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Cultura

Bienal de Berlim aposta no viés político e conclama ao protesto

A 7ª Bienal de Berlim deixa suas salas de exposição serem tomadas pelo movimento Occupy, cola palavras de ordem nas paredes e convida ao debate. Uma mostra que quer ser política e incitar à indignação.

O artista polonês Artur Zmijewski, curador da 7ª Bienal de Berlim, propõe uma série de questões na mostra recém-inaugurada na capital alemã: do que a arte é capaz no espaço político? Ela tem ali uma função? E pode mudar a realidade? Ela pode ser crítica, útil, política? Em busca de respostas a essas perguntas, Zmijewski convidou cerca de 30 artistas de vários países, todos autores de obras com um "viés político".

Até 1º de julho, eles darão provas disso durante a Bienal de Berlim, com obras que explicitam suas visões de mundo e em alguns casos fazem críticas ao estado das coisas. E eles fazem isso no centro da sociedade, ou seja, no espaço público, confrontando assim suas posições com observadores com os quais, de outra maneira, possivelmente não teriam qualquer interseção.

Berlin Biennale 1

'Key of return', na Bienal de Berlim

O artista polonês Lukasz Surowiec, por exemplo, mandou plantar em Berlim, no segundo semestre de 2011, bétulas vindas dos arredores do ex-campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. As árvores foram plantadas em parques, pátios de escolas e em lugares que têm uma ligação direta com o Holocausto.

A proposta de Surowiec é manter viva a lembrança dos crimes atrozes do nazismo, além de resgatar um projeto anterior: a obra de arte 7.000 Carvalhos, de Joseph Beuys, que também usa a paisagem natural, tendo sido apresentada ao público em 1982 na documenta 7. No decorrer de muitos anos e com o auxílio de muitos ajudantes, Beuys plantou carvalhos em diversos locais de Kassel, a cidade-sede da documenta: uma intervenção artística e ambiental no espaço urbano, que reage ao processo de urbanização descontrolada.

Arte eficaz

A obra de Beuys se tornou há muito parte integrante da cidade, tendo modificado a imagem dela, além de incitar discussões constantes entre os moradores. A incompreensão inicial com relação ao projeto foi se esvaindo a cada nova árvore plantada, fazendo concluir que a arte pode ser crítica, útil e também política. Além de poder provocar, gerar reflexão, mudar o pensamento e, desta forma, modificar imperceptivelmente a realidade.

Os efeitos da arte fizeram-se notar de diversas maneiras no decorrer dos séculos, embora uma postura explicitamente crítica só tenha passado a existir de fato depois da Revolução Francesa. Até então, a arte tendia à idealização, resgatando motivos, por exemplo, da Bíblia, da vida na corte e da burguesia abastada. Só depois é que os aspectos omitidos da vida e da realidade passaram a ser tratados pelos artistas. Foi quando eles começaram a apresentar imagens nunca antes vistas.

Ausstellung Occupy-Bewegung Berlin Biennale

Movimento Occupy: convidado da Bienal de Berlim

O espanhol Francisco de Goya (1746 - 1828), por exemplo, pintou e desenhou implacavelmente a pobreza, a miséria e a guerra, revelando as fragilidades de seu tempo. Já o francês Gustave Courbet (1819 - 1877) chocou a sociedade parisiense com pinturas de pessoas simples executando seus trabalhos. E Honoré Daumier (1808 - 1879) entrou diversas vezes em conflito com as autoridades por ter reproduzido sarcasticamente, em caricaturas, a vida burguesa e especialmente a Justiça de sua época.

Oposição através da arte

Um dos primeiros alemães a visualizar em suas pinturas uma crítica às relações de poder foi Adolf Menzel (1815 - 1915). Sua obra Aufbahrung der Märzgefallenen (Velório dos mortos em combate do mês de março) mostra os caixões dos revolucionários assassinados pelos militares durante uma batalha em Berlim. Com isso, o artista deu rosto, atenção e espaço à resistência.

Berlin Biennale 2

'Indignem-se' na entrada da Bienal

O século 20, com suas falhas, abismos, barbaridades e descaminhos, provocou novas posições artísticas de oposição: a arte se tornou antimilitarista e anticapitalista, ridicularizando o pequeno-burguês careta e a decadência e se opondo às atrocidades do fascismo. E as reações a essa arte foram desde a indignação em alto e bom som, passando por insultos públicos até a exclusão, denúncia e expulsão de artistas, ocorridas especialmente durante o período nazista.

Novas intervenções

Duas décadas depois do fim da Segunda Guerra Mundial, a arte adquiriu novas dimensões, passando a não se manifestar mais apenas em pinturas, esculturas, fotos e desenhos, mas também em formas temporárias, como intervenções no espaço público. E dando a qualquer um a liberdade de se tornar uma "escultura temporária", que interage com a sociedade ou se opõe a ela por meio de manifestações contra o esquecimento, a corrida armamentista, as violações dos direitos humanos, a guerra ou a destruição do meio ambiente.

No início do século 21, esta arte acompanhou por exemplo a cúpula do G8 na alemã Heiligendamm, onde foi criada uma aldeia temporária de casebres com a qual se falava dos problemas do mundo com um certo humor. A força de cada ação individual tem naturalmente seus limites, como se a avalanche de imagens da era da informação já tivesse há muito causado no observador uma certa saturação.

Berlin Biennale 4

Parlamento das organizações terroristas

A Bienal de Berlim quer agora provar que isso pode ser diferente. Segundo o curador, a mostra quer apresentar uma arte que "é, de fato eficaz, que influencia a realidade e abre um espaço no qual se pode fazer política". Por isso, as paredes da entrada para o salão de exposições da Bienal foram cobertas por trechos em vermelho do panfleto Indignem-se, de Stéphane Hessel. E a curadoria deixou o próprio salão de exposições a cargo do movimento Occupy – com sacos de dormir, sofás e cartazes contra nazistas e capitalistas.

A Bienal oferece pódios de discussão e conecta redes de ativistas. Ela lhes possibilita organizar a resistência em diversos países. E apresenta trabalhos que colocam o dedo em várias feridas: nos campos de refugiados, nos mortos pelas drogas, no comércio, no desemprego entre jovens, no extremismo, no Holocausto. Assim a capacidade de resistência do público é testada. Esse público internacional observa, conversa, pondera, toma um latte macchiatto e ri. Será que assim a realidade pode ser modificada? É esperar para ver.

Autora: Silke Bartlick (sv)
Revisão: Alexandre Schossler

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