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Cultura

Berlim já era! Mas quem se importa?

A imprensa internacional escreve que Berlim perdeu o seu charme. Os verdadeiros berlinenses estão pouco se importando com essa história.

Desde a queda do Muro, Berlim é aclamada como uma das cidades mais legais do planeta, com uma intensa e agitada vida noturna e clubes onde tudo pode acontecer. Uma cidade onde a única regra é a diversão acompanhada de cerveja boa e barata. A capital não só da Alemanha, mas também do sexo, das drogas e da música eletrônica. Mas tudo isso é passado, a julgar pelo que diz a imprensa internacional.

A notícia de que Berlim já era foi como uma faca no coração de alguns berlinenses, que nunca duvidaram viver na melhor cidade do mundo. E agora essa cidade maravilhosa e tão amada simplesmente deixou de ser in? Para os mais radicais, quem diz isso só pode estar ficando louco.

Tudo começou com uma resenha sobre o Berghain – também conhecido como o melhor clube do mundo – na revista Rolling Stone. Localizado num sombrio prédio industrial na antiga Berlim Oriental, o templo underground do techno já foi descrito como uma experiência "quase religiosa", mas, com o boom pós-Reunificação, rapidamente passou de uma dica de descolados locais para atração turística.

Club Berghain in Berlin

Tudo começou com uma resenha do icônico clube Berghain

Apesar de os seguranças na porta do clube continuarem tão rígidos quanto a arquitetura do prédio – mesmo depois de horas na fila, muitas pessoas são barradas – os chamados easyjet setters (baladeiros que vêm para Berlim só para o fim de semana) deram um novo significado à filosofia de "fazer parte" criada pelo clube e acabaram influenciando a imagem da própria cidade. Se o Berghain não é mais o que costumava ser, o mesmo vale para Berlim.

Depois do artigo da Rolling Stone, o New York Times e os jornais alemães Tagesspiegel e Süddeutsche Zeitung, além de diversas plataformas de mídias sociais, também entraram na história. E todos chegaram à mesma conclusão: Berlim está fora de moda. E agora?

O New York Times cita um artista de 25 anos de Nova York que compara o Berghain com o bairro nova-iorquino do Brooklyn, dizendo que ambos eram espaços criativos e alternativos que se transformaram em locais de classe média alta.

Mas como a meca dos descolados perdeu seu charme assim, do dia para a noite? Para a maioria dos berlinenses, há duas possibilidades: ou a culpa é deles mesmos, ou se trata de uma conspiração internacional.

Revolução contra evolução

Teoria número um: a da própria culpa. Quem olha torto para os alemães de outras regiões que se mudaram aos bandos para Berlim e levaram consigo muitos dos estereótipos alemães, "infectando" o espírito alternativo da cidade? E quem reclama dos turistas de todo o mundo, que deixam bilhões de euros na cidade e impulsionam assim a rápida modernização de Berlim? E quem reclama que as ruas dos bairros alternativos estão ficando chiques demais?

Berlin East Side Gallery

Jovens turistas invadem a cidade nos fins de semana

Resposta: os próprios berlinenses. Eles reclamaram tão alto que o mundo inteiro ouviu – e agora o mundo inteiro está repetindo o que ouviu. E isso não acontece pela primeira vez: quando os berlinenses espalharam pelo mundo que a cidade deles é a mais cool de todas, as pessoas também prestaram atenção e repetiram isso pelo mundo. O que se esperava desta vez? Que ninguém prestasse atenção?

Além disso, qual o problema nessa evolução? É verdade que os preços dos aluguéis estão subindo, que velhos bares estão sendo substituídos por caras boutiques, que muitos clubes estão fechando as portas e que restaurantes caros e chiques estão proliferando pela cidade. De um modo geral, o clima de anarquia dos anos pós-queda do Muro está um pouco mais brando.

Mas, e daí? Esse dinamismo também pode ser interessante. Cidades como Nova York, Paris e Londres já passaram por isso há muito tempo, só que os descolados berlinenses não gostam dessa comparação, já que querem ser alternativos e diferenciados.

Teoria número dois: a conspiração. Diversas pesquisas indicaram que Berlim vai ser sempre um bom lugar para se viver: a melhor relação custo-benefício para os turistas, a cidade mais verde da Europa, o design mais inovador, os clubes mais descolados e muita diversão por pouco dinheiro.

O mundo todo prestou atenção quando David Bowie disse que foi em Berlim que ele experimentou a liberdade como em nenhum outro lugar. Naquele momento ele se tornou o herói não só de quem vive em Berlim, mas também de quem ama a cidade e suas possibilidades. Berlim, a personificação da liberdade.

Christiane F. Wir Kinder Vom Bahnhof Zoo David Bowie

Bowie disse que em Berlim conheceu a liberdade

Depois de anos ouvindo esse discurso autocelebratório e repetitivo, o mundo provavelmente ficou de saco cheio. O resultado é uma conspiração das outras grandes cidades para depreciar a ultra-sexy Berlim e seus descolados moradores e reconquistar assim as atenções do planeta.

Uma terceira teoria

Seguindo a lógica da primeira teoria, o mundo faria um grande favor para os berlinenses se apontasse seus holofotes para outra cidade e parasse de comprar passagens de avião baratas para passar o fim de semana na capital alemã.

Mas a verdade é que muitos dos moradores de Berlim, que entendem o significado de alternativo e não compraram esse estilo de vida junto com sua garrafa de clube mate (até alguns meses atrás a bebida oficial dos descolados berlinenses), não dão a mínima se os turistas enchem ou não a cidade ou se os jornalistas acham que ela está se tornando chata. Para essa gente, Berlim é muito mais do que os seus brechós e guarda muitos mistérios inexplorados.

Tudo isso leva a uma terceira teoria: talvez alguns dos berlinenses radicais estejam por trás dessas reportagens falando mal da sua cidade. Assim eles conseguem afastar um número razoável de pessoas e podem continuar bebendo sua cerveja barata nos seus velhos bares nas suas esquinas cobertas de grafite. Pode até ser, mas nada disso vai funcionar: quem realmente conhece Berlim sabe que essa cidade nunca vai ser chata.

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