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Cultura

Brasileira diretora de "Budrus" fala sobre premiação em Berlim

O documentário que recebeu o segundo Prêmio do Público da Berlinale mostra a resistência pacífica do vilarejo palestino de Budrus. Em entrevista, Julia Bacha fala sobre a repercussão e sobre os objetivos do filme.

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'Budrus' foi filmado ao longo de cinco anos

Budrus conta a história de uma comunidade, na fronteira entre a Cisjordânia e Israel, engajada em usar meios pacíficos para protestar: a vila resiste sem violência à construção de um "muro de segurança" na fronteira entre os dois territórios. Com a ajuda de ativistas israelenses, os moradores do local formam uma aliança incomum, que desafia outras comunidades a seguir seu exemplo.

Julia Bacha, brasileira de 29 anos radicada em Nova York, trabalhou durante cinco anos no documentário ganhador do segundo lugar no Prêmio do Público da Berlinale. O prêmio já ajudou o filme a conseguir espaço para ser lançado internacionalmente, após a estreia em Berlim. A próxima parada é o Human Rights Watch International Film Festival, programado para março, em Londres.

A cineasta conversou com a Deutsche Welle sobre a premiação.

Deutsche Welle: Qual é sua reação ao ver seu filme conquistar o segundo lugar na preferência do público da Berlinale?

Dokumentarfilm Budrus Julia Bacha

Júlia Bacha, brasileira de 29 anos, dirigiu o documentário

Julia Bacha: É maravilhoso. Ganhar esse prêmio é ainda mais especial na Alemanha, onde há tanta história, como a do muro que dividiu Berlim, assim como a do Holocausto. Estar aqui entre palestinos e israelenses com uma história de batalha coletiva para uma coexistência pacífica é uma grande honra para mim, é incrível saber que o público tenha gostado tanto do filme.

O seu filme é composto pelo trabalho de diferentes pessoas por trás das câmeras no vilarejo de Budrus. Quantos estiveram envolvidos e qual foi o seu papel?

Havia cerca de 12 diferentes fontes de material, ou seja, era esse o número de pessoas filmando. Ninguém esteve lá do primeiro até o último dia, mas sempre havia alguém presente. Fiz muitas entrevistas e também algumas das filmagens, seguindo o estilo do cinema-realidade. Você vê mais interação entre as pessoas porque eu estava filmando para fazer um documentário.

Os ativistas não estavam filmando com esse propósito, eles estavam tentando impedir violações dos direitos humanos, para ter uma documentação se precisassem usá-la em tribunal. Gravar também era um método usado como medida preventiva: quanto mais câmeras, maior a chance de se controlar pelo menos um pouco a violência.

Alguns documentaristas dizem que sabem que estão fazendo um bom trabalho quando são criticados como parciais por pessoas de lados opostos, num assunto controverso. Você acredita que seu filme conta uma história equilibrada sobre esse assunto tão carregado?

Há um povo que vive sob ocupação, o que cria uma relação assimétrica entre essas duas populações. Então não é o nosso objetivo dizer que a situação é equilibrada. Queremos ser honestos e tratar com muito respeito os interesses, os medos e o direito à segurança de todos. Nós não queremos nos distanciar de nenhum aspecto da situação.

Por isso é muito importante ouvir [além do principal ativista palestino e de sua filha] o porta-voz das Forças de Defesa de Israel e a policial de fronteira israelense que também está a serviço no local. Nós realmente queremos mostrar a perspectiva humana, a experiência dessas pessoas de estar lá, em vez de contar a história num nível político.

Então você não está tomando um partido ou outro, no filme, mas mostrando o potencial de uma resistência não-violenta na Cisjordânia?

Sim. Nós focamos nesta história específica sobre o que acontece no povoado [de Budrus] e mostramos que os civis têm um papel a desempenhar; e que independentemente de como se chegou a este grande problema [o conflito entre Israel e Palestina], pode-se contribuir para que evolua de forma positiva, respeitando os direitos de ambos os povos.

O documentário é um testemunho incomum sobre o processo de ambos os lados se unirem em nome de uma coexistência não-violenta. Mas não é difícil de imaginar que muitos palestinos e israelenses ficarão de lados opostos, ao assistir ao filme.

Eu acho que será fantástico ter essa conversa. Apenas a existência de um debate já é um grande avanço, porque esse tipo de conversa não tem acontecido, as manifestações pacíficas têm estado fora do radar. Há pouca cobertura jornalística sobre elas atualmente, e pouca discussão nas sociedades palestina e israelense sobre o assunto. Nós queremos que isso aconteça.

Acho que as críticas e ressalvas ao filme são justas e verdadeiras. Não posso querer dizer aos palestinos o que eles devem fazer, e também não é o meu papel dizer aos israelenses como eles irão resolver o conflito. Mas acho que essa história na qual nos concentramos mostra o que é possível quando israelenses e palestinos de todas as classes, gêneros e orientações políticas se unem para trabalhar por um futuro comum – um futuro comum justo.

Quais outras reações a seu filme você observou até agora?

Nós fizemos várias exibições prévias para o público israelense, e a reação tem sido muito boa, em muitos casos até surpreendente. Há um movimento no sentido de tentar controlar esse ativismo [não-violento] que está despontando de diferentes formas, portanto agora é o momento para esse filme.

Eu acho que haverá controvérsia, será difícil para algumas pessoas assistir ao filme, mas acho que elas se envolverão com ele, e é isso o que nós queremos. Além disso, o público em Israel tem um enorme respeito pelo Festival de Cinema de Berlim. Ele é considerado como o lugar de onde saem os melhores filmes. Há um respeito incrível por tudo o que é mostrado no festival. Portanto esse Prêmio do Público será um grande impulso para que alcancemos mais pessoas, especialmente em Israel.

Autora: Alexa Dvorson (np)
Revisão: Augusto Valente

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