″Brasil vai crescer respeitando o meio ambiente″, diz Dilma Rousseff | Notícias e análises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW | 07.12.2009
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Brasil

"Brasil vai crescer respeitando o meio ambiente", diz Dilma Rousseff

A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, explica à Deutsche Welle a posição do Brasil nas negociações internacionais sobre a mudança do clima e argumenta que é possível crescer e proteger o meio ambiente.

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Dilma explica por que o Brasil pode ser considerado um modelo de crescimento sustentável

DW-TV: Ministra Dilma Rousseff, a senhora é chefe da delegação brasileira na conferência da ONU sobre mudanças climáticas em Copenhague. Segundo diplomatas europeus, o Brasil está contestando – junto com alguns outros países – a formulação escrita das metas centrais do combate à mudança do clima. Por exemplo, a meta de não permitir um aquecimento superior a 2ºC. É essa realmente a posição brasileira?

Dilma Rousseff: O Brasil tem uma posição clara a esse respeito. A nossa posição, como país em desenvolvimento, é a de assumir voluntariamente uma meta própria. [Quanto à redução das emissões de CO2], nossa meta voluntária é de 36% a 39%. Não temos nenhum problema com qualquer outra proposta que implique o clima. Pelo contrário, o que queremos é que os países desenvolvidos vão à mesa das negociações e também se comprometam com números concretos.

Isso quer dizer que o Brasil ainda acredita que são sobretudo os países ricos que devem combater a mudança climática?

Nós e a ciência, o Brasil e a ciência... Por quê? Todos sabem que os gases de efeito-estufa são cumulativos. Isso significa que desde a Revolução Industrial vêm se acumulando gases de efeito-estufa. Para nós – e também para a comunidade internacional, penso eu –, os países desenvolvidos devem ter metas obrigatórias por terem contribuído mais para as emissões de CO2. Mesmo não estando entre os principais responsáveis, o Brasil tem que ter uma atitude muito clara, muito firme e de muita responsabilidade. Afinal, moramos no mesmo planeta. Foi por isso que o Brasil assumiu uma meta que considero de muita importância. [Reduzir as emissões de CO2] em 36% ou 39% é uma meta generosa. Também estamos nos propondo a reduzir em 80% o desmatamento na Amazônia...

Mas que tal ser mais ambicioso ainda, por exemplo, quanto ao desmatamento? Em vez de 80%, por que não 100%? No Brasil, existe o programa Fome Zero; por que não "desmatamento zero"?

Pelo mesmo motivo pelo qual vocês não se impuseram uma meta de 100% de redução das emissões. Porque é inviável. O que vocês estão propondo hoje? Uma redução de 20% a 30% em relação a 1990. E por que não propõem 40%? Porque, com 40%, a Alemanha não consegue manter o mesmo ritmo de crescimento.

Pelo que dá para entender, então, o Brasil está disposto a combater a mudança climática, mas não às custas do crescimento econômico...

Sabe qual é a porcentagem de energia renovável aqui na União Europeia? De 12%, 15% no máximo. A nossa matriz tem 46% de energia renovável. Para quem acredita na conservação do meio ambiente, o caso do Brasil mostra que é possível crescer e ao mesmo tempo ter uma matriz energética renovável, combater o desmatamento, adotar uma política extremamente proativa em favor do meio ambiente. Para crescer, não é preciso destruir as árvores; para produzir energia, não é necessário usar apenas carvão e óleo combustível. A nossa afirmação é outra: nós vamos crescer, sim, porque chegou a nossa vez. Mas vamos crescer respeitando o meio ambiente e mostrando que é possível ter um outro modelo de crescimento.

O Brasil cresceu muito ultimamente. Poderíamos dizer que se tornou um world player , um fator importante na política internacional, uma grande economia, com recursos como petróleo ou soja. Na sua visão, qual é hoje o papel do Brasil no mundo?

Justamente isso que acabei de dizer. Isso é algo muito importante, não é retórica. O Brasil demonstra que é possível, sim, crescer e respeitar o meio ambiente. Por que estou dizendo isso? Porque hoje somos o maior produtor de alimentos do mundo. Uma das nossas metas para Copenhague é o plantio direto. O que é o plantio direto? Em vez de se revolver a terra para plantar, planta-se em cima dos resíduos da cultura anterior. Está provado que essa é uma forma de captar CO2 e ao mesmo tempo ter maior produtividade. Somos um país que passou muito tempo vivendo com uma péssima distribuição de renda, de um nível comparável ao da África. Mas agora acho o que o Brasil pode apresentar ao mundo um novo modelo de desenvolvimento, uma nova concepção de sociedade, e sobretudo uma nova posição na política externa.

Agora uma pergunta um pouco mais pessoal... Em abril, a senhora teve um diagnóstico de câncer, fez uma operação e bastante tempo de quimioterapia. Nessa situação, muita gente teria dito: bem, vou trabalhar menos, vou cuidar de mim, talvez me retirar da política. Mas a senhora não, a senhora pretende se candidatar à presidência do Brasil. Qual é a motivação para isso, qual a força que a move?

Se você se desarmar diante da doença, ela vence. Mas se você não se desarmar, percebe que a vida não acabou, que a vida continua e pode até continuar melhor. Sabe por que até melhor? Porque você também aprende, a doença ensina que a vida não vale só pelo que você faz. As pequenas coisas, as árvores, as flores... Você está vivo, está vendo o sol, o frio de Berlim... É tudo isso que compõe a vida. E se você não for capaz de aproveitar também não conseguirá combater e superar a doença. De certa forma, você pode transformar em vantagem uma terrível desvantagem.

A senhora já passou coisas difíceis na sua vida. Teve um longo passado de militância contra a ditadura militar brasileira, foi presa por causa disso e também torturada. Há momentos desse passado que ajudam a enfrentar os problemas de hoje?

Essa é uma boa pergunta. Obviamente significa alguma coisa ter enfrentado, aos 20 anos, a ditadura militar brasileira, uma ditadura que não era muito diplomática, que prendeu, torturou, matou. Isso é um aprendizado. Há outras formas de aprender, melhores do que a minha, mas o que aprendi é que é preciso resistir. Rigorosamente, só há uma pessoa que pode derrotar você: é você mesmo, com seus medos e temores. Mas se você tiver calma, isso passa.

Entrevista: Christopher Springate

Revisão: Roselaine Wandscheer

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