um álbum com peças de Seixas, Halász ficou encarregada da primeira gravação integral da música de cravo desse notável representante do barroco europeu.

"Achei fantástico, pois é um compositor que tem obras lindas, super interessantes, é uma pena ser tão desconhecido. É uma oportunidade de mostrá-las ao público", comenta a tecladista brasileira.

Sua opinião é sustentada por uma anedota histórica. Instado por Dom João 5º a ministrar aulas ao colega português mais jovem, Scarlatti comentou, depois de ouvir Seixas: "Ele é que pode me dar lições. É um dos maiores professores que tenho ouvido".

O primeiro CD da série de cinco entrou no mercado há algumas semanas. A previsão é que o registro da integral da obra de Carlos Seixas para cravo pela tecladista paulista estará completo até 2010.

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