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Cultura

Berlim às avessas, em formato A6

Artista paulistano faz sátira do pseudocosmopolitismo da capital alemã numa série de cartões postais, exposta até 11 de novembro na galeria-vitrine do Kollwitz Platz, em Berlim-Mitte.

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Alberto Simon duvida da "metrópole" Berlim

O cartão postal da "cosmópole" Berlim mostra avenidas desoladas que mais lembram uma cidade do Terceiro Mundo: "Les grands boulevards", ironiza a legenda. A série do artista plástico paulistano Alberto Simon, intitulada A6, mostra o contrário daquilo que os políticos pretendem fazer de Berlim, ou seja, o cartão de visita da Alemanha reunificada.

Por trás da fachada dos projetos urbanísticos megalomaníacos que tentam – em vão – preencher os vãos de uma paisagem urbana historicamente acidentada, Simon descobre tudo aquilo que se tenta varrer para debaixo do tapete: o provincianismo social e cultural, a artificialidade e a disfunção dos espaços urbanos, o pseudovanguardismo e os desastres da nova arquitetura.

Berlim, sinfonia de uma província

Até o fim da década de 80, a aura cool de Berlim ainda era definida pelos sinais da decadência da cidade dividida, com os resquícios da guerra, as áreas deterioradas ao longo do Muro, os casarões ocupados e a improvisação de espaços coletivos nos vazios urbanos. A reunificação trouxe, no entanto, não apenas a febre das construções e reformas rápidas, que já descaracterizaram toda a parte oriental da cidade, mas também a pretensão política de tornar Berlim uma "cosmópole" – como se uma metrópole se criasse por decreto.

A série A6 satiriza exatamente este descompasso entre o marketing tecnocrático e a realidade: "A configuração urbana que surgiu com a recente ordem distrital revela uma nova coesão, distante do patchwork balcanizado de antes. Isso não é somente refrescante, mas absolutamente necessário, a fim de que Berlim prossiga sua longa metamorfose de pacata sede de uma monarquia pobre a capital vibrante da República Federal".

Entre o documento e a ficção

Em A6, Alberto Simon volta a recorrer à tensão entre a ficcionalidade do discurso (visual e verbal) e o aspecto documentário e pseudofactual da fotografia. A série Rise and Fall of DH 106 Comet (1998) já utilizara a imagem da legendária aeronave como motivo de uma ficção em torno de diferentes estéticas da vanguarda moderna – uma ficção criada através de textos pretensamente documentais e uma paródia de diferentes repertórios visuais. A série A6, por sua vez, recorre ao registro visual dos cartões postais turísticos e o amplia com outras referências pictóricas da arte design, apagando os limites entre high e low. Referências como Mondrian ou Bauhaus se diluem facilmente na estética-bazar dos suvenires.

Em sua mais recente série de fotos digitalmente manipuladas, Art and Cocaine, 1950-2000: A Survey. Curated by Alberto Simon (2001), o artista continua investigando o intervalo entre documento e ficção, simulando uma retrospectiva da produção artística das últimas décadas. Aqui ele também lida de forma virtuosa com certos "trejeitos" visuais da arte contemporânea e com os artifícios gráficos dos catálogos e revistas de arte, mostrando que a embalagem da curadoria nada contém. Trata-se de uma paródia daquilo que a indústria das artes representa para Alberto Simon: uma mera legitimação do "anything goes".

As esquinas da urbe

A investigação do espaço metropolitano e da arquitetura através da fotografia é uma constante na obra de Alberto Simon. Desde a série Along the Love Highway: the Brazilian Motel (1996), que focaliza a encenação de espaços exóticos nos motéis paulistas, o artista que emigrou para a Alemanha em 1985, após quatro anos de estada em Nova York, explorou em diversos trabalhos a artificialidade dos espaços urbanos. Em Domingão: Plane Spotters in São Paulo (1997), ele documenta como as imediações do aeroporto de Cumbica se tornam espaço de lazer. No documentário Our Lady on the Rocks (1999), realizado em colaboração com Bianca Bodau, o cenário é um antigo bordel de Butte / Montana (EUA). Alberto Simon sempre redescobre estes espaços como nichos de fenômenos sociais periféricos, marginais, ensimesmados em sua própria lógica.

A série de cartões postais de Berlim dá continuidade a esta tendência da obra de Simon. com a novidade de ser seu primeiro trabalho plástico a sair do formato do tableau. Mesmo assim, os cartões ainda inéditos foram lançados como exposição (curadoria: Pat Binder), no painel iluminado de uma esquina do Kollwitz Platz, uma espécie de galeria-vitrine em Berlim-Mitte, visível a todos os passantes, até 11 de novembro.

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