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Cultura

Berlim revisitada pelas câmeras

Novos projetos cinematográficos focalizam a capital alemã entre pátio de obras e a reconquista do status de metrópole.

O remake do clássico do cinema mudo Berlim, Sinfonia de uma Metrópole está anunciado. O fotógrafo e cineasta Thomas Schadt pretende encerrar dentro de um mês os trabalhos de filmagem, para começar a compor a nova sinfonia. Trata-se, mais precisamente, de uma "reencenação" do filme de 1927, dirigido por Walter Ruttmann: nada de citações, nada de engrandecimento kitsch, nada de explorar a aura do original. Apenas uma câmera de 35 mm e seis objetivas na mão.

Zoom, nem pensar. Ao contrário de Wim Wenders, que pretende rodar um novo filme com os "extraordinários panoramas" de Berlim em formato IMAX, o bávaro de 44 anos — fotógrafo de formação — quer apreender a cidade em sua dimensão real, a fim de criar novas metáforas visuais e acústicas. Enquanto Walter Ruttmann destacou na Berlim da República de Weimar o ritmo e os emblemas visuais da modernidade, Schadt enfrentará o desafio de incorporar em sua sinfonia as dissonâncias de um espaço urbano híbrido, desprovido dos símbolos que definiram sua identidade durante todo um século.

Lacunas temporais e espaciais — O que separa a metrópole de Ruttmann da cidade de Schadt são décadas em que a identidade de Berlim foi definida ex negativo. A cidade devastada pelos bombardeios de 1945 é a imagem-chave do neo-realismo de Roberto Rossellini em Alemanha, Ano Zero (1947). A dinâmica sonora da urbe e a estilização visual de edifícios, pontes, ruas — destacadas na sinfonia de Ruttmann, 20 anos antes — são substituídas pelo vazio da paisagem urbana, pela lacuna.

As lacunas urbanas — tanto na arquitetura quanto em outros códigos de socialização — seriam preenchidas de forma distinta em Berlim Ocidental e Oriental. Em 1961, a construção do Muro tornaria material esta discrepância, abrindo uma outra lacuna, a ser preenchida mentalmente dos dois lados: nos mapas da antiga Alemanha Oriental, Berlim Ocidental era representada como uma mancha branca. Em Asas do Desejo ( Der Himmel über Berlin, 1987), Wim Wenders — em parceria com o câmera Henri Alekan e o roteirista Peter Handke — reservaria aos anjos a vista sobre Berlim, relegando os mortais a espaços artificiais, como o bunker, o circo, o trailer e o vazio ao longo do Muro.

Do anjo ao Angelus — Após a queda do Muro, o processo de reurbanização — com a implosão de importantes marcos da arquitetura socialista, a realização de projetos arquitetônicos megalomaníacos, a restauração de edifícios históricos e a "recauchutagem" das áreas residenciais de Berlim Oriental — vem tentando tapar os vãos da cidade. Potsdamer Platz: a movimentada praça do filme de Ruttmann, recordada pelo velho e o anjo de Wenders, num passeio pela paisagem desolada ao longo do Muro, torna-se palco do documentário de Hubertus Siegert, Berlim Babilônia (1996—2000). Aqui, os anjos de Wenders cedem lugar ao Angelus Novus de Walter Benjamin, o anjo exterminador da História: a visão de uma nova urbe, representada pelas maquetes dos arquitetos, se impõe violentamente no horizonte da cidade.

Berlim Babilônia mostra muito pouco de Berlim: entre a encenação do espaço utópico das construções e a monotonia da fala dos arquitetos e políticos, a cidade se mantém como um projeto incógnito. O mesmo pode-se dizer de Berlin is in Germany (2000), de Hannes Stöhr. O último prisioneiro do regime socialista, libertado no ano 2000, nem chega a fazer uma expedição de reconhecimento pela cidade reunificada. Ao se preparar para o exame de taxista, ele se limita a decorar os nomes das ruas rebatizadas: Avenida Karl Marx em vez de Avenida Stalin. Neste filme, Berlim se faz mais presente como mapa do que como cenário cinematográfico.

Com o remake de Berlim, Sinfonia de Uma Metrópole, Thomas Schadt — o documentarista mais produtivo da Alemanha — tem a chance de recriar a imagem Berlim para o cinema e preencher a lacuna de muitos filmes recentes. Para apreender a cidade através uma nova "textura sensorial", como quer, o cineasta vai ter que afinar muito bem sua edição com a trilha sonora de Iris ter Schiphorst e Helmut Oehring. A nova sinfonia de Berlim estréia em abril próximo, na Staatsoper, Unter den Linden.