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Cultura

Bertolt Brecht: "Logo abaixo de Goethe"

Meio século após a morte de Brecht, sua obra é pouco cultuada na Alemanha. Em muitos países do mundo, ao contrário, o dramaturgo é celebrado com todas as honras.

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Túmulo de Brecht em Berlim: morto no país e vivo no exterior

Quando jovem, Bertolt Brecht, distante de qualquer modéstia, já era convencido de que seria o segundo maior poeta e pensador do país: "Estou logo abaixo de Goethe", profetizava o então estudante à namorada da época. Esse delírio de grandeza juvenil mostrava o caminho que viria pela frente: seus dramas acabaram sendo encenados nos teatros e televisões do país e suas peças constam de qualquer livro didático sobre artes cênicas.

Mesmo assim, 50 anos depois de sua morte, Brecht se tornou um desconhecido em seu país de origem. Uma pesquisa recente, encomendada pela revista Bücher, interrogou mais de mil homens e mulheres a respeito do dramaturgo. Os resultados: nada menos que 42% dos entrevistados nunca tinham lido ou visto nada de Brecht.

E a maioria esmagadora (89%) nem ao menos vislumbrava que o dramaturgo havia fundado um teatro ainda hoje conhecido, quanto menos sabiam dizer que teatro era esse. "Brecht é simplesmente passé", foi a conclusão lapidar de Konrad Lischka, editor-chefe da Bücher.

"Grande, mas pior filho da cidade"

Bertold Brecht

Brecht, aos 20 anos, em Augsburg

E por que o grande mestre Brecht não desperta mais interesse nos discípulos, que não querem nem saber dele? Por causa de seu entusiasmo incondicional pelo comunismo, ele já era, em vida, idolatrado ou desprezado na Alemanha, de acordo com o ponto de vista ideológico de quem emitia o parecer. Durante a Guerra Fria, Brecht chegou até mesmo a ser boicotado como "comunista e ateísta" pleos círculos literários da então Alemanha Ocidental.

Brecht tinha, lembre-se, uma relação indiferente com sua terra natal, Augsburg: o melhor de lá, consta que declarou certa vez o dramaturgo, era o trem que saía em direção a Munique. Kurt-Georg Kiesinger chegou a chamar Brecht de "o grande, mas pior filho da cidade".

Distância do centro do poder comunista

No lado comunista, ele tampouco era abraçado com entusiasmo pelos camaradas: "Em Moscou, não havia nem compreensão nem interesse pelo seu teatro épico. Ele também jamais teria, com suas posições radicais, sobrevivido a um exílio soviético", conta o biógrafo Reinhold Jaretyky.

Pois Brecht manteve paralamente à sua lealdade ao "projeto comunismo", uma distância cética em relação ao poder do regime comunista – mesmo que esse aspecto seja hoje praticamente esquecido.

Fantasma para os jovens?

Admiralspalast in Berlin Die Dreigroschenoper

Encenação da 'Ópera dos Três Vinténs", no Admiralpalast, em Berlim

Entretanto não seria correto creditar a parca popularidade de Brecht somente às suas querelas políticas dúbias. Um outro aspecto elucidado pela pesquisa realizada recentemente mostra que a razão da rejeição a Brecht pode ser outra: 55% dos entrevistados leram uma peça de Brecht pela última vez ainda na escola.

Uma leitura obrigatória, que deixava os então escolares simplesmente enfastiados. Pois a maioria deles nunca mais quis ler nada do dramaturgo nos anos seguintes. E Brecht acabou se tornando uma fonte de dores de cabeça para os alunos. As razões? Leituras forçadas prematuramente, uma introdução incorreta em sua obra, que simplesmente azeda o prazer de ler seus textos para o resto da vida?

Caindo no domínio público

"Não se deve tirar conclusões tão drásticas de uma pesquisa como essa", diz o professor Jan Knopf, diretor do Centro de Estudos Bertolt Brecht da Universidade de Karlsruhe. Brecht, é, segundo ele, conhecido de outras formas que Goethe ou Thomas Mann.

E suas palavras se tornaram tão óbvias, que muitas vezes citamos Brecht mesmo sem saber. E encontramos fragmentos de obras, mesmo sem perceber. "Primeiro a barriga, depois a moral" ou "quem luta, pode perder, mas quem não luta, já perdeu" são algumas das citações de Brecht já tornados "anônimas" e que se transformaram quase em domínio público.

Clique e continue lendo: o significado de Brecht no Brasil.

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